O antigo primeiro-ministro José Sócrates, acusado de 31 crimes no âmbito da Operação Marquês, voltou a afirmar que foi pressionado pela Sonae para interceder na Operação Pública de Aquisição (OPA) à PT, quando era governante.

As respostas de José Sócrates

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Leia aqui as 23 páginas de respostas enviadas por José Sócrates à Comissão de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos.

A versão de Sócrates, difundida pela TVI, é feita num conjunto de respostas que o antigo primeiro-ministro vai enviar “ainda hoje” à comissão parlamentar de inquérito à Caixa — e a que a estação de televisão “teve acesso”. Porém, já tinha sido feita em 2017, num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias.

De acordo com a versão que Sócrates de novo apresenta, o antigo líder do Partido Socialista recebeu um telefonema “dias antes da Assembleia Geral que decidiu a OPA”, segundo a TVI.  Não foi, garante Sócrates, Ricardo Salgado quem ligou — o antigo primeiro-ministro diz que nunca falou com o antigo líder do Grupo Espírito Santo (GES) sobre a Oferta Pública de Aquisição à PT. Foi a Sonae que fez pressão, garante Sócrates.

Sim, houve pressões sobre o Governo, mas vieram da Sonae — e tenho testemunhas do que afirmo. O presidente do Conselho de Administração da Sonae, Dr. Paulo Azevedo, telefonou-me pedindo expressamente a intervenção do Governo para que a CGD votasse a favor da Sonae. Reafirmei, nesse telefonema, a nossa posição de neutralidade”, escreveu Sócrates, numa resposta a que a TVI teve acesso.

O antigo líder socialista garante ainda nunca ter recebido “do grupo BES, nem da empresa Lena ou de qualquer outra empresa, qualquer quantia monetária ou outro qualquer bem, como vergonhosamente os deputados do PSD me perguntam, sabendo que a pergunta me ofende e sem terem nenhuma razão para o fazer que não seja seguir o que é sugerido pelo Ministério Público“, aponta a TVI.

Em 2016, o líder histórico da Sonae, Belmiro de Azevedo, tinha acusado José Sócrates de interferir na proposta da Sonae para a aquisição da PT, dando indicações ao Conselho de Administração da CGD para votar contra a proposta.

Na Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos, o antigo presidente do BCP, Filipe Pinhal, afirmou: “É indesmentível que o Governo – todo o governo, não apenas José Sócrates – tinha enorme influência na CGD e no BES.” E acrescentou acreditar que o antigo primeiro-ministro teria influenciado Joe Berardo a reforçar a sua posição no BCP, com recurso a financiamento da Caixa Geral de Depósitos. Sócrates descreveu as acusações como “pura e velhaca maledicência”.

José Sócrates foi acusado pelo Ministério Público na Operação Marquês da alegada prática de três crimes de corrupção passiva de titular a cargo político, 16 crimes de branqueamento de capitais, nove crimes de falsificação de documento e três crimes de fraude fiscal qualificada.

Sócrates conta “a verdadeira” razão para demissão de Campos e Cunha

Na quarta-feira a TVI tinha avançado com algumas das respostas do antigo primeiro-ministro, em que Sócrates explica o que descreve como as “verdadeiras razões” que levaram à demissão de Campos e Cunha do cargo de ministro das Finanças que ocupou durante apenas quatro meses em 2005.

“É chegada a hora de responder às provocações desse Senhor e às mentiras que ao longo dos anos foi espalhando em público…e contar a verdadeira história da sua demissão”, escreveu o antigo primeiro-ministro, citado pela TVI. Segundo José Sócrates, as razões para a saída de Campos e Cunha não tiveram a ver com as discordâncias com programas de investimentos prioritários nem com administração da CGD, mas sim com a Lei Um Terço, uma lei que determina que os funcionários públicos aposentados mas a trabalhar passavam a ter de escolher entre um terço do salário e a totalidade da pensão ou vice-versa.

O então ministro das Finanças discordava desta lei, mas acabou por aprová-la. “O ministro estava justamente nessa situação (tinha uma reforma do Banco de Portugal). Esta foi a verdadeira razão da sua saída…razão essa que é conhecida por todos os que estavam no governo na altura”, escreveu José Sócrates nas respostas citadas pela TVI, em que desmentiu também qualquer pressão para mudar a administração da CGD e nomear Carlos Santos Ferreira e Armando Vara..

Finalmente quero desmenti-lo. Não é verdade que alguma vez tenha pressionado para mudar a Administração da Caixa Geral de Depósitos. Isso nunca passou de uma miserável falsidade e de uma pobre e lamentável encenação para justificar a sua saída do Governo”, justificou José Sócrates.

Esta resposta contraria o testemunho dado por Campos e Cunha já na primeira comissão de inquérito à recapitalização da Caixa em 2017, quando este afirmou ter sido pressionado por Sócrates para afastar a administração do banco público. Esta aliás não é a primeira vez que os dois trocam acusações e desmentidos a propósito deste tema.

Segundo José Sócrates foi o próprio ex-ministro das Finanças a querer substituir o então presidente Vítor Martins. “Dei-lhe carta branca, nunca lhe sugeri nenhum nome. O que aconteceu foi que o Ministério das Finanças não fez nada. A situação da instituição apodrecia. Vários membros do governo chamaram à atenção. É a isso que o antigo ministro chama maliciosamente “pressões”, explicou o antigo primeiro-ministro.

Já Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças que veio a seguir e que logo demitiu a administração da Caixa, assegurou no Parlamento nunca ter sido pressionado por Sócrates na escolha dos gestores, tendo aliás referido que o então primeiro-ministro o alertou para o “ruído político” que causaria a nomeação de Armando Vara, ex-dirigente socialista para o banco do Estado.