Cantora a quem a revista New Yorker chamou mesmo “a mais poderosa voz da história da música norte-americana no pós-II Guerra Mundial”, Aretha Franklin morreu esta quinta-feira, 16 de agosto, aos 76 anos. Vencedora de 18 prémios Grammy, deixou um legado assombroso na música. Foi a primeira mulher a entrar no Rock and Roll Hall of Fame, lista de referência que reconhece os mais notáveis intervenientes da história da música americana, e vendeu mais de 75 milhões de discos.

A causa de morte ainda não é conhecida. Em 2010, surgiram rumores, substantivos mas nunca confirmados, de que Aretha Franklin sofria de cancro no pâncreas. Um ano depois, a cantora assumiu ter sido submetida a uma cirurgia “complicada”, sem nunca revelar a doença de que padecia. À revista New Yorker, “amigos” da cantora revelaram que Aretha Franklin nunca admitiria sofrer de cancro, mesmo que os rumores fossem verdadeiros. “Nem no seu leito de morte”.

A revelação atesta na perfeição o caráter da cantora. Mulher afirmativa, que transformava as muitas inseguranças pessoais em posições de força (segundo os mais críticos, era igualmente célere a transformar dor em ira), Aretha Franklin mostrou-se sempre reticente a expor vulnerabilidades em público. Foi a estratégia de defesa possível para sobreviver numa indústria musical e numa sociedade norte-americana dominadas por homens e executivos brancos, um setor em que ser mulher negra exigia identidade forte.

Tanto Aretha se defendeu que grande parte das dificuldades por que passou e das más experiências que a marcaram ao longo das mais de seis décadas de carreira tornaram-se públicas sobretudo através de relatos de quem lhe era próximo. O jornalista e produtor musical Jerry Wexler, que esteve muito próximo da cantora nos anos 1960 e que contribuiu para a sua ascensão na indústria musical enquanto produtor discográfico, descreveu-a assim:

Penso na Aretha como a Nossa Senhora das Mágoas Misteriosas. Os seus olhos, incríveis e luminosos, escondem uma dor inexplicável. As depressões dela podiam ser tão profundas quanto o mar negro. Não finjo conhecer as fontes das suas angústias, mas elas cercavam a Aretha de forma tão forte quanto a glória da sua aura musical.”

A forma como Aretha Franklin tentou moldar a sua imagem pública é visível em duas biografias que sobre ela foram escritas. A primeira, oficial, foi escrita pelo escritor e biógrafo David Ritz e publicada em 1999. Tinha como título Aretha: From These Roots. Ritz, contudo, viria a escrever um novo livro sobre a cantora, uma biografia não autorizada chamada Respect: The Life of Aretha Franklin, que causou polémica.

O final dos anos 60 e início dos anos 70 foi o período áureo da carreira de Aretha Franklin (Keystone/Getty Images)

Apresentando uma cantora irascível, com problemas emocionais que tentou esconder através de uma voz poderosa que colheu os melhores ensinamentos do gospel e tornou-se internacionalmente aclamada no universo rhythm and blues (R&B), o segundo livro do biógrafo de Marvin Gaye, Etta James, B. B. King e Janet Jackson (entre outros) foi arrasado por Aretha Franklin. “Mentiras e mais mentiras”, acusou a cantora. Numa formulação bastante esclarecedora, David Ritz resumiu: a biografia oficial “permanece como uma visão precisa sobre como a Aretha se vê a si mesma”, enquanto a biografia não autorizada, que recorreu a testemunhos de familiares, amigos e músicos, apresenta a história como ele a vê.

Se a vida foi atribulada e a personalidade impositiva, o legado musical é o que deverá resistir ao tempo. Não apenas pelos feitos históricos que alcançou com o sucesso de hinos como “Respect”, “Natural Woman”, “I Say a Little Prayer” e “Think”, como pela importância que teve na afirmação do papel das mulheres e dos negros nos EUA. Afinal, Aretha descendeu de uma família empenhada na defesa dos direitos cívicos e da igualdade racial, tendo contactado desde cedo com ativistas como Martin Luther King, Jr. (cantou até num memorial de homenagem ao ativista).

Como explicou ao seu biógrafo David Ritz, “o papá tem pregado sobre o orgulho negro há décadas e nós, como povo, redescobrimos o quão bonito era ser negro e fizemos eco, cantando também: Say it loud, I’m black and I’m proud”. Aretha referia-se aos emblemáticos versos que James Brown imortalizou em 1968. Em janeiro de 2016, recordava assim os tempos de digressão pelo sul dos Estados Unidos da América, nos anos 1950 e 1960, em entrevista à NPR: “Havia tempos em que pediam-nos que fossemos para as traseiras do restaurante, digamos. Ou diziam-nos que não podíamos ir à casa de banho…”

[Aretha Franklin a cantar “Precious Lord” num memorial de homenagem a Martin Luther King, Jr., depois do homicídio do ativista:]

O círculo libertino do gospel e Martin Luther King como visita de casa

O pai era tão popular e corajoso nos ataques à segregação racial quanto controverso na intimidade. E percebê-lo é, em grande medida, perceber as raízes de Aretha Franklin. Nascido em 1915 no Mississippi Delta, região que se tornaria famosa pelo estilo musical delta blues e pelos linchamentos raciais que mancharam as primeiras décadas do século XX nos EUA, C. L. Franklin viveu em Memphis, Tennessee, e em Buffalo, Nova Iorque, antes de estabelecer como pastor da igreja batista New Bethel, em Detroit, Michigan.

Foi aí que construiu fama nacional e foi aí que Aretha Franklin cresceu, juntamente com as irmãs Erma (quatro anos mais velha), Cecil (dois anos mais velha), Carolyn (dois anos mais nova) e com o seu meio irmão Vaughn, seis anos mais novo e nascido de uma relação anterior da mãe de Aretha, Barbara Siggers. Aretha Franklin teve ainda outro meio irmão, Carl Ellan Kelley, nascido de uma relação extraconjugal do seu pai com uma rapariga de 12 anos da sua congregação, chamada Mildred Jennings.

Alegadamente agressivo com a mulher, que o abandonou e saiu de Detroit rumo a Buffalo quando Aretha tinha 6 anos, C. L. Franklin tornou-se um dos pastores negros mais respeitados do país. A fama, primeiro regional e depois nacional, com sermões ouvidos pela comunidade afro-americana em todo o país devido ao seu talento de retórica (nas rádios e através de gravações em disco), fez C. L. Frankin viajar pelos Estados Unidos da América e envolver-se num circuito libertino. Na sua congregação, conta a revista New Yorker em extenso perfil, cabiam “prostitutas, dealers, chulos, empresários, gente da classe trabalhadora”.

Em 1999, Aretha Franklin recebeu do então presidente Bill Clinton National a Medalha Presidencial de mérito no campo das artes e humanidades (Stephen Jaffe/AFP/Getty Images)

Já em casa, recebiam-se visitas amorosas, musicais e políticas. Em pequena, Aretha Franklin viu o pianista e cantor Nat King Cole tocar a partir escadas em que se sentava, viu Duke Ellington e Ella Fitzgerald atuarem na sala de estar, conviveu com amigas do pai como Mahalia Jackson e Clara Ward (com a última C. L. Franklin terá alegadamente tido uma relação), aprendeu a tocar notas de gospel ao piano com o reverendo James Cleveland e a cantar com outros jovens como Diana Ross, Smokey Robinson e outras vozes que fariam carreira na famosa editora Motown.

Na casa dos Franklin, convivia a nata da música afro-americana. O que poucos sabiam é que Aretha, então aprendiz educada por músicos, por secretárias do pai, pela avó paterna e por “amigas” do progenitor, tornar-se-ia símbolo maior do R&B e da música soul. Sempre com a espiritualidade do gospel presente, como vincaria mais tarde, dizendo “eu nunca deixei a igreja” ou “não acho de forma alguma que tenha feito um mau serviço ao Senhor quando mudei [de género musical]. Afinal, os blues nasceram dos sofrimentos do meu povo durante os tempos de escravatura”.

[Uma das mais marcantes atuações de Aretha Franklin nos últimos anos aconteceu na gala de 2015 do Centro para as Artes Performativas John F. Kennedy, em Washington D. C. No vídeo, vê-se o então presidente americano Barack Obama a chorar:]

Outra importante visita de família era Martin Luther King, Jr. O ativista, assassinado no ano em que Aretha Franklin fez capa da prestigiada revista Time, recebeu ajuda do pai da cantora para organizar uma marcha pela liberdade no centro de Detroit, que terá reunido mais de 100 mil pessoas. Numa visita à cidade, chegou a dormir em casa dos Franklin.

Os filhos, o sucesso de 1967 e um hino feminista

As atuações regulares começaram aos 12 anos, mais ou menos na época em que Aretha Franklin foi mãe pela primeira vez. Ao que se sabe, o pai da criança era um então colega de escola, Donald Burk, e o filho ficou com o nome do pai de Aretha, Clarence Franklin. Cerca de dois anos depois, Aretha Franklin seria mãe pela segunda vez, novamente de um rapaz, Edward. Foi o segundo de quatro filhos e o parto aconteceu pouco antes de Aretha editar o seu primeiro álbum, um conjunto de canções gravadas ao vivo muito influenciadas pelo gospel e pela música de igreja que cresceu a ouvir, por exemplo, na voz de Mahalia Jackson. Como aliás se percebia pelo título: Songs of Faith.

Seguiram-se os primeiros discos pela importante editora Columbia, com quem assinou contrato aos 18 anos. Discos de soul e rhythm and blues (a inspiração pelo amigo Sam Cooke e pela parceira Sister Rosetta Tharpe eram evidentes), menos marcadamente gospel embora influenciados por ele e até com umas pitadas de jazz, fruto da visão do grande olheiro da indústria musical norte-americana de então, John Hammond, que pertencia à Columbia e acreditava poder fazer de Aretha Franklin a próxima grande cantora desse género musical. Na senda, por exemplo, de uma Billie Holiday.

Aretha Franklin no seu último concerto, a 7 de novembro de 2017, na fundação solidária de Elton John que ajuda vítimas da sida. O concerto aconteceu na 25ª gala da fundação, na Catedral de S. João, o Divino, em Nova Iorque. (Dimitrios Kambouris/Getty Images)

Seria já na editora Atlantic, contudo, que Aretha Franklin alcançaria fama nacional e internacional. 1967 foi um ano decisivo, aquele em que a cantora conseguiu pela primeira vez colocar canções suas na liderança do ranking dos singles mais ouvidos de R&B. E logo por quatro vezes num ano, com alguns dos temas mais marcantes da sua carreira: “I Never Loved a Man (The Way I Love You)”, “Baby I Love You”, “Chain of Fools” e “Respect”. A última tornar-se-ia canção charneira do seu percurso. Inicialmente cantada por Otis Redding, “Respect” ganhou nova urgência e grandiosidade na poderosa voz de uma mulher que cantava sobre só querer respeito do seu homem.

Num país onde a violência doméstica e a violência sobre mulheres eram uma realidade ainda muito presente, a que nem a mãe de Aretha Franklin nem alegadamente a própria cantora (que terá sofrido de violência doméstica no primeiro de dois casamentos, com Ted White, que durou entre 1961 e 1968/1969) passaram incólumes, “Respect” tornou-se um símbolo musical feminista, numa indústria muito dominada por homens. Embora não fosse essa a intenção original da cantora.

“Toda a gente quer respeito”, tão simples assim, explicava Aretha Franklin em 2014, numa entrevista à Rolling Stone onde revelava estar a negociar a possibilidade de um biopic [filme biográfico mas não documental] sobre a sua carreira, que gostaria que tivesse a atriz Audra McDonald (que já interpretou o papel de Billie Holiday no musical Lady Day) como protagonista. Quanto a “Respect”, Otis Redding teve desportivismo e abdicou da canção. Segundo conta o jornalista e produtor musical Jerry Wexler, Otis disse-lhe, com um sorriso rasgado:

A rapariga tirou-me a canção. Já não é minha. A partir de agora, pertence-lhe.”

Daí em diante, foram muitas as canções marcantes que Aretha Franklin imortalizou. De “Think” a uma versão bluesy de”Bridge over Troubled Water”, de Paul Simon & Art Garfunkel, de “(Sweet Sweet Baby) Since You’ve Been Gone” a “Daydreaming”, passando por “You Make Me Feel Like (A Natural Woman”). Seguiram-se também as atuações, onde Aretha tinha o hábito de exigir o dinheiro nos camarins, antes mesmo de atuar. Dinheiro que colocava numa mala que entregava à sua equipa de segurança ou levava até para palco, por via das dúvidas.

“É a era em que ela cresceu. Viu tanta gente ser roubada — como o Ray Charles e o B. B. King. Ela tinha uma impressão muitas vezes que as pessoas estavam aqui para a magoar. E ela não o permitiria, não aceitava desrespeitos”, contou o jornalista e apresentador de televisão norte-americano Tavis Smiley à revista New Yorker.

Uma das atuações mais marcantes aconteceu em 1972, numa igreja batista em Los Angeles, a Igreja Batista dos Missionário do Novo Templo. O concerto foi tão bom que levou a sua editora à época, Atlantic Records, a lançar um LP (long-play, disco de vinil) duplo com a gravação do concerto. O disco, intitulado Amazing Grace, vendeu mais de dois milhões de cópias nos Estados Unidos da América e é ainda hoje um álbum de culto, que evidencia como poucos o talento e força vocal de Aretha Franklin. Momentos desses confirmaram o estatuto que um DJ de Chicago lhe atribuiu cinco anos antes, em 1967, durante um concerto no Teatro Regal, em Chicago: o de “rainha da soul”. O DJ, “um tipo chamado Pervis Spann”, como a própria cantora recordou posteriormente em entrevista, “entrou em palco com uma coroa”. O cognome ficou, expandindo-se para o país inteiro.

https://www.youtube.com/watch?v=DM02ZP13fPk

Um fã especial: Barack Obama

O feitio era irascível e, segundo a biografia não autorizada de David Ritz, Aretha Franklin era muito competitiva, chegando a bloquear a carreira das irmãs — que também cantavam e chegaram a fazer coros para Aretha — e a recusar dar destaque a outras cantoras femininas, como Mavis Staples. À competitividade, a cantora somava a imprevisibilidade, já que era habitual não aparecer em sessões de gravação, cancelar concertos à última hora e não ensaiar, deixando os músicos que a acompanhavam testarem três ou quatro dezenas de canções que ela depois escolheria na hora, em palco, conforme o que lhe apetecesse no momento.

Vícios, teve alguns. Desde logo o álcool, que superou, mas também a alimentação desregrada, que corrigiu nos últimos anos antes de ficar doente. Medos também os houve, em particular o de viajar de avião, o que levou a que atuasse muito menos na Europa do que o expectável (e com isso ressentiu-se a sua carreira internacional, ficando mais reservada à fama nos Estados Unidos da América) e que viajasse no seu país de autocarro, para os concertos. Dores, não foram poucas, com grande destaque para a morte do pai C. L. Franklin em 1984, depois de cinco anos em coma na sequência de um assalto que sofreu. Mas o que teve mais foi fãs, anónimos e conhecidos, incluindo um antigo presidente da América que lhe reservou os maiores elogios.

Joe Biden, Michelle Obama e Barack Obama com Aretha Franklin, no memorial de homenagem a Martin Luther King, Jr., em Washington D.C., no ano de 2011 (Mandel Ngan/AFP/Getty Images)

Numa troca de e-mails com um jornalista da revista New Yorker, através do seu secretariado de imprensa, Barack Obama evitou os elogios de circunstância (“uma referência incontornável”, “deixou um marco decisivo”, “a sua música permanecerá na memória americana”) e explicou porque é que é fã incondicional de Aretha Franklin. Disse que ninguém incorporava ao mesmo tempo a tradição musical afro-americana, “a música espiritual, os blues, o R&B, o rock and roll”. Defendeu que a maneira como a Aretha cantava “as dificuldades e as mágoas” transformando-as em “algo cheio de beleza, vitalidade e esperança” era única. Apontou que “quando ela se senta ao piano e canta ‘A Natural Woman’ é capaz de me [o] levar às lágrimas” porque “ela capta a totalidade da experiência americana, a visão de quem está no fundo da cadeia e de quem está no topo, o bom e o mau”, oferecendo “uma possibilidade de síntese, reconciliação e transcendência” com a sua voz.

“Pode-se ouvir a influência da Aretha no universo da música americana, seja qual for o género. Que outro artista teve este tipo de impacto? O Dylan. Talvez o Stevie [Wonder], o Ray Charles. Os The Beatles e os The Rolling Stones mas, claro, esses foram importados [do Reino Unido]. Os gigantes do jazz como o [Louis] Armstrong. Mas a lista é curta”, apontou o antigo presidente, acrescentando. “Se estivesse preso numa ilha e só pudesse ter dez discos, sei que ela estaria na coleção. Porque me recorda a minha humanidade, o que é essencial em todos nós. E ela soa tão bem, caramba”. Obama ainda deixou uma sugestão: “Se estiveres a passar música numa festa, começa com a ‘Rock Steady'”.

Há perto de um ano, a cantora anunciou uma “reforma parcial”. Aretha Franklin revelava que mantinha a vontade de continuar a gravar, mas que deixaria de atuar ao vivo, tirando concertos excecionais de quando em quando. À revista US Weekly, disse também em 2017 que se sentia “em geral, bem” e que tinha perdido muito peso “por efeitos secundários da medicina”. O último concerto que se lhe conhece aconteceu em novembro passado, na gala do 25º aniversário da fundação solidária de Elton John, que contribui com doações para vítimas da sida.

Chuck Rainey, que tocou baixo para Aretha Franklin, contou que uma vez a cantora veio ter consigo, “agarrou-me a mão e disse-me: não me oiças muito intensamente. Sei o que faço às pessoas. Preciso que o baixo esteja lá para poder cantar”. Billy Preston, músico que tocou com Aretha Franklin e que morreu em 2006, foi mais longe. Citado pela New Yorker, disse um dia:

“Não me interessa o que dizem sobre a Aretha. Pode ficar escondida na sua casa em Detroit durante anos, pode passar décadas sem apanhar um avião ou viajar para a Europa. Pode cancelar metade dos seus concertos e enfurecer todos os produtores discográficos e promotores de concerto deste país. Pode cantar todos os tipos de canções foleiras que estão abaixo do seu nível. Pode entrar no seu modo diva e desligar-se do mundo. Mas numa noite, quando aquela senhora se senta ao piano e coloca o seu corpo e alma numa canção que lhe faça justiça, vai assustar-te como a porra. E saberás — jurarás — que ela ainda é a melhor cantora que este país maluco já produziu.”