E na minha rude e grata
Sinceridade não esqueço
Meu antigo português puro
Que me geraste no ventre de uma tombasana
Eu mais um novo moçambicano
Semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
E seminegro para jamais renegar
Um góbulo que seja dos Zambezes do meu sangue

(José Craveirinha, poeta moçambicano, do poema “Ao Meu Belo Pai ex-Emigrante”, no livro Karingana wa Karingana)

Os mestiços, certos mestiços, é preciso dizer, passaram a ter nos media portugueses o tratamento pigmentar de negros. Estará a começar a dar-se por caduca, na sua inocência, a razão, que desde tempos antigos sempre levou a identificar como mestiços (também mulatos, pardos ou caboclos) seres que, vindos de miscigenações de duas raças entre si diferentes, não eram iguais a nenhuma delas?

O preconceito (também podia ser ignorância, mas não é) que porventura explica esta subjugação da natureza por coisas como a cultura e talvez mesmo a ideologia, também choca pela forma selectiva como a nova terminologia é aplicada. Barack Obama, Halle Berry, Lee Hamilton e agora até Kamala Harris, entre outros, todos mestiços, são apresentados como negros. Já os mestiços comuns, desses com que nos cruzamos nas ruas, esses, gente “de cor”, não merecem a distinção. Porque lhes falta o que aos outros sobra – poder, influência e prestígio?

A biografia de Barack Obama apresenta-o como filho de pai negro e mãe branca. Sendo fruto de duas raças originais é impróprio conotá-lo apenas com uma delas – como também se verificaria se lhe chamassem branco. Kamala Harris, o mais recente “achado” destas malas-artes, é também o mais forçado: a alvura do tom da sua pele indica que nenhum dos seus progenitores é sequer negro. A genética é o que é e nada sugere que deixe de o ser!

Que o artifício da transfiguração de mestiços em negros tenha vingado nos EUA, há coisas que, à luz das realidades da terra, explicam – umas aceitáveis, outras nem tanto. Estranha é a transposição da “tendência” para um país cuja história, em especial a das seculares andanças das suas gentes por partes do Sul, lhe legou um património único no que toca a cruzamentos de raças e de culturas.

Os mestiços, diz a história, começaram por ser “obra” de portugueses nas suas errâncias por tantas partes do mundo. Cinco séculos depois, outros portugueses, sentados à mesa de apresentação de um telejornal ou plantados atrás de um púlpito para discorrer sobre magnos temas das ciências sociais e políticas, deixam-se levar pela artificialidade da sua extinção.

Há só um problema. As notícias (ou as exaltações) sobre a “eleição da primeira vice-presidente negra da história dos EUA”, são bota que não joga com a perdigota – neste caso, o simples retrato de Kamala Harris. Vê-se na cara que uma coisa não condiz com a outra.

Acontece ainda que em nenhuma parte do mundo, tanto quanto em África, esta moda que “manda olhar, mas a não ver” deve confundir tanto. Não há ali, berço da raça negra, maneira alguma de fazer passar um mestiço senão como uma raça, fruto da miscigenação de duas distintas raças.

Os teus defeitos são graças
que mais me prendem querida…
Mistério de duas raças
Que se encontram na vida

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Filha de um branco que morreu na guerra
E de uma preta linda do Libolo
O teu olhar até de noite encerra
Todo o luar das noites do Catolo.

(Tomás Vieira da Cruz, poeta angolano. Dos seus poemas “Mulata” e “Flor de Bronze”)

P.S.: Em Angola, terra de onde sou e de onde vim, ensinavam-nos a empregar a palavra preto e não negro para identificar alguém dessa cor. Ficávamos também a saber (ou íamo-nos apercebendo disso), que chamar negro a um preto era ofensivo – sobretudo se a palavra viesse acompanhada de um palavrão. Mantenho-me fiel ao princípio. Só para facilitar uma melhor compreensão do sentido do que aqui fica dito, uso o termo negro.

Vale também que procedo de uma família de que faz parte gente de todas/todas as raças. Todos e cada um de nós sentindo-se bem com a cor branca, preta ou mestiça da sua pele e vendo nisso não mais que a mão da Natureza.