O Economista à Paisana

Um guia iconoclasta da educação

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Se o medo da pobreza e da desigualdade nos fizer deixar a imaginação, a criatividade e a perseverança para trás, continuaremos a perpetuar uma sociedade pouco empreendedora e pouco inovadora.

Com as escolas públicas finalmente a funcionar, os primeiros testes intermédios já feitos em muitas escolas e por entre o turbilhão de actividades extra-curriculares, o Economista à Paisana pondera esta semana sobre os desejos dos pais para os seus filhos e como é que esses desejos são moldados pela nossa sociedade, e também a moldam.

Com a excepção das crianças que têm uma preferência nata por física, que se regozijam com o estudo d’A Cidade e as Serras ou que têm uma paixão por tocar violoncelo associada a capacidades extraordinárias no campo da matemática, a principal fonte de tensão entre pais e filhos surge na idade escolar.

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Embora tanto pais como filhos procurem maximizar a satisfação dos filhos, tendo em consideração constrangimentos físicos e financeiros, os horizontes temporais de maximização são diferentes. Os pais procuram aumentar a satisfação em média durante toda a vida dos filhos, procurando incentivá-los a sacrificarem-se um pouco mais agora (trabalhos de casa, ensaios, etc.) para terem sucesso no futuro. Já os filhos, são míopes (economicamente falando) e só querem maximizar a satisfação na próxima hora. Será este esforço inglório e até contraproducente?

A visão dos pais sobre o que vai ser o futuro e como os seus filhos o podem navegar condiciona de forma determinante a intensidade desta luta e os valores que os pais procuram transmitir aos filhos. Os economistas Matthias Doepke e Fabrizio Zilibotti concluem num artigo recente [1] que os países onde os pais valorizam o trabalho como valor para transmitir aos filhos são tipicamente países muito desiguais tais como os Estados Unidos e a China, provavelmente porque incentivar as crianças a estudarem mais é uma forma de reduzir as hipóteses de cair na pobreza no futuro. Por outro lado, nos países nórdicos tais como a Finlândia, a Noruega, a Suécia ou a Dinamarca, que são países consideravelmente menos desiguais, a imaginação e independência são mais valorizadas, porque os pais já não receiam tanto a pobreza e podem concentrar-se em transmitir valores que fomentam a realização pessoal.

Portugal é o terceiro país mais desigual da Europa, tendo registado em 2013 o terceiro índice de Gini mais elevado depois da Bulgária e da Lituânia, segundo o Eurostat, pelo que é natural que pais se preocupem mais do que noutros países em transmitir valores de trabalho.

O inquérito European Values Survey, divulgado pelo Portal da Opinião Pública, revela quais são os valores que os Europeus consideram serem mais importantes para transmitirem aos filhos. Em Portugal, em 2008, encontravam-se aglomerados no topo desses valores a responsabilidade, a tolerância, as boas maneiras e o trabalho, referidos por cerca de 70% das pessoas. A perseverança e a imaginação encontravam-se no fim da lista, referidas apenas por 29% e 12% dos inquiridos. Na Noruega, que é o país Europeu menos desigual segundo o Eurostat, apenas 11% dos inquiridos referiam o trabalho como valor a transmitir, enquanto 30% valorizavam a imaginação. No topo encontrava-se a tolerância, referida por 91% dos inquiridos.

Os valores que transmitimos aos nossos filhos, enquanto pais, enquanto professores, são os pilares da nossa sociedade no futuro. Se o medo da pobreza e da desigualdade nos fizer deixar a imaginação, a criatividade e a perseverança para trás, continuaremos a perpetuar uma sociedade pouco empreendedora, pouco inovadora e sem sementes de criação de valor. Por isso o Economista à Paisana recomenda: deixemos os nossos filhos brincarem mais!

[1] Tiger moms and helicopter parents: The economics of parenting style, Matthias Doepke, Fabrizio Zilibotti, Vox EU, 11 October 2014

O Economista à Paisana é uma coluna quinzenal de Inês Domingos onde a autora explora temas do quotidiano vistos da perspectiva de uma economista.

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