Rui Rio e Assunção Cristas enfrentaram-se pela primeira vez num debate de pré-campanha eleitoral, mas em clima de não-agressão. Os dois ex-parceiros de coligação optaram por ir separados a eleições embora até admitam que, em termos matemáticos, poderia ser vantajoso irem coligados. “Ganhávamos qualquer coisinha no método d’Hondt, matematicamente ganhávamos dois ou três deputados, mas assim marcamos a nossa identidade”, afirmou o líder do PSD no debate na SIC, onde não se mostrou melindrado com os últimos longos meses de ataque do CDS ao PSD, nem sequer com as tentativas de Cristas se pôr em bicos de pés aproveitando o período conturbado de mudança de líder que fragilizou inicialmente o PSD. Isso são águas passadas: agora, os dois são coloquiais um com o outro, concordam no essencial, que é baixar impostos, e concordam que cada um tem de fazer o melhor possível para conseguir uma fatia tanto maior quanto possível para que a direita seja mais forte do que a esquerda.

Para Assunção Cristas, a grande diferença entre os dois partidos é que o CDS sempre disse “de forma cristalina” que “não dará a mão ao PS“, e o mesmo não pode dizer o PSD de Rui Rio. “O CDS é o único partido que diz com clareza cristalina que não fará nenhum acordo nem dará qualquer apoio a um governo de António Costa”, afirmou a líder do CDS, sublinhando que o facto de ter feito uma “oposição muito dura” ao PS de António Costa nos últimos quatro anos (com duas moções de censura) não impediu o CDS de “estar ao lado do interesse do país” em acordos sobre, por exemplo, a legislação laboral.

Rui Rio mostrou-se de acordo sobre o facto de haver uma diferença clara entre os estilos dos dois de fazer oposição. Mas o líder do PSD procurou explicar que há uma diferença entre o PSD de 2018, quando não havia eleições, e o PSD de 2019, em ano de três eleições. No primeiro ano, Rio admite que teve uma postura “colaborante” para com o partido do Governo, e que agora é que é tempo de “mostrar as diferenças”.

Quem baixa mais impostos?

A diferença maior, contudo, apareceu no ponto onde os dois partidos mais convergem. Tanto PSD como CDS defendem que a prioridade é baixar impostos, mas quem baixa mais? Depois de Rui Rio ter anunciado qual é a fórmula do PSD para gerir a folga orçamental — 25% para baixar impostos, 25% para aumentar investimento, 44% para aumentar a despesa corrente e 6% para ter superavit orçamental –, Assunção Cristas jogou no contra-ataque e disse que a diferença entre os dois estava precisamente no “grau de compromisso” que assumem, sendo que o CDS é mais “ambicioso”, com 60% da folga orçamental destinada à baixa de impostos e 40% destinada a abater na dívida.

“Concordamos no aspeto essencial de baixar impostos, mas onde há convergência também há alguma divergência e para nós a prioridade é baixar impostos e é de uma forma mais intensa do que o PSD”, disse Cristas, levando Rui Rio a justificar que o CDS está a medir os impostos de forma diferente do PSD, daí que os números sejam diferentes. “A nossa proposta é mais ambiciosa”, resume Cristas. Numa coisa os dois concordaram: o atual governo é responsável pela “maior carga fiscal” de sempre, e se não for para baixar impostos agora, então quando será?

Para Assunção Cristas, o CDS não está a ser otimista ao propor uma baixa de impostos para “todas as pessoas, do público e do privado”, e prova disso é que admite “pequenas flutuações” caso o crescimento económico abrande mais do que se prevê. Rui Rio também concorda, admitindo que se a folga orçamental não for de 15 mil milhões como o PSD prevê, e for menos, então “tudo isto é adaptado”.

Questionados sobre o facto de nem PSD nem CDS proporem agora o regresso às 40 horas na função pública, Assunção Cristas disse que isso era uma questão de fazer escolhas em nome do equilíbrio das contas públicas: “Prefiro baixar impostos do que reverter as 35 horas. Não podendo fazer as duas coisas, prefiro baixar impostos para todas as pessoas”, disse. Já Rui Rio, que se mantém crítico das 35 horas, dizendo que esse foi um dos fatores responsáveis pela degradação dos serviços públicos, afirma agora que “[reverter as reversões] não é política em lado nenhum”. “Entendo que deve haver alguma estabilidade. É preferível não mexer”, defendeu.

Crise dos professores. CDS assume “erro”, PSD diz que foi “perfeitíssimo”

“Aquilo que fizemos na altura está perfeitíssimo. Não me enganei nada”, disse Rui Rio quando questionado sobre o polémico episódio da crise dos professores, que deixou o PSD e o CDS ao lado da extrema-esquerda na fotografia, e o PS com o rótulo de garante do equilíbrio das contas públicas. O episódio é de maio e, segundo admite Rio, “foi determinante para o resultado das europeias”, mas os dois líderes ainda se desdobram em explicações.

Para Rui Rio não houve erro nenhum, porque o PSD sempre disse que só aprovava a contagem integral do tempo de serviço dos professores se a norma travão fosse aplicada. O CDS, contudo, assumiu o erro na altura, e Assunção Cristas explica porquê: “Se não conseguimos explicar que o que tínhamos era muito claro foi um erro”, disse, sublinhando que o CDS defende que a contagem do tempo de serviço tem de ser acompanhada de uma revisão das carreiras, de uma revisão da avaliação dos professores e da questão das aposentações na carreira docente. “A posição do CDS era em pacote”, disse, admitindo que o partido “não conseguiu explicar” na altura. Além de que, nisso os dois líderes concordam, o problema esteve no facto de António Costa ter feito uma “dramatização” e ter contribuído para a “desinformação” com propósitos eleitorais.

Questionado sobre o tema da regionalização, que não consta do programa eleitoral do PSD, Rui Rio deixou clara qual é a sua posição:  Só admite regionalização se for acompanhada de redução da despesa pública. Outra coisa diferente é descentralização e desconcentração dos serviços, e essa é a grande “guerra” que quer comprar. Cristas, contudo, rejeita categoricamente uma regionalização: para o CDS, regionalização é sinónimo de “mais despesa do Estado, mais burocracia e mais cargos políticos, e isso não ajuda o país”. Desconcentração de serviços, isso sim, o CDS concorda.

Num dos momentos mais tensos do debate, que, de resto, foi cordial entre os dois líderes partidários, Assunção Cristas recusou responder a uma questão sobre se aceitava que o líder da juventude do seu partido “truncasse” um texto para criticar o despacho do governo sobre a lei da identidade de género. “Isso não interessa às pessoas que estão em casa”, disse Cristas, recusando dessa forma sair em defesa do líder da JP, Francisco Rodrigues dos Santos, nesta matéria.

Já Rui Rio, na fase final do debate, foi questionado sobre o regresso de António Capucho ao PSD, depois de ter sido expulso durante a liderança de Pedro Passos Coelho, e rejeitou que o regresso do histórico militante fosse uma afronta ao ex-líder do partido: “Se cortasse relações com todos aqueles com que discordei, já não falava com ninguém”, disse, elogiando o currículo de Capucho e dizendo que a sua expulsão do partido foi “injusta”.