História

Não tenho culpa da escravatura. E não pago.

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Nada tenho contra debates sobre a escravatura, nem investigação histórica sobre o tema. Mas vou já avisando que não tenho culpa nenhuma do que se escravizou e comerciou até ao século XIX.

Os problemas (ou, diriam as más línguas efabulações de mentes pouco ocupadas com assuntos do mundo de três dimensões) que de vez em quando magica a elite jornalística e comentadeira mais à esquerda são avassaladores. De súbito, (invento um exemplo) lembram-se como é uma discriminação atroz atentatória dos mais básicos direitos humanos que as obras de ficção nas bibliotecas dos países europeus contenham mais protagonistas masculinos e brancos do que femininos e com outros tons de pele. Donde, é melhor banir todos as obras de ficção com protagonistas masculinos – em vez de se perceber que os autores eram maioritariamente masculinos e brancos durante séculos, porque era essa a maioria da população escolarizada, pelo que apta a criar romances onde escrevia o que conhecia; e, de seguida, aproveitar para notar a perda de talento que foi o facto de outros grupos, incluindo mulheres, não serem igualmente escolarizados e capazes de usar a veia para contar histórias

Se o leitor pensa que inventei um exagero, que lá estou eu com imaginação hiperativa, saiba que é uma ligeiríssima adaptação da petição dos alunos de Yale para anular a cadeira Grandes Poetas Ingleses. Incomodava-os – aí vem – estudarem sobretudo brancos e machos. Diziam estes argutos alunos que havia que ‘descolonizar’ esta área. Afinal, quem quer ler Shakespeare ou Chaucer quando pode ler um habilidoso com as rimas de uma aldeia da República Centro Africana?

Ou levíssima adulteração da reivindicação dos alunos da School of Oriental and African Studies, em cuja biblioteca eu já passei umas boas horas a ler edições da The China Quarterly, para que se abandonasse o estudo de Platão, Kant e outros presumidos filósofos que partilhavam a característica intragável de serem brancos. Preferem os filósofos orientais, reclamam os estudantes orientalistas. Percebo-os. Eu própria, graças aos ensinamentos do Instituto de Estudos Orientais da Católica, posso discorrer sobre as várias escolas filosóficas do hinduísmo, e dizer coisas sobre Confúcio, Mencio, Xunzi, Laozi. Já ganho ímpetos de espetar agulhas em pessoas quando leio argumentos do calibre ‘confrontar a herança estrutural e epistemológica do colonialismo’. Não se vislumbram tolices destas n’Os Analectos.

Bom, por Portugal pastoreia-se agora um tema tão pertinente quanto os anteriores. Tome conhecimento o leitor que precisa de dedicar amplo tempo do seu dia à problemática da escravatura. Escravatura? – pergunta o leitor espantado. E cogita com os seus botões que nunca viu um escravo, nunca possuiu um escravo, indigna-se quando lê reportagens denunciando escravatura no século XXI em zonas de África ou da Ásia ou ligada ao tráfico sexual aqui na Europa. Que diabo esperam mais do leitor desprevenido?!

Aparentemente é nossa urgente obrigação – mais de dois séculos depois da abolição da escravatura em território português e de um século depois da abolição em todo o império português – debater as culpas de Portugal na história da escravatura e do comércio de escravos. Na verdade, lendo certos textos, desconfio que se espera de nós que qualquer boa mãe e bom pai de família se entreguem à penitência, batendo com contrição no peito enquanto envergamos uma canga, por, há vários séculos, um ou outro dos nossos antepassados possuírem ou comercializaram escravos. Mais: há até quem questione se nós – contribuintes que nunca escravizámos ninguém – deveríamos pagar indemnizações aos descendentes dos escravos. (Este debate é tanto mais importante quanto não há uma vítima viva do comércio de escravos português.)

Tenho duas explicações para a invenção súbita deste problema da escravatura. Uma é a falta que faz a certas pessoas uma vivência católica. Os jacobinos ateus, regra geral ferozmente anti católicos, necessitam tanto do processo do exame de consciência, arrependimento, confissão e, finalmente em apoteose, penitência que, não sendo obrigados a vivê-lo pela sua religião, inventam pecados sociais que obriguem à experiência completa. E, tal como geralmente aborrecem toda a gente com o seu jacobinismo militante e expansionista, também impingem a todos os concidadãos distraídos as suas necessidades de expiar pecados inventados. Como os moralistas religiosos, estes jacobinos não querem que o seu próximo passe pela vida sem levar umas ensaboadelas sobre os pecados que lhes nota.

Outra explicação é mais prosaica e, em boa verdade, a que me leva a escrever o texto. Estas invenções de problemas, por gente ligada à intelectualidade de esquerda, têm regra geral um fim: tentar criar um ambiente propício para espoliar os contribuintes mais um bocadinho, na forma de conferências, projetos de investigação, exposições, livros patrocinados por organismos públicos, e por aí adiante. Tudo caridosamente em prol da boa população portuguesa conseguir finalmente debater e exorcizar o tal problema que até há semanas nunca sentiu. Quem o inventou, generosamente disponibilizar-se-á para investigar, escrever, perorar sobre o recém-descoberto pecado social – com a devida remuneração, claro.

Nada tenho contra debates sobre a escravatura, nem investigação histórica sobre o tema. Mas vou já avisando que não tenho culpa nenhuma do que se escravizou e comerciou até ao século XIX; não vale a pena debater indemnizações porque nem pensar que as pago; e aconselho quem quer conferenciar e investigar a preferir financiamento privado, que os meus impostos já são anafados e não aguentam mais este fardo.

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