Crise financeira

Uma crise que esconde outra /premium

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Não foi o colapso do Lehman Brothers em 2008, mas o colapso das fronteiras em 2015 que provocou a verdadeira crise contemporânea.

A 15 de Setembro, fez dez anos que os empregados do banco Lehman Brothers limparam as secretárias. Tem sido fácil, desde então, simplificar a história: a maneira mais corrente é ver só a ganância dos banqueiros. Mas no princípio desde século, a banca também correspondeu ao interesse dos governos em prolongar artificialmente os bons tempos, à força de crédito arriscado. A partir de 2006, quando o petróleo atingiu valores históricos, os bancos centrais recearam a inflação, e, através de puxões dos juros, fizeram ruir a casa. Mas a era da “austeridade” depressa se tornou a era da criação de dinheiro barato, o que explica a nova euforia das bolsas e do imobiliário. Nada disso, porém, abalou os regimes ocidentais. As populações baixaram simplesmente as suas expectativas. A não ser na Grécia, a Grande Recessão fez apenas rodar no poder os partidos do costume, como em Portugal.

A crise que finalmente abalou os regimes políticos veio já quando o desemprego começava a descer. Resultou de outra decisão das elites ocidentais: a de compensar o recuo populacional com a importação em grande escala de mão de obra barata. No Verão de 2015, o afluxo ilegal de migrantes, a coberto do estatuto de “refugiado”, foi o momento Lehman Brothers dessa política demográfica clandestina. O problema não foi tanto a imigração em si, mas o descontrole e sobretudo a incapacidade de “integrar”: a este respeito, o fundamentalismo islâmico tornou apenas mais evidente o fracasso da última ilusão neo-colonial, a de que a Europa pode tornar europeu quem quer que seja. Tornou-se difícil esconder o risco de este tipo de imigração ilegal e caótica servir sobretudo para o Ocidente importar os problemas do resto do mundo. É isso, e não a Grande Recessão, que explica o Brexit no Reino Unido, um demagogo como Trump nos EUA, Salvini em Itália, Kurz na Áustria, os Democratas Suecos, Le Pen em França, ou Geert Wilders na Holanda.

É costume atribuir o sucesso dos chamados “populistas” à “ignorância” e ao “preconceito” do “povo”. Talvez fosse mais exacto, porém, admitir que os eleitores de Salvini ou dos Democratas Suecos sabem o que têm a perder. Não são apenas os bairros e os serviços sociais, pelos quais têm agora de competir com os migrantes. É, também, o estatuto derivado da identidade nacional. Um sueco não é apenas um titular de direitos sociais, mas membro de uma comunidade soberana, com uma cultura e uma história. As elites, porém, tratam agora as identidades cívicas nacionais como simples “construções”, e portanto coisas que podem ser “descontruídas” por decisão do governo. Confundindo identidade cívica nacional com o tipo de etnicismo exclusivista do século XIX (de que o nacionalismo catalão é um exemplo), as elites ocidentais dão até a entender que o fim das identidades nacionais na Europa seria uma conquista civilizacional. Não lhes ocorre que, num mundo que a globalização deixou em fluxo, essas identidades colectivas são das poucas âncoras que restam aos cidadãos — e, provavelmente, o vínculo mais efectivo para manter a coesão e a integridade das democracias e dos Estados sociais (veja-se, por exemplo, o modo como, no Reino Unido, o SNS está ligado à identidade britânica: será viável sem essa identidade? O Estado social não é só uma questão financeira).

Não foi o colapso do Lehman Brothers em 2008, mas o colapso das fronteiras em 2015 que provocou a verdadeira crise contemporânea. Ao declarar que os Estados são apenas uma espécie de aeroportos internacionais onde as pessoas passam sem nada precisarem de ter em comum, as velhas elites políticas ocidentais começaram a abandonar o “povo”, que por sua vez começou a abandonar as velhas elites. Não é difícil de compreender.

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