Durante a campanha eleitoral norte-americana ouvimos ou lemos uma palavra com muito mais frequência do que qualquer outra: polarização. Todos percebemos o que quer dizer – dois grupos de costas voltadas que deixaram de tentar compreender-se ou entender-se. Dois grupos, cuja identidade depende da existência negativa do outro. Eu existo porque sou o oposto do outro lado.

A polarização norte-americana é tão complexa e difícil de resolver porque deixou de ser apenas política e passou a ser também identidade social. Hoje, ser simpatizante de um partido político, nos Estados Unidos, faz parte de um todo identitário muito mais vasto, ligado a uma vontade assumida de querer viver junto daqueles que pensam da mesma maneira, que veem os mesmos canais de televisão, que frequentam os mesmos locais de lazer. Ou seja, a escolha de não ter qualquer tipo de ligação ao outro (quanto mais ouvir os seus argumentos) é predominante e visível no dia-a-dia dos Americanos.

Como se chega a esta situação? Quando a hiperpartidarização política (já presente há décadas nos Estados Unidos) e a hiperpartidarização social (quando a identidade de um dos partidos é posta em causa) se encontram. É uma história longa que não cabe toda aqui. Mas vale a pena contar o capítulo mais recente, porque estes dois tipos de polarização reforçam-se mutuamente.

Anos de 1990: os partidos Republicano e Democrata sofrem transformações internas. O GOP fecha-se em si mesmo. Newt Gingrich cria uma narrativa exclusivista que se veio a tornar na narrativa oficial do partido que agora é o “defensor da civilização” e da “maioria moral” (leia-se a maioria branca), que, para o país se manter inteiro, teria que reter a sua hegemonia nas instituições e nos lugares cimeiros da sociedade. Gingrich respondia ao sentimento popular de que as outras etnias cresciam e estavam a tomar posições de destaque na sociedade norte-americana, transformando os seus valores. A sua identidade estava em risco. É aqui que começa a formar-se, dentro do partido, um grupo identitariamente nativista que viria a ser maioritário. E a culminar em Trump.

Pela mesma altura, o Partido Democrata insere-se numa tendência “progressista” mais vasta, mais ocidental. Considerando que a classe média já estava suficientemente consolidada e constituía a fatia mais larga da população (ainda por cima maioritariamente branca e protestante) e que os sindicatos e demais representantes dos trabalhadores de colarinho azul se esvaziavam de força pela satisfação das suas reivindicações, os democratas entenderam que precisavam de estender a sua coligação: passaram a ter um discurso permanente de defesa das minorias, especialmente étnicas e de género, e a falar (e legislar) essencialmente para elas. A sua narrativa passou a ser a da inclusão, mas uma inclusão igualmente exclusivista e impositiva. Mais, enamorados das suas causas, tentaram impô-las ao país através de um discurso politicamente correto que já fazia parte do dia-a-dia americano, mas que se expandiu de uma forma que não tinha precedentes.

Ambos os partidos conseguiram os seus objetivos. As suas coligações tornaram-se muito mais claras. Mas essa clarificação levou a que os grupos sociais mais engajados politicamente se distanciassem de forma quase irreconciliável e a estender esta tendência pela sociedade em geral.

Ao contrário do que se diz muitas vezes, a polarização, que já vinha a adensar-se, começou a tomar as proporções que tem hoje durante o mandato de Barack Obama. No seu estudo, Liliana Mason demonstra que o assunto que mais divide a sociedade em termos partidários é a raça. Ezra Klein chama-lhe o “efeito Obama”. Para sermos inteiramente justos, o então presidente nunca mencionou o assunto a não ser quando teve mesmo que ser e tentou diluir a questão étnica o mais que pode. Mas a sua ascensão a presidente dos Estados Unidos teve efeitos nos eleitores republicanos, que viram nele uma ameaça – o homem que tinha chegado ao mais alto cargo da nação era a prova viva de que a maioria branca, em declínio demográfico paulatino, estava a chegar a um ponto de não retorno.

Donald Trump percebeu isso – não se lembram que foi um dos mais insistentes requerentes da certidão de nascimento de Obama? – e, em 2016, fez toda uma campanha eleitoral polarizadora. Apelou ao voto do “verdadeiro povo” para acabar com a corrupção das elites que só se enriqueciam a si próprias e protegiam “os seus” (leia-se as minorias); para abandonar o sistema de regalias daqueles que desistiam do trabalho árduo para viver de subsídios do Estado (leia-se minorias outra vez); e para travar os que espalhavam a criminalidade (leia-se imigrantes ilegais) por uma América pura, que sofria as consequências dos maus governos democratas.

Biden foi eleito com a maior mobilização de sempre, mas Trump, mesmo derrotado, teve mais votos que Barack Obama em qualquer dos dois mandatos. A América está tão polarizada como há um mês atrás. Os problemas estão lá e não se vão embora: continua a haver um número significativo de “trumpistas” no ramo legislativo e não há garantias de que o Senado venha a ser democrata. Além disso, o seu próprio partido, Democrata, não lhe dará tréguas quanto à sua agenda mais moderada (Bernie Sanders tem picado impecavelmente o ponto). E os Americanos continuam divididos e sem vontade de se reconciliar.

Como se resolve este problema? Com muita dificuldade. Talvez a única alternativa seja tirar partido de causas exteriores que possam unir os Americanos. Esta até pode ser uma herança não intencional de Trump para Biden: a China é vista agora pela população como o inimigo comum que ameaça a segurança e os valores dos Estados Unidos. Saiba Biden transformar a sua experiência durante a Guerra Fria numa forma de unir os Americanos e os aliados externos, numa espécie de novo início para esta época de transição de poder. É uma tarefa difícil. Mas o preço de o não conseguir, é ver os partidos políticos americanos, também eles divididos, a partirem-se e a transformarem um dos mais interessantes e bem-sucedidos projetos políticos do mundo em alguma coisa que não sabemos o que é.