Desde que o Governo tomou posse, no final de novembro, era evidente para todos (exceto alguma opinião publicada à direita que insiste em confundir a realidade com os seus desejos) que Costa e Marcelo eram aliados táticos. Objetivamente, as agendas políticas de ambos convergiam para evitar eleições legislativas a curto prazo (como o PSD e o CDS sonhavam).

Com a entrada de Marcelo em Belém abriu-se um novo período. O Governo voluntariamente apagou-se e deixou ao Presidente as luzes da comunicação social nas últimas três semanas. E Marcelo marcou a diferença. Apostou numa nova injeção de otimismo (o espírito Expo 98 sem Expo 98), no regresso ao discurso nacional dos centros de decisão nacional contra a espanholização dos setores fundamentais da economia (neste caso, a banca), e mesmo alguma influência direta nas políticas governamentais mais polémicas (educação para já).

O discurso de hoje sobre o Orçamento insere-se claramente nesta dinâmica. O Presidente essencialmente justificou o Orçamento do Governo (reconhecendo a preocupação social e respondendo às três criticas principais: previsões, medidas adicionais, modelo inspirador com base no consumo privado), evidentemente com avisos aqui e ali para evitar uma colagem excessiva (por exemplo, insta ao rigor da execução orçamental), mas com um discurso muito mais próximo da maioria governamental e mais longe da oposição, principalmente do PSD (aliás, criticando o modelo austeritário do Governo anterior).

Este redescoberto papel do Presidente como figura de referência do otimismo, a sintonia com o espírito pós-austeridade do Governo e com o primado das políticas sociais, o afastamento do PSD (que evidentemente só pode rejeitar a onda de otimismo do Presidente e do Governo) clarificam Costa e Marcelo como aliados estratégicos.

A Costa interessa-lhe partilhar o palco com Marcelo na procura de um equilíbrio que lhe seja mais confortável nas negociações com os seus aliados e que, ao mesmo tempo, seja um problema político para o atual PSD (acantonado na posição de dizer mal de tudo e não oferecer nenhuma alternativa, com uma estratégia de comunicação ingrata, pois parece que espera uma qualquer tragédia nacional para regressar ao poder).

A Marcelo interessa-lhe perpetuar este Governo, pois é suficientemente fraco para que o Presidente tenha um papel importante e interventivo. Ao mesmo tempo, nesta conjuntura política, Marcelo é naturalmente o líder da direita em detrimento de quem esteja à frente do PSD. Se depender de Costa e de Marcelo, esta dupla governará por bastante tempo. Para já, o orçamento abre caminho a esta aliança estratégica. Se a situação económica e financeira europeia vai permitir este equilíbrio por muito tempo, é coisa que veremos a prazo.

Nuno Garoupa é presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS)

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