Política

Não há nenhum trauma com a direita

Autor
320

Façam lá o que entenderem com o PSD, mas saibam que não só há direita por cá como há um magote de gente pouco ideológica que vota sem nenhum problema num partido de direita se o líder for convincente

Já pensei várias vezes escrever esta crónica. Mas já escrevi estes argumentos, ou partes deles, tantas vezes em tantos fóruns, incluindo blogues, e já azucrinei os ouvidos de tantas boas almas com a mesma lista, que quase parecia batota estar quase a fazer um copy paste aqui para o jornal. Mas hoje tem de ser.

Um cidadão distraído (ou, vá, picuinhas nas matérias de Ciência Política) nos últimos tempos foi informado que o PSD se tornou um partido retinto e infame de direita. Ah, e neoliberal, muito neoliberal. O mesmo cidadão, depois de se engasgar por haver ignaros que consideram que ‘enormes aumentos de impostos’ e cortes de subsídios de Natal e sobretaxas do IRS são medidas de cariz liberal (só uma pista bem intencionada: são medidas estatistas e anti liberais), fica a saber também que é um crime de lesa pátria haver um PSD de direita. Afinal se isto continuar para onde vão os socialistas todos do PSD que por azar dos Távoras (e nosso) se enganaram e não se filiaram no PS?

Claro que o cidadão na posse de dois neurónios se recorda que a acusação de Manuela Ferreira Leite ter acantonado o PSD demasiado à direita esteve muito em voga em 2009, incluindo por destacados passistas. Qualquer pessoa não distraída sabe que um dos insultos preferidos dos militantes do PSD é ‘és de direita’. Dizer a alguém ‘seu neoliberal’ vem mesmo antes de lhe atirar a luva à cara e combinar armas e padrinhos para o dia seguinte.

Se o leitor, habituado a países com clivagens ideológicas normais, não me acompanha, eu explico: o PSD não pode ser de direita porque não há pessoas de direita em Portugal. Dizem os tais militantes socialistas do PSD e as redações dos órgãos de comunicação social, e comentadores derivados, que julgam que o BE salvará a Via Láctea. Com audiências e receitas decrescentes, refira-se, porque também mingua o público que com eles concorda.

Bom, façam lá o que entenderem com o PSD, mas convém esclarecer que não só há direita por cá como há um magote de gente pouco ideológica que vota sem qualquer problema num partido de direita se o líder (que é o que tem faltado) for estruturado, convincente e não deixar de lado a preocupação com os mais pobres. Apresento alguns factos abonatórios da minha tese.

Sempre que a esquerda usou a carta do fascista ou do ‘neoliberal’ ou até do direitista em eleições, perdeu. Em 2001 com Vasco Lourenço, que supôs que insultar de fascista o opositor convencia alguém a votar em João Soares – ganhou Santana Lopes. Nas eleições presidenciais de 2006, em que Soares julgava insultar Cavaco garantindo que na Europa ninguém via Cavaco como sendo de esquerda ou centro-esquerda – Soares foi humilhado. Em 2011, o insulto de ‘neoliberal’ foi repetido vezes sem conta para atacar tanto PSD como CDS – juntos, tiveram mais de 50% dos votos, muito além de uma mera maioria absoluta parlamentar. Em 2015, depois de todos os sacrifícios do período de ajustamento, e também dos muitos erros da coligação, debaixo novamente de chuvas intensas de supostos insultos de neoliberalismo, a coligação ganhou as eleições e o PSD elegeu mais deputados que o PS.

Donde: o eleitorado português está-se marimbando para acusações de direitismo e neoliberalismo. É certo que não somos um povo que ama excessivamente a liberdade (como, de resto, se vê pela complacência com a geringonça) e aceitamos-lhe de bom grado atropelos. Mas, por outro lado, não há nenhum trauma em votar à direita, e menos ainda nas populações que, como eu, sempre viveram em democracia. Em boa verdade, a minha geração, que viu na adolescência a queda do muro de Berlim e a derrocada do inferno soviético, e se recorda da exposição dos esplendores económicos comunistas, é muito mais avessa a derivas esquerdistas radicais que a qualquer direita soft europeia.

De resto a votação das últimas autárquicas em Lisboa devia fazer soar umas campainhas a quem ainda tiver capacidade auditiva para ouvir os tlim-tlim. No eleitorado lisboeta, mais rico, exigente e educado que a média nacional, não houve qualquer pejo em trocar uma candidata do PSD, que quase não saiu dos bairros sociais, pela candidata mais à direita do CDS (que também foi a bairros sociais e tinha discurso social mas cujo programa foi muito além destes enclaves). Não é a primeira vez que tal acontece. Em 2011, a boa votação do CDS em Lisboa deveu-se ao crescimento nas secções de votos dos eleitores mais novos.

Como Carlos Guimarães Pinto escrevia há tempos no twitter, a receita de maior rendimento disponível conjugada com menos serviços públicos (as tais cativações e as trinta e cinco horas semanais, com a consequente poupança nos equipamentos e nos tempos de serviço às populações), que tem tido aprovação popular, é uma medida de cariz liberal. Basta explicar isto mesmo, digo eu.

Quanto ao PSD: partido socialista por partido socialista, os eleitores escolhem sempre o original. As pessoas preferem os produtos que percebem o que são.

Nota final. Ontem na estação de barcos da Soflusa no Barreiro, perante a falta de travessias do Tejo, houve altercações. Uma amiga colocou no Facebook fotos de militares com cães. Num momento twilight zone, a empresa pública terminou o dia sugerindo às populações que não usassem os barcos nas horas de ponta. O socialismo e as empresas públicas são assim: barcos parados por falta de arranjo, má gestão e já a mulher de Mao Zedong dizia que preferia os comboios atrasados comunistas aos comboios pontuais capitalistas.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Natal

Em defesa do consumismo

Maria João Marques
126

Recomendo que ameacem os moralistas de algibeira de ficarem sem presentes de Natal se continuarem a maçar. Pelo menos enquanto não criarem as ovelhas cuja lã processarão para tricotar toda a sua roupa

Governo

Lições de propaganda

Maria João Marques
315

Percebo que o ministro Cabrita deu o melhor uso possível àquele pedaço de tempo: dormiu. De facto não se deseja ao pior inimigo, nem sequer a um ministro da geringonça, uma tarde a ouvir António Costa

Saúde da Mulher

Rastreios e outro direito a escolher

Maria João Marques
218

Concluímos que estas decisões existem para permitir que se gaste mais em salários no SNS. Menor controlo do cancro da mama pela melhor causa: o PS comprar uns tantos votos aos funcionários públicos.

Política

Quanto vale o sr. ministro para o povo?

José Miguel Pinto dos Santos
405

Para o povo, o sultão só passa a valer algo mais que nada quando começa a dar-lhe algo mais do que lhe tira. E em Portugal quanto suga o Estado ao povo? Quanto valem Centeno&Costa para os portugueses?

Livros

Livros para o Natal (I)

João Carlos Espada

Três livros sobre a indispensável associação entre liberdade e sentido pessoal de dever.

Governo

Quem tem a palavra final? Costa ou Centeno?

Margarida Mano

As Finanças dizem não ter dinheiro para cumprir o prometido ao Ensino Superior. Daí a pergunta: vai a palavra dada pelo primeiro-ministro ser honrada? Ou impõe-se de novo a falta de liquidez do país?

Governo

Olh'ó boneco!

Helena Matos
298

O “Marcelo dos afectos” e o “Trump, pá" são os dois bonecos omnipresentes na nossa vida político-mediática. O primeiro foi eleito por nós mas não é responsável por nada. O segundo tem a culpa de tudo

Governo

Quem tem a palavra final? Costa ou Centeno?

Margarida Mano

As Finanças dizem não ter dinheiro para cumprir o prometido ao Ensino Superior. Daí a pergunta: vai a palavra dada pelo primeiro-ministro ser honrada? Ou impõe-se de novo a falta de liquidez do país?

Livros

Livros para o Natal (I)

João Carlos Espada

Três livros sobre a indispensável associação entre liberdade e sentido pessoal de dever.

Só mais um passo

Ligue-se agora via

Facebook Google

Não publicamos nada no seu perfil sem a sua autorização. Ao registar-se está a aceitar os Termos e Condições e a Política de Privacidade.

E tenha acesso a

  • Comentários - Dê a sua opinião e participe nos debates
  • Alertas - Siga os tópicos, autores e programas que quer acompanhar
  • Guardados - Guarde os artigos para ler mais tarde, sincronizado com a app
  • Histórico - Lista cronológica dos artigos que leu unificada entre app e site