Meriam Ibrahim, a mulher sudanesa que foi condenada à morte em maio por ter renunciado ao Islão quando se encontrava grávida, alega que a sua filha, nascida na prisão, ficou com deficiências devido ao facto de não lhe terem sido retiradas as correntes que prendiam as suas pernas no momento do parto.

“Dei à luz acorrentada”, contou a mulher de 27 anos ao Telegraph. “Não eram algemas, eram correntes. Eu não conseguia abrir as minhas pernas, pelo que as mulheres [que assistiram no parto] tiveram de me levantar da mesa. Eu não estava deitada”, relata. “Alguma coisa aconteceu à bebé”, afirma agora, adiantando que a sua filha ficou fisicamente deficiente, apesar de, para já, não saber ao certo a gravidade da lesão – só quando a criança for mais velha se poderá apurar. “Não sei se não precisará de apoio para andar”, diz.

Meriam Ibrahim foi condenada à morte por enforcamento a 15 de maio, alegadamente por ter renunciado à religião muçulmana ao casar com um homem cristão. Deu à luz a 27 de maio. Desde então, a decisão judicial foi anulada e Meriam foi libertada, tendo, no entanto, sido detida novamente no dia a seguir à libertação, para mais uma vez recuperar a liberdade.

“Sempre fui cristã. Não poderia ter sido muçulmana”, disse, reiterando aquilo que já havia dito em tribunal: a sua mãe era cristã e o seu pai muçulmano abandonara-as quando tinha apenas seis anos, pelo que sempre fora educada segundo a fé cristã ortodoxa.

Na altura do seu encarceramento, Meriam Ibrahim estava já em estado avançado de gestação, pelo que, revela agora, “estava realmente assustada com a ideia de dar à luz na prisão”. E conta: “As [outras] mulheres presas diziam-me todo o tipo de coisas: ‘Não comam da comida da infiel’. Havia conversas e sarcasmos. Até os guardas prisionais participavam”.

Atualmente, Meriam encontra-se na embaixada americana do Sudão, à espera de permissão para viajar para os Estados Unidos, de que o seu marido, Daniel Wani, é cidadão. “Não consigo sequer decidir o que devo fazer a seguir. Quero ir-me embora mas ao mesmo tempo não quero. A situação atual obriga a que vá. Todos os dias surge um problema novo sobre a minha ida”, desabafa.