António Costa

Chapa dada, chapa tirada

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António Costa definiu esta semana a sua política como sendo de “chapa ganha, chapa distribuída”. O que não disse foi que muitas chapas distribuídas não são de facto chapas ganhas, mas chapas falsas.

Na semana em que Mário Nogueira tomou novamente os filhos dos contribuintes como reféns, para exigir desta vez um resgate de 650 milhões de euros, Mário Centeno lembrou que a boa conjuntura internacional pode ter um reverso: taxas de juros mais elevadas, e logo um endividamento mais caro. Eis uma ocasião para falar da nossa história de sempre: as boas notícias inspiram exigências, os governos dão, e depois as notícias deixam de ser boas, e há que tirar o que se deu.

Desde a II Guerra Mundial, os portugueses conseguiram regularmente prosperar no comércio com a Europa ocidental, um dos maiores mercados do mundo. Mas também regularmente, essa prosperidade foi usada pelos governos, da esquerda e da direita, para prometer e garantir rendas e estatutos para além do que era sustentável. Foi a esta política que António Costa chamou, esta semana, “chapa ganha, chapa distribuída”. O que não disse foi que muitas chapas distribuídas não são de facto chapas ganhas, mas chapas falsas.

A política das “chapas” não resulta apenas das expectativas e da euforia dos cidadãos, mas do cinismo de regimes e de governos decididos a ganhar popularidade hoje por meio de compromissos inviáveis amanhã. Por isso, sempre que o mercado externo foi menos favorável, houve crises, ou seja, descobriu-se que as chapas eram falsas. Tivemos então resgates internacionais (em 1978, 1983, 2011), mas também a degradação das “chapas distribuídas”: no tempo do escudo, através da inflação, que corroeu silenciosamente salários e prestações sociais, ou da restrição da protecção estatal aos que já estavam anteriormente protegidos; na época do euro, através dos cortes e das flexibilizações da troika. Em qualquer dos casos, foi “chapa dada, chapa tirada”.

A capacidade do país de aproveitar o mercado europeu diminuiu desde a década de 1980. A partir de 2000, sem as desvalorizações do escudo, Portugal não foi capaz de acompanhar a globalização. Limitou-se a explorar os juros do Euro para se endividar. Entre 2011 e 2014, corrigiram-se desequilíbrios e foi possível tirar partido da conjuntura internacional. A economia voltou a crescer e o desemprego diminuiu. Como seria fatal, desembocámos logo numa nova época de distribuição de chapas. Qual é o problema desta distribuição? Tem favorecido especialmente o funcionalismo sindicalizado, e, como de costume, não é claro que seja sustentável.

Que acontecerá se a conjuntura mudar? Como admitiu Centeno, nem será preciso uma nova crise. Basta que a prosperidade justifique o fim do dilúvio de dinheiro barato com que os bancos centrais tentaram diluir a recessão de 2008. As nossas dívidas apertar-nos-ão logo os pés, como sapatos que encolhessem subitamente. Não podíamos ter prova mais extrema da nossa vulnerabilidade: sofreremos se a conjuntura piorar, sofreremos também se continuar a melhorar.

Com uma sociedade envelhecida, uma carga fiscal que impede a acumulação de património, uma taxa de poupança quase nula, uma produtividade estagnada, e um governo que, para se manter no poder, agrava constrangimentos e multiplica compromissos, vai a história, desta vez, ser diferente? Isto é, vão as chapas valer o que agora dizem que valem? Os oligarcas dizem que sim. O “diabo não vem”, clamam com gáudio. Acreditam em Mario Draghi e na sua tipografia de dinheiro. Acreditam também em António Costa e na sua fábrica de equívocos: como agora, no caso de Mário Nogueira, em que o governo “cedeu”, mas para pagar daqui a dois anos, numa próxima legislatura … Nos meios financeiros internacionais, entretanto, correm rumores ansiosos sobre o estouro da bolha bolsista gerada pelos juros baixos. Nuno Amado, o presidente do BCP, disse há dias: “espero que não haja uma nova crise…” Resta-nos esperar o mesmo.

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