As expectativas eram elevadas. O BCE tinha prometido em janeiro que mais estímulos poderiam ser anunciados em março. Por essa razão, nos últimos meses os especialistas tentaram antecipar quão longe Draghi iria e os mercados mantiveram presente que o “Super Marioraramente dececiona. Chegado o dia 10 de março, os governadores do Eurossistema não só cumpriram os “mínimos” como anunciaram um plano em que os bancos garantem liquidez a um prazo ultra-longo (quatro anos) a juro zero – mas podem vir a ser remunerados, bastando para isso que transformem essa liquidez em empréstimos à economia real. O BCE fez muito, mas ficou a sensação de que não fará muito mais – e os mercados voltaram a cair.

Antes de mais, as medidas. A principal novidade foi o anúncio de quatro leilões de liquidez a quatro anos (TLTRO, na sigla original) em que os bancos que queiram participar podem receber financiamento do BCE a um prazo ultra-longo e a um juro de zero. Mas os bancos que façam chegar mais empréstimos às empresas e às famílias (crédito à habitação não incluído) poderão beneficiar de uma taxa negativa, ou seja, serem pagos para fazer aquilo que é suposto os bancos fazerem, isto é, receber liquidez do banco central (ou de outras fontes, como os depósitos) e levá-la à economia — em vez de, por exemplo, investirem em dívida pública como aconteceu no primeiro programa deste género, em 2011/2012.

O teto para essa taxa negativa será a taxa que o BCE está a cobrar aos bancos quando estes depositam liquidez no BCE, que passou de 0,3% para 0,4% (taxas negativas). Esta remuneração negativa nos depósitos, uma medida altamente controversa mas que cada vez mais bancos centrais estão a aplicar, tem sido criticada por ser equiparável a um imposto sobre os bancos, que lhes penaliza a rentabilidade. Com este plano, o BCE responde às críticas convidando os bancos a emprestarem à economia e, dessa forma, tentarem recuperar o juro que pagam quando parqueiam os excessos de liquidez no banco central.

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Mas esta não foi a única medida anunciada num dia em que — alguém reparou — Mario Draghi usou a mesma gravata que ostentou a 26 de julho de 2012, quando anunciou que faria “tudo o que for necessário, dentro do mandato, para preservar a moeda única” e que o euro era “irreversível”. Esse discurso e as medidas concretas que se seguiram são tidos como um momento-chave em que começou o fim da crise da dívida europeia.

Numa decisão que será mais simbólica do que outra coisa, a taxa diretora do BCE — aquela que os bancos pagam para ir buscar liquidez financeira ao banco central — baixou de 0,05% para 0,00%. É essa, então, a taxa (nula) que os bancos vão pagar, inicialmente, nas TLTRO.

Anunciados nesta quinta-feira foram, também, como se esperava, o reforço das compras mensais de dívida pública e privada de 60 mil milhões para 80 mil milhões, um programa que irá durar até março de 2017, nas previsões atuais. A compra de dívida pública dos países da zona euro vai aumentar e vão continuar a comprar pacotes (titularizações) de créditos ao setor privado. A novidade, inesperada, é que o BCE passará, também, através dos bancos centrais nacionais, a comprar no mercado obrigações simples emitidas por empresas com rating acima de lixo.

No bolso ficou, pelo menos para já, a inclusão (imensamente mais controversa mas já sugerida pelos analistas) de pacotes de crédito em risco que estão a pesar nos balanços dos bancos, sobretudo instituições italianas e portuguesas. Draghi desvalorizou, mas sem grande veemência, as sugestões de que o BCE poderá avançar com medidas que se assemelhem às ideias do helicopter money.

“Não pensámos nem falámos sobre isso. É um conceito interessante, está a ser discutido na academia mas nós ainda não pensámos nisso”, diz Draghi. É claro, diz Draghi, que “à partida, identificam-se complexidades técnicas e legais” para medidas desse género. “Helicopter money, contudo, é um conceito que pode ter muitos significados”.

E, num instante, tudo muda

À medida que os investidores ouviam as novas medidas, anunciadas em catadupa, Draghi começou por ter razões para sorrir. O verdadeiro valor destas medidas não se vê de um dia para o outro, já que procuram “animar uma recuperação económica que não está a ser espetacular“, disse Draghi. Mas o barómetro dos mercados, e especialmente a cotação do euro face ao dólar, começou por indicar que as medidas anunciadas eram, de facto, ambiciosas.

Mas aí veio o carrossel. O euro começou por perder valor – mais de 1,5% – face ao dólar (o que torna as exportadoras europeias mais competitivas), as ações da banca europeia estiveram a subir mais de 5% e as taxas de juro da dívida portuguesa, por exemplo, estiveram a cair mais de 30 pontos base. No final do dia, o euro acabou por inverter a tendência e fechar em alta em relação ao fecho anterior, as ações da banca caíram 0,5% e as taxas de juro terminaram praticamente na mesma, acima dos 3% a 10 anos. O que se passou?

Mario Draghi abre um carrossel nos mercados

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O euro-dólar caiu logo após o anúncio das medidas, para gáudio dos investidores, mas inverteu completamente a tendência a partir do meio da conferência de imprensa.

Terá sido, por sinal, um tropeço de Mario Draghi. O presidente do BCE tinha dito que “o Conselho de Governadores antecipa que as principais taxas de juro do BCE continuem nos níveis atuais ou mais baixos por um período prolongado”. Mais tarde, contudo, respondendo a uma questão dos jornalistas, o italiano comentou que o instrumento principal de atuação do banco central serão as medidas não convencionais (como a compra de dívida no mercado) e não tanto as taxas de juro.

Mario Draghi garantiu que o BCE “mostrou que não lhe falta munições” mas afirmou que “aos olhos das perspetivas atuais, não antecipamos que venha a haver necessidade de reduzir as taxas de juro ainda mais“.

Surpresa. Draghi ainda voltou a sublinhar que “os fatores podem mudar“, mas foi a partir desse momento que o euro começou a subir. No fundo, os investidores terão ouvido pouco mais do que a última parte da frase de Draghi e viram nas promessas anteriores uma espécie de bluff para manter em aberto a ideia de que mais descidas de juros poderiam ser uma possibilidade realista.

Conclusão: O pacote de medidas anunciadas esta quinta-feira, ainda que ambiciosas, souberam a definitivas. “Este foi mais um, potencialmente o último, golpe de asa do BCE para reavivar o crescimento na zona euro”, afirmou Carsten Brzeski, economista do ING, em nota enviada aos clientes. Tenham os mercados gostado ou não, a questão é se estas medidas irão funcionar a prazo – e isso não está apenas nas mãos de Draghi:

“O BCE parece, claramente, determinado a continuar a lutar. Admitir impotência não parece ser uma opção. Continua a ser muito difícil antecipar se esta luta, sem o apoio dos governos e das suas reformas estruturais, irá ajudar a uma vitória sobre a estagnação e contra as taxas de inflação baixas, induzidas pelo baixo preço do petróleo”, conclui Carsten Brzeski.