Deita-se pela uma da manhã e às seis está “religiosamente a pé”, como Marcelo Rebelo de Sousa, mas as semelhanças com o Presidente da República estão “só aí”. A rotina madrugadora inclui “A Cor do Dinheiro”, o formato que todos os dias, pelas 8h00, Camilo Lourenço faz chegar aos portugueses através das redes sociais. Aos 59 anos, o economista, que “felizmente” (diz) não tem página na Wikipedia, dispensa meias palavras para comentar o seu afastamento da estação pública.

A anterior direção da RTP, dirigida pelo Paulo Dentinho e por quem estava com ele, fez-me saber que não gostava de algumas coisas que eu dizia. O pior disto tudo é que nem tiveram a coragem de me dizer diretamente. Os editores comunicaram-me um dia que a direção tinha achado que não valia a pena continuar a comentar na RTP”, diz em entrevista a João Miguel Tavares, no programa Artigo 38 da Rádio Observador.

Lourenço recorda o episódio que remonta ao final de 2015, e para o qual nunca obteve “explicações”, comparando ainda essa fase com a do atual Governo. “Não tenho a mais pequena dúvida que nunca mais voltei à RTP por causa das minhas opiniões. Até acho estranho a falta de coluna vertebral, porque do ponto de vista político recordo-me que quando comecei a fazer mais comentários na RTP foi quando o José Sócrates era primeiro-ministro. E não me lembro de haver tanta interferência na RTP como passou a haver mais tarde. Digam o que disserem, nota-se uma interferência política. Não digo que isto venha do António Costa. Há diretores que são mais papistas que o papa”.

Sobre as críticas de que costuma ser alvo, uma palavra especial para “os fofinhos que me insultam por aí”: “Já não se lembram que o Cavaco me detestava. Só se centraram no meu apoio ao governo da troika”.

Das velhas pressões aos novos formatos digitais

O comentador, que esteve na fundação do Diário Económico, faz ainda a revisão de mais de 30 anos de carreira com uma passagem por quase todos os meios de comunicação — à exceção do Expresso — e destaca um par de momentos especialmente críticos. “Perdi o emprego duas vezes por pressões que têm a ver com interesses ligados aos acionistas. Um na revista Valor, em 1994, por causa de histórias que envolviam o grupo Espírito Santo e a Galp. Fiz uma capa a dizer “corrupção na Galp”. O doutor Ricardo Salgado ligou muito aborrecido ao doutor Paes do Amaral a dizer que lhe cortava o crédito se continuássemos a escrever aquilo. O meu segundo caso foi o BPN, na revista Exame, em 2001″, descreve, sem ter dúvidas de que “o Banco de Portugal protegeu Ricardo Salgado” — e mantendo a posição de que Zeinal Bava era “um grande líder, com uma inteligência emocional fora do comum, tirando a parte em que se deixou seduzir por Salgado”.

Sobre o modelo de negócio do espaço “A Cor do Dinheiro”, rubrica criada inicialmente em 1988 e mais tarde transportada para o Jornal de Negócios e posteriormente ainda para a televisão, diz conseguir “decidir a informação e fazer serviço público”, acusando ainda “a felicidade de ter rendimentos que dão a possibilidade de não ser rico mas de garantir a minha vida se ficar sem salário do jornalismo”. Descreve-o como um projeto que, não tendo começado como um modelo de negócio, “está com uma audiência tão grande que as agências já começam a telefonar a dizer que podem fazer isto e aquilo”. Questionado sobre eventuais conflitos, confessa que não tem carteira de jornalista “há muito tempo”, uma decisão tomada “quando ainda trabalhava em redações”: “Não gosto de corporações”, justifica. Aponta ainda alguns desafios colocados pelo mais recente contexto digital: “Uma parte da classe jornalística, nomeadamente com nome e com marca, vai ter que arranjar uma outra forma de obter rendimento, agora têm é que fazer declaração disso.”

A conversa não termina sem uma passagem pelo clube do coração, o Sport Lisboa e Benfica, e uma viagem no tempo para recordar o seu papel de porta-voz de Luís Vieira Vieira, quando este foi candidato pela primeira vez à presidência do clube: “Ajudei Luís Filipe Viera a chegar à presidência do Benfica. Convidou-me para ficar, mas em três meses aprendi mais sobre futebol do que em toda a minha vida. Imagina o que vi. A certa altura também percebi que o Luís Filipe Vieira não tinha a sua vida empresarial muito clara e eu não quero nada estar ligado a essas coisas.”

Esta entrevista de 45 minutos pode ser ouvida na íntegra, clicando aqui.

Artigo 38 (o artigo da Constituição sobre a liberdade de imprensa) é o programa de entrevistas de João Miguel Tavares na Rádio Observador e pretende colocar jornalistas influentes na pele de entrevistados. É transmitido aos sábados depois das notícias das 13h00. Repete às 22h00 e aos domingos às 18h00. Pode ouvir em 98.7 FM na Grande Lisboa ou aqui no site do Observador.

Pode ainda aproveitar para ouvir as quatro entrevistas anteriores nos links em baixo.

Miguel Sousa Tavares
João Marcelino
Joaquim Vieira
José Eduardo Moniz