Não é, por enquanto, uma discussão que agite as mini hostes portuguesas. Talvez nem chegue cá – pelas más razões: a falta de confiança dos portugueses no seu discernimento para tomar decisões, acrescida do respeitinho do costume aos ‘senhores doutores’ que vigiam a nossa saúde.

Mas no mundo anglo-saxónico, como sempre, a discussão de vacinar ou não os filhos, se cabe aos pais a escolha de vacinar, se há ou não ligação entre vacinas e autismo, se os dados científicos são fiáveis, bom, é fulgurante. O número de anti-vaxxers tem crescido, acompanhado como se esperava de surtos de sarampo pelos Estados Unidos.

Claro que é reconfortante pensar que do lado científico é tudo confiável, move-se apenas pela procura do conhecimento, que é normal o processo científico analisar, testar, reavaliar e, se necessário, corrigir. Mas os cientistas têm o mesmo defeito das outras profissões – pertencem à espécie humana – pelo que podemos estar seguros de haver neste processo de aquisição de saber invejas, vinganças, posições que se tomam para expor o concorrente de quem não gostamos (em vez de por amor à ciência), egos que dificultam o reconhecimento de que a conclusão anterior estava errada. E, claro, uma indústria farmacêutica cujo objetivo é (e deve ser) ter lucros, pelo que se um medicamento ou vacina aparenta ser razoavelmente eficaz sem demasiados efeitos secundários, então não há incentivo para procurar alternativas mais inócuas. Sim, cientistas e farmacêuticas podem estar erradas.

E é certo que de um burocrata estatal esperamos caos e calamidade se lhe for dado poder de decisão sobre a nossa vida e a dos nossos filhos. Mas os filhos são pessoas, não propriedade dos pais e o estado não deve permitir-lhes comportamentos lesivos da saúde ou das perspetivas de futuro. Não cabe aos pais decidir (neste mundo viciado em tecnologia) que os filhos podem viver felizes e analfabetos. Nem podem colocar em risco a sua saúde física e mental espancando-os ou abusando sexualmente deles – para dar dois exemplos extremos.

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Há que encontrar um equilíbrio entre as decisões que cabem aos pais e as imposições do estado. E, como sempre, do lado esquerdo confia-se na omnisciência do estado e do lado direito no discernimento dos pais.

Mas as vacinas – e a falta delas – afetam de forma determinante a saúde das pessoas. São uma grande causa da diminuição da taxa de mortalidade. E afetarão tanto mais quanto existir um número crescente de crianças, depois adolescentes e depois adultos, que não está protegido pelas vacinas. Não considero legítimo que os pais prescindam – dando ouvidos a investigações científicas sobre ligações ao autismo que se revelaram uma fraude e aos inevitáveis maluquinhos da internet – de instrumentos fundamentais para a saúde dos seus filhos. Mesmo com as desconfianças – no meu caso sempre hiper-activas – dos burocratas, das farmacêuticas e da comunidade científica.

Mas rejubilemos, que o debate acabou de se tornar ainda mais malsão: os políticos tomaram partido. Obama veio aconselhar os pais a vacinarem os seus filhos. E como cada ação tem uma reação, o governador Chris Christie (republicano) defendeu uma maior participação dos pais nessa decisão, consoante as vacinas e as doenças. O senador Rand Paul – republicano libertário que tem a característica de estar inteiramente certo nuns assuntos e inteiramente errado noutros – estatelou-se ao defender que a vacinação é uma decisão apenas dos pais e que há inúmeros casos de autismo como resultado de vacinas. No último round, Hillary Clinton, usando autoridade de avó, tuitou ontem que as vacinas funcionam. Aí temos: as vacinas já são assunto para as presidenciais americanas de 2016.

Até parece que concordo com Obama e Clinton, não é? Não sei, porque em 2008 ambos piscaram o olho aos pais reticentes às vacinas e aludiram a uma possível ligação entre vacinas e autismo. Se calhar antes dos estudos eleitorais concluírem que ao contrário do que se supunha são os pais republicanos, e não os new agers ou a malta de Hollywood (todos a votar democrata), os mais desconfiados das vacinas.

Ora nada pior do que tornar a ciência objeto de lutas política.

Qualquer pessoa de bem já tem contabilizadas algumas gargalhadas à conta do criacionismo ensinado como se uma teoria científica se tratasse. O filme Inherit the Wind continua atual nos lados da direita religiosa americana.

Do lado esquerdo temos o dogma do aquecimento global. Eu – que reciclo (porque faz sentido reutilizar em vez de desperdiçar), que entendo os benefícios de respirarmos ar despoluído, bebermos água limpa e não termos solos contaminados, e que aprovo uma gestão sustentável dos recursos do planeta – confesso que vejo mais fanatismo nos defensores do aquecimento global do que segurança vinda de uma investigação conclusiva. E, de cada vez que se alude às temperaturas que não subiram nos últimos anos ou à não ocorrência dos vários cataclismos climatéricos que nos tinham prometido, a resposta é mais ferocidade que ciência.

Na energia nuclear passa-se o mesmo. Não tenho opinião sobre o assunto e duvido que venha alguma vez a tê-la. Porque os dois lados estão tão politicamente conotados que não percebo onde acaba o argumento científico e começa o político. Não estou segura de que um extremo não esteja disposto a comprometer os evidentes riscos de segurança para ter energia mais barata; e que no oposto não se ignorem desenvolvimentos tecnológicos que tornem as centrais nucleares mais seguras para manter um estandarte político.

Pelos vistos vamos ter este folclore também na discussão das vacinas. Os argumentos relevantes – os científicos – vão-se misturar nas considerações ideológicas e às tantas serão mais importantes os eleitorados que se ganham ou perdem por defender vacinas ou escolha dos pais do que a saúde das crianças em idade de serem vacinadas. E, em boa verdade, não deve ser para isto que serve a política.