Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Por razões sortidas, passei algum tempo a reler um longo ensaio inédito que há algum tempo escrevi a partir de uma breve entrada sobre “Utopia” para um dicionário de filosofia moral e política. Uma passagem desse ensaio lida com aquilo que me parecia (e ainda me parece) uma falácia própria a muita história das ideias: a falácia que consiste em por inteiro deduzir as encarnações históricas do terror de um certo número de textos filosóficos (não apenas os dos utopistas), confundindo assim duas ordens que eventualmente se cruzam mas que não se confundem uma com a outra. Porque a questão me parece possuir alguma pertinência geral, decidi-me a reproduzir no artigo de hoje, sem qualquer alteração que não seja a omissão de alguma referência bibliográfica, a passagem em questão.

A estrita regulamentação que encontramos na maioria das utopias – o controle apertado do comportamento do indivíduo pelo Estado, a unanimidade festiva, a transparência social, etc. – não nos deve fazer cair na ilusão retrospectiva de as considerarmos “totalitárias”. Qualquer que seja a pertinência das análises célebres de Karl Popper em The Open Society and Its Enemies, a Cidade ideal platónica não é “totalitária”, pelo menos se entendermos que a palavra “totalitarismo”, para ser usada com sentido, se refere a um certo número características partilhadas pelos regimes comunistas e pelo nazismo, características essas que foram analisadas em detalhe por Hannah Arendt em The Origins of Totalitarianism.

Nesse sentido – e não se vê verdadeiramente como possa haver outro – a Cidade platónica não é “totalitária”, e Popper não tem razão quando afirma que “o programa político de Platão, longe de ser moralmente superior ao totalitarismo, é-lhe fundamentalmente idêntico”. Como não é “totalitária” a Utopia de More, ou a Abadia de Telemo de Rabelais, contrariamente ao que pretendeu André Glucksman.

Devemos, portanto, ter cuidado com o “movimento retrógrado do verdadeiro”, “miragem do presente no passado”, para falar como Henri Bergson. O que também não significa uma total inocência das utopias neste capítulo. Glucksman, na sua análise da Abadia de Telemo, insiste num ponto que, embora dificilmente aplicável a Rabelais, aparenta o mundo imaginado por certas utopias ao totalitarismo: a obrigação de ser feliz. O célebre “Fais ce que tu voudras” denunciado por Glucksman só pode ser “totalitário” se for, de facto, imperativo (e Glucksman pretende que o é), como é, por exemplo, em Brave New World a liberdade sexual: “ao mesmo tempo, total e obrigatória”. E esse imperativo é solidário – este ponto é importante – da pura e simples ausência de leis. Em 1984, Winston Smith redige um diário. Orwell escreve: “Isso não era ilegal (nada era ilegal, já que não existiam nenhumas leis), mas, se fosse descoberto, era quase certo que fosse punido com a morte, ou pelo menos com vinte e cinco anos de trabalho forçado”. Orwell tem obviamente em mente a experiência da União Soviética, uma experiência que, de facto, dá corpo a algo que se encontra já em Marx – a crítica do “direito burguês”, esse poço de “traficâncias de ideólogos e de juristas”, a “velha litania democrática que corre o mundo”, a “democracia vulgar”, o “democratismo” (Crítica do programa do partido operário alemão) – e que Lenine, nesse pequeno compêndio de totalitarismo que é O Estado e a Revolução (leiam-se, no Capítulo V, as páginas sobre a famigerada “ditadura do proletariado”), se encarregará de explicitar ao seu modo tradicionalmente brutal: o “direito burguês”, passada a “primeira fase da sociedade comunista”, a da “ditadura do proletariado”, desaparecerá integralmente.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.