NobodyexpectstheSpanishInquisition!, como se sabe desde os MontyPython. Mas a verdade é que ela de vez em quando aparece. E, nesta União das Repúblicas Socialistas da Península Ibérica que se começa a anunciar, ela tem campo onde florescer. Se, em Espanha, o PSOE der a mão ao Podemos e conceder a Pablo Iglesias metade do que este lhe pede (melhor: exige), podemos ter a certeza de que vão soprar por aí uns ventinhos muito inquisitoriais a fazerem companhia às desgraças materiais. Basta ver o apetite do Podemos por lugares que, num Governo a vir, lhe assegurariam um indisfarçável controle ideológico do Estado: Centro de Investigações Sociológicas, Boletim Oficial do Estado, Centro Nacional de Inteligência, Oficina dos Direitos Humanos. Tudo, directa ou indirectamente, sob a tutela de Iglesias. Além da Vice-Presidência, é claro.

E Pablo Iglesias tem até todas as qualidades requeridas para ocupar o lugar de Grande Inquisidor dos nossos tempos. Quem leu alguma da prosa que ele produziu não tem razão alguma para disso duvidar. A velha inteligência do leninismo na captura do poder não lhe falta, como não lhe falta a facilidade em designar inimigos aos quais promete tudo menos delicadeza no tratamento, como testemunham, entre outras coisas, os sarcasmos ferozes em que abunda. Os inimigos não são um ou dois. São muitos, e cabem todos dentro de uma designação apropriadamente genérica: “Partido de Wall Street”. Se o lermos, percebemos facilmente que a designação é própria para fazer caber dentro dela toda a gente que, por uma razão conjuntural ou outra, lhe convenha meter dentro de um saco, o saco onde ele quer ver tudo o que lhe aparece como “lixeira da Europa”. O que fará quando o saco estiver cheio não é difícil de adivinhar.

E é, de resto, muito explícito quanto aos processos para fabricar o saco: cooperar com as forças armadas, as forças de segurança, os juízes, os responsáveis das finanças públicas, as administrações locais, autónomas e estatais e os profissionais dos meios de comunicação. Dir-se-á que declarar isto não é, com a reveladora excepção dos profissionais dos meios de comunicação, declarar coisa diferente do que declaram os representantes dos partidos democráticos quando ambicionam o poder ou quando lá se instalam. Falso, para não dizer falsíssimo. Porque “cooperar com” quer aqui apenas dizer, muito brutalmente, controlar, e controlar absolutamente, à velha maneira leninista, sem dó nem piedade.

Por esta altura, andamos nós, cá em Portugal, muito preocupados, e a justo título, com as catástrofes em que António Costa, com oportunismo e ignorância em iguais doses, nos anda a meter. E muitos de nós somos assaltados de perplexidade face ao quase irreal espectáculo de ver Catarina Martins, Arménio Matos e Mário Nogueira participarem activamente na condução, como se diz, do nosso destino. Para não falar da importância que adquiriu no PS um grupo de gente nova que jura, em público ou em privado, pela cartilha de Varoufakis, com a terna benevolência de certas figuras seniores do “socratismo”, ao qual muitos desses jovens, de resto, pertenceram. Ora, estas preocupações e perplexidades muito legítimas arriscam-se a parecer retrospectivamente um oásis de normalidade (que não são) se o Podemos chegar ao poder em Espanha.

Imaginem, se quiserem, o que aconteceria com essa gente caso tal venha a acontecer. O que eles dizem e fazem agora será entusiasticamente multiplicado por mil. E não duvidem que Costa, com o seu oportunismo e ignorância (vale a pena repetir), lhes dará, se vir utilidade pessoal nisso, rédea larga, até para a perseguição ideológica da vasta comunidade dos hereges que, dada a flexibilidade táctica da expressão, fatalmente serão designados como pertencendo ao Partido de Wall Street. De resto, pessoas com grande dose de imaginação e sofisticação teórica, já falam, desde há algum tempo, de “colaboracionismo” (conhecendo perfeitamente todo o peso histórico do termo), e uma mente brilhante recentemente despontada no firmamento socialista, até se lembrou de trazer à baila o nome de Miguel de Vasconcelos.

Por isso, caso o Podemos de Iglesias chegue ao poder em Espanha, o melhor é começarmos todos a preparar as nossas confissões. Não digo que elas tenham de ser suscitadas pelos sábios métodos de Frei Nicolau Emérico. Há outros modos mais subtis e igualmente eficazes, e não faltam por aí grupinhos de gente competentíssima para os aplicar a preceito. Por mim, já ando a preparar a coisa. Se se chegar ao ponto decisivo, estou muito disposto a confessar que foi por pura inadvertência que li Popper, Hayek e até (caso o interrogador siga escrupulosamente a doutrina do Grande Inquisidor) Habermas, “que se ajoelhou perante o Borbón”. A minha ignorância, uma ignorância obviamente sem desculpa, não me tinha permitido adivinhar que isso representava um comércio interdito com um bando de víboras lúbricas e hienas escreventes. Talvez pela ira e agastamento que tinham tomado conta de mim. Mas prometo, se tal for necessário, conceder doravante toda a atenção aos miraculosos discursos de Nicolás Maduro. Apesar de tudo, ainda se ouve neles, maviosa, a voz de Hugo Chávez, franciscanamente transformado em passarinho. Está aí tudo o que precisamos de saber. E, se mais houver para ler ou ouvir, tudo farei para não falhar, como até agora falhei e repugnantemente pequei. Um conselho: preparem-se também. Mais vale prevenir do que remediar. E lembrem-se que, em certas circunstâncias, a Europa não pode nada por nós.