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Política

Um país entregue à malta da manga do avião e dos tiros nos pés /premium

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A malta da “manga do avião” antes exaltava José Sócrates. Agora incensa António Costa. Já a malta do “tiro no pé” cumpriu os objectivos: correu com Passos e reduziu a oposição a um papel simbólico.

Completam-se. Complementam-se. São siameses. São a malta da manga do avião e a malta dos tiros no pé. Durante anos a malta da manga do avião justificava todos os absurdos praticados por Sócrates. Era o dinheiro que vinha do antepassado explorador de volfrâmio ou das rendas feitas pela mãe. Tudo era normal, normalíssimo. As férias milionárias, o apartamento em Paris, os estudos sem estudo, o controlo da informação, os negócios, a política de anúncios sobre anúncios… até que chegou aquela madrugada de 22 para 23 de Novembro de 2014 em que Sócrates foi preso no aeroporto da Portela. Nos dias seguintes assistiu-se a um espantoso exercício de sobrevivência: sentados em estúdios de televisão, fazendo declarações aos jornalistas, em artigos e tweets, eles teorizavam sobre a detenção, única no mundo, de alguém na manga do avião. A malta da manga do avião não sabia o que ia ser o seu futuro mas lutava pelo seu futuro.

Cruzadas todas as indignações então expressas é fácil constatar que não havia no planeta e seus arredores local algum que a esquerda achasse adequada para ser detido um dos seus. A manga do avião era o símbolo desse gesto contra-natura que é pedir contas a um político de esquerda

Entretanto a malta do tiro no pé avisava que comentar a prisão de Sócrates era como não podia deixar de ser um tiro no pé. A malta do tiro no pé era e é constituída por um grupo politicamente diverso, maioritariamente do centro que tem como denominador comum ter vivido com sobressalto e indignação nos seus costumes a chegada da troika a Portugal. Esse seu estupor foi fulanizado num ódio a Passos Coelho, líder que invariavelmente só dava tiros nos próprios pés.

Entre 2011 e 2015, se alguém queria ser consensual, admirado e elogiado bastava-lhe dizer que Passos Coelho dera um tiro no próprio pé. A fazer fé nos jornais, rádios e televisões era transversal o apoio à malta dos tiros nos pés. Marcelo Rebelo de Sousa destacou-se particularmente nestas análises dos tiros nos pés dos outros, dedicando-se semana a semana a contabilizar quantos tiros nos pés dera o Governo.

Note-se que uma das características da malta dos tiros nos pés é sobrevalizar a sua inteligência estratégica, logo foi com optimismo que, afastado Passos Coelho, resolveram levar por diante a sua via de fazer política sem tiros nos próprios pés. Em resumo, desde que Cavaco saiu de Belém (aí está outro líder que é certo que ganhava eleições mas a fazer fé no que se escrevia e dizia só dava tiros nos próprios pés) e Passos deixou a liderança do PSD que os tiros nos pés deixaram de acontecer no PSD e por consequência na política portuguesa.

Ora assim que o PSD arranjou um líder que não dá tiros no próprio pé emergiu no PS a “malta da habilidade”. Há que ter em conta que a “malta da manga do avião” agora faz de conta que nunca fez férias com Sócrates, que nunca lhe pediu cargos, que nunca lhe aturou os gritos, que nunca se calou perante os seus desmandos, que nunca disseram o que disseram enquanto ele foi primeiro-ministro e, por fim e ainda mais relevante, que manga de avião só conhecem a suculente Mangifera indica  mas agora que abraçaram a causa do ambiente até só comem manga de veleiro (comandado por príncipes do Mónaco, preferencialmente)… em resumo a malta da manga do avião transfigurou-se com particular sucesso na “malta da habilidade”. Incensam “Costa, o hábil” como outrora serviram “Sócrates, o animal feroz”.

Sob o papelão da propaganda e envolto naquela linguagem infantilóide dos papões, dos pudins, das linhas vermelhas e do “não me passa pela cabeça”, a vida está cada vez mais difícil: os serviços públicos tornaram-se serviços mínimos, o controlo ideológico aperta-se, o fisco esportula o que há e não há… e a “malta da habilidade” tudo excepcionaliza.  Sebastião Bugalho escrevia aqui há semanas que a direita tem de agradecer a Costa ele ter normalizado tudo aquilo que a direita se esforçou por conquistar.  Discordo. Costa não normalizou nada. Apenas fez o que a esquerda faz sempre: excepcionaliza. Ou seja tudo aquilo que critica nos outros é possível quando praticado por si mesma. Por isso é que Sócrates só podia ser de esquerda e por isso é que o acordo com a troika negociado pelo PS foi criticado por esse mesmo PS como se nunca o tivesse visto. E por isso quando um dia o PS deixar de ser governo e dois mochos e uma raposa morrerem num incêndio florestal o PS, o BE e o PCP virão pedir a cabeça do primeiro-ministro sem que ninguém lhes recorde Pedrogão (recordação que aliás será de imediato  apresentada como um tiro no próprio pé do infeliz que a proferir).

Entretanto parece que a malta dos tiros no pé começou a fazer contas e a perceber – eu creio que nunca percebem apenas ligeiramente enfastiados se sentem obrigados a pegar no assunto – que essa extraordinária estratégia de ter como seu principal propósito combater o seu próprio eleitorado pode não ter sido devidamente entendida por quem no limite lhes devia interessar: o seu próprio eleitorado.

Mesmo assim já fomos devidamente esclarecidos pelo dr. Rui Rio que se for necessário ele que agora lidera o partido com a maior bancada parlamentar, após o dia 6 de Outubro com as cadeirinhas que lhe restarem  vai ajudar o dr António Costa. Caladinha, a malta da habilidade faz contas e nunca mas nunca profere a expressão “tiro no pé” que repetia constantemente quando o PSD tinha líderes que, com maior ou menor acerto, tinham um projecto político para o país e não para ajudar o PS:  dada a inscrição social democrata dos bloquistas, o dr Rio vai ter concorrência forte nesse seu propósito de levar  o PS a não governar às vezes com o BE e o PCP.

Em Belém, Marcelo que oficialmente nunca deu um tiro no próprio pé faz contas à reeleição. Ou mais propriamente à rota de fuga a encetar perante o cerco em que o seu segundo mandato se pode tornar: com a direita reduzida a um grupo de estudos e reflexão, sem capacidade de colocar qualquer assunto na agenda – sim, agora que já não se dão tiros nos próprios pés, o simples acto defender os valores próprios tornou-se populismo para não dizer pior – a malta do tiro no pé teme que a malta da habilidade a dispense com um agradecimentos pelos bons e leais serviços. Afinal podermos vir a ter uma maioria de esquerda de 2/3 no parlamento é coisa que teremos sempre de agradecer à malta que levou anos a acusar de outros de darem tiros nos próprios pés. Eles pelo contrário resolveram disparar sobre o seu próprio eleitorado. E como se vê e verá foram particularmente bem sucedidos.

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