NáuseaCarlos César diz que “a igreja tem de pôr a mão na consciência” sobre os abusos de menores. Carlos César diz que “a igreja portuguesa se tem mantido em silêncio no que toca a abusos sexuais e pedofilia”, mas é hora de “meter a mão na consciência”. Aliás, o Presidente do Partido Socialista diz mesmo que “em Portugal parece que não se passou nada”. Por uma questão de higiene não vou comentar o conteúdo destas palavras de Carlos César. Por uma questão de memória futura deixo um aviso: um país em que uma personagem como Carlos César tem um ascendente crescente é um país cujo regime se torna mais opaco. E também mais desabridamente boçal. Já foi assim na crise gerada pelo Estatuto dos Açores em 2008 e os anos apenas acrescentaram essa atitude de sobranceira impunidade que caracteriza Carlos César: a forma como actuou na não recondução de Joana Marques Vidal em 2018 e agora esta declaração sobre o silêncio da Igreja portuguesa “no que toca a abusos sexuais e pedofilia” mostram como Carlos César sabe que cada vez menos pessoas têm coragem para perguntar: quando chega a hora de o PS “meter a mão na consciência”?

Combates selectivos. “Uma professora da Escola Básica da Torrinha, no Porto, foi agredida ‘a soco e pontapé’ à porta do estabelecimento por uma encarregada de educação, revelou esta quinta-feira à Agência Lusa fonte da PSP. De acordo com a mesma fonte, o incidente ocorreu quarta-feira e a PSP foi chamada ao local cerca das 10h50, tendo a vítima apresentado queixa junto daquela força policial. A professora, de 45 anos, também se dirigiu ao hospital de Santo António, no Porto, para receber assistência médica.”

Se usarmos para esta agressão a grelha actualmente em voga para a violência dita doméstica temos de perguntar também se a agressora já foi interrogada e sujeita a alguma medida cautelar. E claro indagar a que resultados chegaram, por exemplo, os 87 inquéritos de agressões contra professores que o Ministério Público de Lisboa abriu em 2017. Houve condenações? E se houve estas resumiram-se às penas suspensas e multas do costume ou foram aplicadas medidas de prisão? E os juízes o que escreveram nos acordãos? Citaram a Bíblia, Piaget ou Freinet? Há juízes reincidentes na absolvição dos agressores de professores? Como se chamam esses juízes?… Vamos usar esta táctica de pressão e fulanização dos juízes nos casos das agressões aos professores ou este tipo de argumentário só é válido quando está em causa o tema em agenda?

Há algo de esquizofrénico na presente parcelização da violência: a única violência de que se fala é a doméstica. Vamos ter mesmo na próxima semana um dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica. As outras vítimas de violência não merecem atenção? A violência entre os jovens é uma espécie de elefante no meio da sala e assim vai continuar até que um facto mais grave obrigue a que se deixe de fazer de conta que não está a acontecer nada. A violência exercida sobre as figuras de autoridade, de que os professores são o exemplo mais evidente mas que também atinge funcionários das escolas, pessoal de saúde e polícias, é subestimada quer nos números, quer nas consequências. Mas paremos para pensar um pouco: o que será um professor ter de voltar a enfrentar a turma em que um dos alunos o esmurrou? Ou em que um pai lhe deu uma cabeçada que o fez desmaiar? Ou em que uma mãe o pontapeou? Qual o impacto dessas agressões no comportamento e nas vidas dos alunos que assistiram a esses momentos umas vezes aterrorizados, outras na galhofa, outras desviando o olhar?

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.