Inquietação, duvidas e desconfiança. Medo. Os funcionários do Aeroporto de Lisboa estão preocupados com o surto de Ébola, que tem ganhado expressão e matou mais de 1500 pessoas na África Ocidental. Todos os dias lidam com pontos de infeção potencial: O contacto com passageiros cujo ponto de partida da viagem desconhecem, o passaporte com saliva que se passeia na boca dos mesmos, as bagagens que perdem a sua etiqueta e outras que têm no seu interior peixe e carne em estado de putrefação. Eis alguns dos desassossegos dos trabalhadores do Serviço de Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, PSP e alfândega do aeroporto da capital.

“Há casos em que as bagagens perdem a etiqueta e nós temos de as manusear, para fazer um inventário. Há roupa suada, fruta… As luvas são suficientes?”, perguntou funcionária da TAP.

“Se o Francisco George não fosse o Francisco George, o Diretor-geral da Direcção-Geral da Saúde, se estivesse exposto a este trabalho, chegaria a casa e daria o jantar aos seus filhos normalmente?”, questionou um dos presentes, à margem da segunda sessão de esclarecimentos sobre o vírus do Ébola, no Auditório Ícaro, no Aeroporto de Lisboa — a primeira sessão teve lugar em Faro, na sexta-feira passada, dia 22. “Bom, se me faz uma pergunta pessoal, respondo também ao nível pessoal… Nos anos 80, eu levei a minha filha de três meses e a minha família para a Costa Ocidental de África, onde vivi 12 anos”, disse o Diretor-geral da DGS, que já tinha explicado que, por essa altura, existiam também surtos de Ébola na região.

Francisco George

“Há casos em que as bagagens perdem a etiqueta e nós temos de as manusear, para fazer um inventário. Há roupa suada, fruta… As luvas são suficientes?”, perguntou outra funcionária. Esta questão chegou no seguimento da explicação de Francisco George sobre o que potenciou o contágio do vírus na década de 70: morcegos, carne de macaco e fruta. A resposta, essa, foi perentória: “Não há risco. Não vejo riscos.” E chegou a insistência de uma outra senhora: “Nós chegamos a ver carne e peixe nas bagagens em estado de putrefação…” Esta declaração levantou um enorme burburinho no auditório. Francisco George, de forma amena, limitou-se a dizer que “só não pode ingerir-se”. Com as pessoas é diferente, explicou outra representante da DGS, pois estas podem vomitar ou ter diarreia. Os riscos são muito maiores.

Francisco George vincou durante toda a sua intervenção que os “riscos são mínimos”, ainda que existam. “Queremos tranquilizar, mas não tranquilizar gratuitamente. Queremos informar. (…) Não podemos atrasar a informação, nem limá-la. As pessoas têm de sentir confiança”, explicou.

“Esta é uma doença infecciosa aguda viral. Foram estudados os outros surtos na região, mas este é diferente: é uma epidemia prolongada, tem uma exposição que não teve até hoje. Um milhão de pessoas estão em risco”, disse Francisco George, o Diretor-geral da DGS.

A sessão começou com uma contextualização histórica da doença. Francisco George explicou a origem do vírus junto do rio Ébola, na República Democrática do Congo, em 1976. Explicou ainda como se propagou: os morcegos e a carne de macaco consumida foram os principais fatores de contágio. “Os sintomas são febre alta, hemorragias internas e externas — por todos os orifícios do corpo — e falência de órgãos”, informou.

“Esta é uma doença infecciosa aguda viral. Foram estudados os outros surtos na região, mas este é diferente: é uma epidemia prolongada, tem uma exposição que não teve até hoje. Um milhão de pessoas estão em risco”, disse o Diretor-geral da DGS. E continuou: “Nos anos 80, quando apareciam macacos mortos já se sabia que o vírus iria circular. (…) Agora deixou de estar limitado a zonas menores, chegou aos centros urbanos, há mais mobilidade. As infraestruturas na região são muito frágeis. Há falta de médicos e enfermeiros. E a comunidade internacional não deu a devida atenção ao problema.”

Francisco George acredita que este vírus não tem condições para atingir um país europeu. “Há mecanismos para diagnosticar e isolar. Em quatro horas sabemos se há infeção, evitando o contacto”, explicou. O Diretor-geral da DGS informou que o vírus não se transmite na sua fase de incubação, e que bastam 21 dias para entender se alguém está, ou não, livre do vírus. Uma coisa é certa: quanto mais avançado está o processo de infeção, mais forte é a probabilidade de contágio.

“Estivemos para mobilizar mecanismos, tudo… mas, afinal, essa pessoa tinha estado na Guiné Equatorial”, contaram os elementos da DGS.

“A recolha de sangue é perigosa. Já morreram 120 médicos na região. Houve uma resposta lenta da comunidade internacional. Há todo um conjunto de procedimentos a afinar, e só se tem de analisar quem precisa de ser analisado”, disse o Diretor-geral da DGS, que parecia ficar ligeiramente impaciente quando as perguntas se repetiam. Afinal, estes profissionais que trabalham nos aeroportos sentem a sua vida em perigo, mesmo que as hipóteses de contactar com alguém com Ébola sejam remotas. Ou não. É que há três semanas, a 7 de agosto, um padre espanhol, Miguel Pajares, chegou a Madrid e foi transportado para o Hospital Carlos III, depois de contrair Ébola na Libéria. O padre acabaria por morrer quase uma semana depois.

Ambulances carrying Roman Catholic priest Miguel Pajares, who contracted the deadly Ebola virus, and Spanish nun Juliana Bonoha Bohe arrive at the Carlos III hospital in Madrid on August 7, 2014. An elderly Spanish missionary infected with the deadly Ebola virus in Liberia landed in Madrid today, the first patient in the fast-spreading outbreak to be evacuated to Europe for treatment.  AFP PHOTO / OSCAR DEL POZO        (Photo credit should read OSCAR DEL POZO/AFP/Getty Images)

Transporte de Miguel Pajares, o padre espanhol que contraiu o vírus na Libéria, para o Hospital Carlos III

Francisco George repetiu várias vezes a mensagem, para que não restassem dúvidas: os riscos são poucos, mas tem de haver capacidade de resposta. Essa baseia-se num telefonema para um serviço especial do INEM em conjunto com o Instituto Ricardo Jorge, para ser colocado em marcha o protocolo para este caso — esse dispositivo tem sido testado diariamente, garante a DGS. Segundo o Diretor-geral, bastam quatro horas para serem realizados testes e saber-se o resultado, evitando qualquer contacto com o passageiro. O transporte, a ser necessário, será feito numa ambulância com total isolamento que está preparada para o efeito. As perguntas a fazer são duas: se teve febre alta súbita e onde esteve nos últimos 21 dias. É considerada febre alta a partir dos 38º mas, em caso de infeção com Ébola, o doente sofrerá muito mais do que com uma mera gripe.

Os elementos da DGS contaram um episódio que aconteceu no Algarve, onde uma pessoa esteve sob suspeita de estar infetada com o vírus. “Estivemos para mobilizar mecanismos, tudo… mas, afinal, essa pessoa tinha estado na Guiné Equatorial — É importante saber que há mais Guinés”, contaram. A Guiné Equatorial, o mais recente membro da CPLP, fica a mais de dois mil quilómetros do epicentro da epidemia, centrado na Guiné-Conakri. Por isso é fundamental, como referiu, que exista “rigor no tratamento de toda a informação por parte de todos os envolvidos no processo.” Também em Cascais houve momentos onde o nervosismo imperou, quando um voo privado aterrou oriundo da região da África Ocidental. Mas tudo correu com normalidade, sem motivos para alarme.

Se tiver dúvidas e quiser saber mais sobre o vírus do Ébola, visite o nosso Explicador (aqui) e o pacote informativo atualizado diariamente no site da DGS.