A dimensão da queda da economia no primeiro trimestre surpreendeu e desapontou os analistas, que não esperavam uma queda tão grande em cadeia. Apesar de questionarem a sustentabilidade da recuperação económica de Portugal, não veem necessidade de rever as projeções para o crescimento da economia durante 2014.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 0,7% no primeiro trimestre do ano, em comparação com o último trimestre do ano passado.
A economista do BPI, Paula Carvalho, explicou ao Observador que o resultado foi uma surpresa, pois não esperava “uma queda tão grande em cadeia”, mas adiantou que este desempenho tem de ser colocado em contexto, pois “estamos perante uma fase de transição para um modelo de crescimento assente em investimento, para além das exportações”.
Nesta fase, explica, é expectável que aconteçam alguns percalços devido aos constrangimentos que a procura interna tem para se constituir o principal motor da economia. Quanto ao aumento das importações, a economista diz que se deve essencialmente a uma reposição de “stocks” e de outros efeitos base, como da recuperação de compra de automóveis, que estavam em mínimos históricos há algum tempo.
O BPI vê, ainda assim, sinais positivos – como o aumento da confiança dos empresários e do emprego – e por isso não pensa alterar as projeções para o crescimento da economia na totalidade do ano, de cerca de 1% do PIB.
O economista do BNP Paribas, Colin Birminghan, disse ao Observador que não esperava uma queda já no primeiro trimestre, apesar de estar a antecipar um abrandamento da economia no segundo ou no terceiro trimestre, e que não existiam sinais de que poderia existir uma contração com a dimensão daquela que foi registada pelo Instituto Nacional de Estatística.
A explicação, para o BNP Paribas, está numa queda da procura externa liquida dirigida à economia portuguesa, mas que se verificou também noutros países.
“Por exemplo, o crescimento das exportações também foi fraco na Holanda. Ambos têm um forte contributo proveniente das exportações de combustíveis, por isso penso que as condições climatéricas no inverno foram uma das razões para termos fraco crescimento económico e das exportações. Portugal tem estado muito dependente das exportações de combustíveis para aumentar os seus números globais das exportações”, disse.
O BNP Paribas é mais pessimista do que o BPI e estima que a taxa de crescimento esperada pela ‘troika’ e pelo Governo (de 1,2% em 2014) “agora parece improvável” que se venha a verificar, mas diz que ainda não há motivos de preocupação em termos de metas orçamentais, considerando o bom desempenho recente conseguido no equilíbrio das contas públicas.
Numa nota divulgada nesta quinta-feira em reação aos números do PIB, os analistas do banco francês Natixis consideram os resultados “desapontantes” e dizem que o consumo privado se deve ter resistido devido ao aumento de salários na parte final do ano, com os funcionários públicos a receberem o subsídio de natal (algo que não aconteceu em 2012).
Ainda assim, o banco francês diz que, para já, não vê necessidade de se rever as metas do PIB para a totalidade do ano, mas que irá analisar essa possibilidade quando o INE divulgar a segunda estimativa do PIB, a 9 de junho.
O economista-chefe do Montepio Geral, Rui Bernardes Serra, explicou que o banco não esperava que as exportações líquidas dessem um contributo negativo para o crescimento do PIB, explicando esta queda com a paragem para manutenção da refinaria da Galp, os efeitos do mau tempo na agricultura, atividade portuária, pesca e produção de bens, e ainda do crescimento económico na zona euro não ter acelerado como era esperado.
Esta queda trata-se, para o economista, pelo menos para já “sobretudo de um percalço” que reflete todos estes fatores e ainda as medidas de austeridade impostas pelo Orçamento do Estado para 2014.

 

Para o total do ano, o banco mantém a projeção de crescimento de 1,2% do PIB, mas diz que os riscos para a previsão (que antes eram no sentido ascendente, ou seja, os fatores em causa podiam levar a um crescimento superior ao previsto) passaram agora a ser descendentes, devido ao mau arranque da economia no início do ano.
Governo contínua confiante apesar da contração
Luís Marques Guedes, ministro da Presidência, disse hoje na conferência de imprensa que os resultados hoje conhecidos não afetam as contas do Governo projeções para a totalidade do ano e que as projeções continuam em linha com o que o Governo espera que seja a evolução da economia, ou seja, que termine o ano a crescer 1,2%.
O governante explica a contração de 0,7% no primeiro trimestre (face ao último trimestre do ano passado) com a paragem para manutenção da refinaria da Galp em Sines e dos dias de paragem da Autoeuropa no início do ano.