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Ilustração: Ana Martingo/Observador

Ilustração: Ana Martingo/Observador

A história de um mistério chamado Sindika Dokolo /premium

Ambicioso e provocador, colecionador de arte e homem de negócios — e "oligarca" assumido. Quem era o congolês Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, que morreu aos 48 anos num acidente no Dubai.

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Não era habitual Sindika Dokolo falar sobre José Eduardo dos Santos. Sabe-se que o antigo Presidente angolano aprecia a discrição e o recato e, talvez por isso, o marido de Isabel dos Santos falava pouco do sogro. Quando abriu uma exceção, revelou mais do que admiração: “Conheci a minha mulher na altura em que o meu pai morreu. Essa perda foi uma ferida muito profunda para mim. Na sequência disso, o meu sogro tornou-se o meu pai espiritual. O meu pai de substituição.

A entrada de Dokolo no clã Dos Santos marcou o seu percurso para sempre — até esta quinta-feira, quando morreu, aos 48 anos, num acidente no Dubai. Sindika Dokolo fazia mergulho quando sofreu uma embolia.

Morreu empresário Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos

Não fosse a ligação com a família do antigo Presidente angolano e Sindika Dokolo muito provavelmente teria evitado sempre os holofotes. Conhecido colecionador de arte, não há especialista em arte africana que não elogie a sua coleção e o trabalho que fez com ela — mas a verdade é que essa fama estava confinada ao nicho do mercado da arte. Era figura ativa na sociedade civil do seu país de origem, a República Democrática do Congo (antigo Zaire), mas apenas desde meados de 2017, quando fundou um movimento contra o Presidente Joseph Kabila. Tinha fortuna de família, herdada de Kinshasa, porém pouco se sabe sobre as suas origens. Era “inteligente”, “educado”, “simpático”, dizem todas as fontes ouvidas pelo Observador que já se cruzaram com Sindika Dokolo. Mas era também “um mistério”.

Para lá da arte, era um homem de negócios extremamente bem sucedido, tanto em Angola como em Portugal, com investimentos nos diamantes, na indústria do cimento e até numa produtora de cerveja. Mas eram precisamente esses negócios que estavam agora pressionados, por suspeitas de que só terão sido possíveis graças à relação com a mulher e o seu “pai de substituição”. Primeiro surgiu o arresto de bens em Luanda, ordenado pela justiça, sob o olhar atento de João Lourenço. De seguida, a publicação dos Luanda Leaks, que revelaram que Sindika tinha um papel bastante maior nos negócios de Isabel dos Santos do que a imprensa especulava. “Sou como uma ovelha no corredor do matadouro”, respondeu o congolês. “Isto é uma pura caça às bruxas política”.

(INSTAGRAM SINDIKA DOKOLO)

Ao longo da sua vida, Sindika Dokolo nunca teve hesitações em falar alto sobre o que pensava, contrariando a postura mais discreta da mulher, Isabel dos Santos, e do pai desta. O congolês sempre criticou, por exemplo, o que considerava ser o racismo do Ocidente contra as elites africanas e sempre exigiu a restituição do património artístico africano aos países de origem, recorrendo por vezes ao sarcasmo mais mordaz, como o que revelou numa entrevista ao Le Monde, em 2017: “Prefiro que as riquezas de África sejam devolvidas a um negro corrupto do que fiquem com um branco neo-colonialista”. Mais de três anos depois, optava pelo silêncio.

Ele era o genro. E aparecia também como um benemérito das artes, um ativista, um empresário e o companheiro de Isabel. Este era o perfil conhecido de Sindika Dokolo, mas havia mais sob a superfície. Ele era a figura sempre presente, sem laços de sangue mas íntimo do círculo mais próximo de José Eduardo dos Santos. Era o “joker da família”, como dizia Eugénio Costa de Almeida, investigador luso-angolano que tem acompanhado a política angolana e a congolesa em profundidade. Mas de onde vinha esta “carta fora do baralho” chamada Sindika Dokolo?

“Tirem-lhe tudo.” A infância no Zaire e a expropriação dos negócios da família

Sindika Dokolo nasceu a 16 de março de 1972 na clínica da Cruz Vermelha dinamarquesa de Léopoldville (atual Kinshasa), capital do antigo Congo belga, à altura Zaire. A sua mãe, a dinamarquesa Hanne Taabbel Kruse, chegou ao país como voluntária da Cruz Vermelha da Dinamarca, mas acabaria por ser despedida. O motivo? Ter começado a namorar com um homem negro e divorciado, o empresário Augustin Dokolo, que já tinha dois filhos de um casamento anterior.

Sindika Dokolo (à esquerda), com o pai Augustin e o irmão Luzolo

DR SITE FAMÍLIA DOKOLO

Quem contou a história foi o próprio Sindika Dokolo, numa rara entrevista dada ao cineasta Jean-Pierre Bekolo Obama, que está disponível no YouTube, com data de publicação de 2010. É também ali que Sindika conta que o seu nome significa “O Enviado” em kikongo, uma das línguas dos Bantu. “Quando eu era criança, os meus amigos e os meus primos mais velhos interpretavam ‘O Enviado’ como aquele que eles ‘enviavam’ para ir buscar uma Coca-Cola ou algo do género. Até que o meu pai apareceu e disse ‘Não, não. É ‘O Enviado’ no sentido de ‘Emanuel, o Enviado de Deus’.”

Sindika era Sindika porque Emanuel era proibido. O Zaire, em 1972, estava em pleno período da authenticité promovida pelo general Mobutu: o nacionalismo africano, combinado com o culto do líder e o apoio americano em plena Guerra Fria, tornara-se o motor de um regime ditatorial que duraria até finais da década de 1990. Os nomes cristãos foram, por isso, banidos. “Foi um fenómeno cultural que tivemos e que foi muito forte, um pouco na senda da revolução cultural maoísta, na China. Foi uma decisão política tomada na época como forma de igualitarismo. Toda a gente ia à mesma escola e toda a gente usava o mesmo uniforme. Os homens não podiam usar gravata, as mulheres não podiam usar calças”, resumia o próprio Sindika na entrevista a Bekolo Obama, sobre o período em que Mobutu se aproximou da China maoísta por oposição aos soviéticos.

Joseph Désireé Mobutu chamou Zaire ao Congo e auto-nomeou-se Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que significa “O guerreiro todo-poderoso que, devido à sua resistência e vontade inflexível de ganhar, irá de conquista em conquista deixando fogo à sua passagem”. O chapéu em pele de leopardo tornou-se a sua imagem de marca, o pormenor de ostentação de um líder africano cuja mansão milionária que construiu tinha até pista de aterragem para um Concorde. A política era feita com mão de ferro, através de um sistema de partido único, com promoção do igualitarismo a qualquer custo — e muito dinheiro desviado. Pelo meio, Mobutu mandava enforcar aqueles que o desafiavam e promovia eleições onde os zairianos escolhiam entre um boletim verde “pela unidade e esperança” (pró-Mobutu) ou vermelho “pela mudança e o caos” (anti-Mobutu).

Foi neste Zaire que Sindika Dokolo cresceu, num ambiente que o terá marcado para toda a vida. “Sei o que é viver num sistema de partido único, onde não se tem direito a expressar opiniões diferentes”, afirmou ao jornal Le Point em 2017. Mas o Mobutismo não lhe trouxe apenas más influências: “Se olharmos de uma perspetiva histórica, quando a era Mobutu acabou e entrámos no século XXI isto pode ter adquirido uma dimensão ridícula. Mas marcou toda uma geração. A minha identidade vem fundamentalmente toda dessa revolução cultural”, assumiu na entrevista a Bekolo Obama. A lógica anti-colonialista promovida por Mobutu, traduzida na frase várias vezes repetida “Nós não somos como os ocidentais”, entranhou-se em Sindika. Anos depois, Sindika e Isabel dos Santos dariam a todos os seus filhos nomes de origem africana.

Como acontece com qualquer déspota, em torno de Mobutu também cresceu uma corte. “Com José Eduardo dos Santos, muita gente navegou e orbitou à volta dele. Também muitos viveram e sobreviveram à volta de Mobutu Sese Seko”, aponta Eugénio de Almeida. Um desses homens terá sido Augustin Dokolo, pois só assim parece explicar-se que tenha conseguido ter um império de negócios tão bem sucedido em plena ditadura mobutista. Ainda antes da independência do Congo belga, já Augustin detinha uma empresa de táxis, o seu primeiro grande negócio conhecido. Após a independência, surgiram outros negócios, como uma discoteca — a primeira a ser detida por um negro no Congo, segundo revelava o próprio Sindika no site da família.

Manu Dibango, um dos músicos africanos mais conhecidos da sua geração, conta na sua auto-biografia como o seu caminho se cruzou com o de Dokolo pai na década de 1960, descrevendo-o como um homem de negócios já muito rico: “Tínhamos acabado de conhecer Dokolo, um banqueiro com fortuna que vivia num luxuosa villa, em frente à câmara municipal. Ele tinha-me ouvido tocar na [discoteca] Afro-Negro e sugeriu-me um negócio. Foi então que criámos o Tam-Tam, o nosso primeiro clube”. Tecnicamente, em 1963 Dokolo ainda não era um “banqueiro com fortuna”, já que o seu grande negócio, o Banco de Kinshasa, só viria a ser fundado em 1971. Mas não parece haver dúvidas de que Augustin Dokolo já tinha dinheiro suficiente para investir no que lhe apetecesse.

Um dos poucos artigos de jornal que sobreviveram desse tempo, no Congo, conta como o Banco de Kinshasa “nasceu num dia de mau tempo, na tarde de 20 de novembro de 1970”. Já aí se atribuía uma ligação do banco a Augustin Dokolo, mas não se descartava “a compreensão e o apoio do governo” para garantir que o Banco de Kinshasa era fundado. À data da inauguração, empregava 50 pessoas; um ano depois, os funcionários já eram mais de 400.

Marius Muhunga, jornalista congolês, ilustra ao Observador o quanto Augustin Dokolo era bem-sucedido no ecossistema em torno de Mobutu: “Quando se diz a alguém no Congo que se é um Dokolo, isso significa que se é bastante rico. Ora, numa altura em que Mobutu era um ditador e começava a concentrar em si todo o poder, a maioria das pessoas com posses na altura ou eram da família de Mobutu ou da sua província. E Dokolo era de outra parte do país, do Congo central, portanto isto era muito raro”, aponta. “Este tipo podia não ser um político, mas era um hábil homem de negócios, sem dúvida.”

Mobutu e a sua política de "authenticité" marcaram o à altura Zaire

Gamma-Rapho via Getty Images

Erik Kennes, ex-membro da missão da ONU na República Democrática do Congo (RDC), concorda: “Basta ver o livro que ele publicou, o Telema Congo. Na segunda página diz-se que foi oferecida uma edição especial do livro ao Presidente”, conta ao Observador. “Ele nunca conseguiria ter este destaque se não tivesse a bênção de Mobutu. Não existia vida económica independente no Congo daquela altura.”

Com maior ou menor apoio do regime, Sindika Dokolo gostava de destacar o dinamismo do pai como empresário. “O meu pai tinha um fogo criativo. Levantava-se às 4 da manhã para ir a estaleiros de construção, pensava a toda a hora, planeava. A sua carreira, bastante única para a realidade da RDC, não é destacada o suficiente”, dizia à Jeune Afrique numa das suas entrevistas mais célebres. “Sou o seu herdeiro. Inspira-me naquilo que considero ser a minha responsabilidade social, nos meus interesses económicos, nos meus interesses.”

Sindika em criança ao colo do pai, Augustin Dokolo (INSTAGRAM SINDIKA DOKOLO)

Mas eis que, não se sabe exatamente como nem porquê, Mobutu Sese Seko deixou de proteger Augustin Dokolo. “Há duas versões sobre esta história”, conta Erik Kennes, que viveu oito anos em Kinshasa (2009-2017), muito depois de Mobutu já ter saído do poder. “Segundo uma das versões, Augustin acumulou demasiada dívida, incluindo pequenos empréstimos que o Banco de Kinshasa contraiu com o Banco Central, e isso provocou a queda financeira do banco. A outra versão diz que o governador do Banco Central à altura, Pierre Pay-Pay, criou artificialmente dívida do Banco de Kinshasa para provocar problemas ao banco. Esta é a versão defendida pela família Dokolo.”

“Quando se diz a alguém no Congo que se é um Dokolo, isso significa que se é bastante rico. Ora, numa altura em que Mobutu era um ditador e começava a concentrar em si todo o poder, a maioria das pessoas com posses na altura ou eram da família de Mobutu ou da sua província. Este tipo podia não ser um político, mas era um hábil homem de negócios, sem dúvida”
Marius Muhunga, jornalista da República Democrática do Congo

A primeira versão vem, por exemplo, na coletânea Enterprises et Entrepeneurs Africains, publicada em Paris em 1995. Ali se lê que, “embora seja elogiado pelo seu dinamismo e o seu caráter puramente nacional, o Banco de Kinshasa acaba por ceder ao longo dos anos ao ‘dinheiro fácil’”. “Em primeiro lugar, o Banco de Kinshasa, embora tenha sucursais em dezenas de locais na Bélgica e no estrangeiro, não consegue combater o poderio da banca comercial belga. Para além disso, acaba por dar demasiados empréstimos às empresas do ‘Grupo Dokolo’”. Por fim, acrescenta o livro, “encontram-se milhões a descoberto” no Banco de Kinshasa, e este é totalmente nacionalizado.

A segunda versão, explícita no site da família Dokolo, diz que o aumento da dívida foi agravado pelas “multas financeiras astronómicas” aplicadas pelo Banco Central. “Para surpresa de todos, o Banco de Kinshasa passou a ser administrado pelo governo a 17 de fevereiro de 1986”, diz a família Dokolo. “Os edifícios que tinham sido entregues [por Augustin] para cobrir a dívida foram simplesmente tomados. O Banco de Kinshasa (…) foi nacionalizado e todas as suas propriedades foram transferidas para o Novo Banco de Kinshasa.” Também as empresas de Dokolo foram todas entregues ao Estado.

Qual das versões é a verdadeira, afinal? Impossível saber, avisa Kennes: “Estamos a falar do período de 1986/87. Os arquivos daquela época foram praticamente todos destruídos. Até os jornais daquela altura desapareceram, incluindo a Official Gazette. É muito difícil saber o que aconteceu ao certo”.

O jovem Sindika, que durante este período estudava fora do país — primeiro no Lycée Saint Louis de Gonzague e depois na Universidade Pierre et Marie Curie (onde se licenciou em Economia), ambos em Paris — acompanhou o processo à distância. Mas a queda da família no Zaire marcá-lo-ia para sempre: “O meu pai era um dos homens mais ricos de África e perdeu tudo. Cresci com a ideia de que se pode perder tudo”.

Augustin Dokolo e a mulher, Hanne-Kruse (INSTAGRAM SINDIKA DOKOLO)

Também isso o influenciou na forma como fazia negócios anos mais tarde. “Mobutu disse uma frase que continua a ser famosa na minha família: ‘Tirem-lhe tudo. Deixem-lhe apenas o carro e a casa’”, contou numa entrevista, dando a entender que a nacionalização foi ordenada pelo próprio Presidente. Desde então, explicava, a sua família “passou a preferir sempre constituir holdings complexas para estar o mais possível protegida da espoliação por parte dos poderes políticos’”.

Delinda Collier, professora de História da Arte da Universidade de Chicago, estudou a fundo o perfil de Sindika Dokolo para escrever a obra Repainting the Walls of Lunda: Information, Colonialism and Angolan Art [sem edição em português]. Não tem dúvidas de que a expropriação dos bens a Augustin Dokolo foi decisiva na vida de Sindika Dokolo. “Ele cresceu consciente do que era a política e de quais os riscos de falar demais. Ele cresceu a observar o pai e os escândalos que o envolveram e acho que isso fez com que passasse a ser muito cuidadoso com o que diz e a quem o diz”, afirma Collier. A professora teve oportunidade de entrevistar o próprio Sindika, por telefone. Descreve-o como “muito simpático” e “muito consciente das contradições que o envolvem”.

O casamento com Isabel dos Santos e o encanto com “a chama” dos angolanos

O nome Augustin Dokolo ficou, por isso, conhecido na RDC e associado permanentemente à ideia de riqueza. Mas o nome de Sindika, da sua irmã mais velha, Manzanza, e do seu irmão mais novo, Luzolo, passaram despercebidos durante praticamente toda a juventude do empresário. O jornalista congolês Marius Muhunga recorda ao Observador que a primeira vez que ouviu falar de Sindika não foi na República Democrática do Congo, mas sim em Angola: “Estava numa viagem de trabalho lá, creio que há uns dez anos. E foi aí que alguns congoleses que vivem em Angola me disseram que o marido da filha de José Eduardo dos Santos era um cidadão congolês”.

A chegada de Sindika Dokolo a Angola foi um ponto de viragem na sua vida, porque levou a que conhecesse a futura mulher, Isabel dos Santos, filha do Presidente angolano. Não são claras as circunstâncias em que Sindika decidiu partir para Luanda, mas sabe-se que terá sido algures em 1999. O jovem Sindika teria 29 anos quando, de acordo com o seu relato à Forbes África, chegou a Angola por acidente. O destino final seria o Brasil e a paragem em Luanda servia apenas para tratar do visto, mas, ao que parece, o congolês terá perdido um voo e decidiu ficar na capital angolana. “Não conhecia o país. Havia guerra por todo o lado, uma guerra interminável. Havia pobreza, precariedade. Não conhecia ninguém. À altura, ainda vinha armamento da África do Sul para apoiar a UNITA. Mas, apesar disto, vi nos olhos dos angolanos o tipo de chama que o meu pai me tinha transmitido, no Congo.”

Pouco se sabe sobre como Sindika Dokolo e Isabel dos Santos se conheceram. Há uma breve referência, numa entrevista do congolês à revista Jeune Afrique, sobre como os dois se terão conhecido em 1999, na discoteca Miami Beach, da qual Isabel dos Santos era sócia, naquele que foi o seu primeiro negócio conhecido. Mas nada mais. “Temos de assumir que, quando se consegue conhecer a filha do Presidente do país vizinho, é porque se pertence a alguns circuitos internacionais que lhe permitem dar-se com pessoas importantes”, diz Kennes. “Também não podemos ignorar que Isabel dos Santos tem mãe russa e pai angolano, enquanto que Sindika tem mãe dinamarquesa e pai congolês. [Em África] muitas vezes os mestiços convivem nos mesmos círculos.”

Isabel dos Santos e Sindika Dokolo, quando eram mais novos

INSTAGRAM ISABEL DOS SANTOS

A verdade é que Sindika e Isabel tinham muitas coisas em comum quando se conheceram: ambos eram marcados pelas figuras dos seus pais, que admiravam; vinham os dois de países africanos que estavam nesse momento a ser devastados pelo conflito; e cada um estudara e vivera na Europa, onde tiveram acesso à melhor educação possível. Nessa vida em espelho, comum à de outros filhos das elites africanas, ambos acalentavam o desejo de vir a deixar marca.

Augustin Dokolo morreria na mesma altura em que Sindika estava em Luanda. Foi no ano de 2001 — o mesmo ano em que Kabila pai, que tinha sucedido a Mobutu depois de um período de violenta guerra civil, foi assassinado. Joseph Kabila filho subiu ao poder na República Democrática do Congo, que entretanto enterrara o nome Zaire, juntamente com o Mobutismo.

A união entre Dokolo e Dos Santos consolidou-se com um casamento digno de uma primeira-filha. De acordo com a biografia de Filipe S. Fernandes, a cerimónia pelo civil decorreu no dia 20 de dezembro de 2002 e a católica realizou-se no dia seguinte, às 16h30. A imprensa angolana especulou muito sobre os gastos do copo de água, cujos valores astronómicos foram desmentidos diretamente por Isabel dos Santos. Houve sim, de acordo com a própria, uma ementa que incluiu produtos angolanos como “lagosta do Kwanza-sul”, “a fresquíssima e saborosa garoupa pescada na costa de Luanda” e “mousse de maracujá do Uíge”. Entre os convidados, estiveram vários dignitários como o Presidente da Namíbia, Sam Mujoma, e próprio Kabila filho, à altura um ainda jovem Presidente.

O casamento durou. “Feliz Dia dos Namorados para todos aqueles que também sentem um arrepio sagrado na presença dos vossos amados”, escrevia a 14 de fevereiro de 2017 Sindika Dokolo, na legenda de uma fotografia sua com Isabel dos Santos, ambos de óculos escuros num dia soalheiro à beira-mar.

Isabel dos Santos e Sindika Dokolo (FACEBOOK DE SINDIKA DOKOLO)

Nos negócios, partilhavam a gestão de múltiplas empresas mas, de acordo com Sindika, dividiam responsabilidades e cada um tomava a dianteira nos diferentes projetos: “Isto permite diferenciar a minha folha de balanço da dela. Separamos a nossa vida de negócios da nossa vida familiar”.

Em público, Sindika falava pouco sobre o seu casamento, mas, quando o fazia, costumava elogiar a capacidade de Isabel dos Santos como empresária. Foi o que aconteceu numa rara aparição de Sindika na televisão angolana, como convidado do programa Hora Quente da TPA, em 2013. “Acho que ela tem qualidades especificamente angolanas e que, na minha opinião, fazem de Angola um projeto de futuro. Primeira, a autoconfiança: tem confiança no futuro, olha para o futuro não só de uma maneira positiva mas com apetite. A segunda é a estabilidade, é uma pessoa muito calma, muito estável, gosta de refletir com uma perspetiva a longo prazo, tem as suas opiniões muito próprias. E com muita ambição”, afirmou, sentado no sofá do talk-show. “É interessante porque, quando cheguei a Angola, havia ainda uma guerra das mais terríveis do continente e fiquei admirado com uma atitude que os angolanos têm, que é uma capacidade para apostarem num futuro muito melhor, não fazer muito caso das dificuldades, dos constrangimentos, e olhar para a frente sempre com uma exigência, expetativa e ambição. A minha mulher tem estas três qualidades.”

Os elogios voltaram a surgir no início de 2017, depois de Isabel dos Santos ser nomeada para dirigir a petrolífera Sonangol, a maior empresa do país. “É um general num campo de batalha, num momento decisivo. Ela está a mudar completamente a cultura de negócios da Sonangol. Não pode ser um simples consultor, árbitro ou treinador. Deve ser o número 10 e marcar golos“, afirmou ao Jornal de Negócios. Essa nomeação provocaria polémica, por ter sido fruto de uma decisão do próprio pai de Isabel dos Santos, o Presidente José Eduardo dos Santos, meses antes de sair do poder. Foi a última decisão entre uma série de contratos públicos e concessões feitos pelo Estado angolano a Isabel dos Santos — e também a Sindika Dokolo — que levaram a ainda mais acusações de nepotismo.

Sindika Dokolo rejeitou sempre essa leitura: “Posso saber que o Presidente toca guitarra ou joga futebol, mas não o revelo. Eu tenho relações com o meu sogro enquanto homem e não na sua qualidade de chefe de Estado. Não sou seu advogado nem seu confidente”, declarou à Jeune Afrique. A linha de defesa é em tudo igual àquela que viria a ser praticada por Isabel dos Santos numa entrevista ao Observador, em dezembro de 2019: “[O governo angolano] não era presidido pelo meu pai, era presidido pelo Presidente da República. Infelizmente, que eu saiba, lá em casa ele só preside ao almoço. Porque é importante fazer esta distinção. É preciso distinguir a pessoa da função.”

Entrevista a Isabel dos Santos. “Não sei se sou a mulher mais rica de Angola”

“Enquanto homem”, Sindika Dokolo convivia de facto bastante com o sogro. Um exemplo pode ser visto num vídeo caseiro, divulgado no Youtube não se sabe exatamente por quem, em que a família Dos Santos celebra mais um aniversário do patriarca José Eduardo. A certa altura, este faz questão de chamar Sindika — que está do outro lado da mesa onde está pousado o bolo azul e branco de aniversário —, para brindar especificamente com ele.

Mas se em 2017 o congolês considerava que as relações que mantinha com o Presidente angolano ficavam limitadas à esfera familiar, no início de 2020 — já depois de ser conhecida a notícia do arresto dos seus bens em Angola — o discurso parecia ser outro. “Se a proximidade com o centro de decisão é um fator que favorece em relação ao acesso à informação e aos contactos? Claramente que é verdade. Mas essa proximidade com o poder político inúmeras pessoas que fizeram negócios, especialmente em Angola, também o tiveram”, apontou numa entrevista à edição portuguesa da Radio France Internationale. “Sou um capitalista. Considero-me um oportunista, porque tento sempre capitalizar as oportunidades para criar atividade, emprego e riqueza. Mas é assim que se constroem as economias e os países em economias liberais.”

"Posso saber que o Presidente toca guitarra ou joga futebol, mas não o revelo. Eu tenho relações com o meu sogro enquanto homem e não na sua qualidade de chefe de Estado. Não sou seu advogado nem seu confidente"
Sindika Dokolo sobre José Eduardo dos Santos

Apenas mais um capitalista igual a tantos outros do mundo ocidental, que jogava com as cartas que tem na mão. Era assim que Sindika Dokolo se via, razão pela qual se considerava perseguido por ser africano. No passado, já tinha confessado à Jeune Afrique que considerava “difícil” ser uma Pessoa Politicamente Exposta (PEP), desde que casara com Isabel dos Santos: “Sou julgado sem me conhecerem, como se fosse vítima do pecado original”. Confrontado logo de seguida com a pergunta sobre se utilizava paraísos fiscais, respondeu de imediato que sim: “Pago os meus impostos onde tenho de os pagar, mas não sou estúpido”.

Sindika Dokolo e Isabel dos Santos (FACEBOOK ISABEL DOS SANTOS)

De seguida, justificava que tal era necessário para evitar a dupla tributação nos países africanos — à semelhança do que Isabel dos Santos tinha feito na entrevista com o Observador. Na vida e nos negócios, Sindika e Isabel pareciam estar sempre alinhados.

As relações Sindika Dokolo com o mundo da arte

Havia uma área, contudo, onde Sindika Dokolo se destacava da mulher: no mundo da arte. De acordo com o artista plástico angolano Fernando Alvim, foi num almoço que teve com Sindika Dokolo e com Isabel dos Santos que surgiu a ideia de se começar uma fundação que apoiasse a arte africana. Tudo começaria de facto em 2005, após a morte do empresário alemão Hans Bogatzke. Alvim, à altura galerista em Bruxelas, soube que o alemão gostaria que a sua coleção de arte africana passasse para as mãos de um africano e intermediou a compra entre a viúva de Bogatzke e Sindika.

Foi assim que, em menos de nada, Sindika Dokolo se tornou dono de uma valiosa coleção de arte. “Era uma coleção com uma enorme coerência e com uma representatividade de arte contemporânea feita por artistas africanos, tanto em África como na diáspora, que é única”, avalia ao Observador Nuno Porto, antropólogo e professor de Arte Visual Africana na Universidade da British Columbia (Canadá).

“O mercado da arte é bastante sólido e rentável. Portanto, se quisermos olhar para todo este processo como um investimento financeiro, [esta compra] pode ser vista como um gesto muito racional”, acrescenta. Sindika comprou a coleção por 330 mil euros. Poucos anos depois, à Forbes África, Alvim estimava que valesse já cerca de 2 milhões. “Esta é também uma questão de oportunidade”, resume Nuno Porto. Sindika parece ter prestado atenção a um dos ensinamentos do seu pai, que lhe dizia para “estar atento às estrelas”. “Quando elas se alinham, tens de estar capaz de analisar, compreender e agir”, dizia Augustin Dokolo, segundo o filho. Só assim se poderia ser um homem de negócios bem sucedido.

Desde que comprou a coleção de Hans Bogatzke, Sindika deu nas vistas no mundo da arte africana contemporânea

Artur Machado / Global Imagens

Isso não significa, porém, que Sindika Dokolo olhasse para a área como se comprar um quadro fosse igual a investir na bolsa. Porto aponta que há “indiscutivelmente uma grande paixão pela arte”. A professora Delinda Collier concorda: “Não acho que ele tenha uma atitude cínica em relação à arte como outros colecionadores têm. Creio que ele adora genuinamente a arte e participar no seu mundo.”

Segundo o próprio, tudo terá começado na infância. Em casa, não faltavam livros e pinturas, quer ocidentais, quer africanos — afinal, o seu pai até foi ao primeiro Festival de Artes Negras, no Dakar, em 1966. A mãe, Hanne Kruse, gostava de levar Sindika a todos os museus de arte na Europa. E um dos amigos belgas do pai, Jean Cambier, fez o resto. Quando visitavam a sua mansão em Waterloo, Sindika perdia-se no meio das obras do colecionador belga. “Foi o Jean que me deu a primeira peça da minha coleção, quando eu tinha 12 anos: uma faca Chokwe, uma arma cerimonial”, contou ao L’Echo. Aos 15, com a ajuda do pai, já tinha montado uma coleção própria. “Aos 18, o meu interesse na arte africana caiu. Mas, dez anos depois, tive um momento de choque em frente a uma obra de Jean-Michel Basquiat.” Foi “uma epifania” que o dedicar-se à arte africana.

Com a coleção Hans Bogatzke em mãos, dinheiro para investir em novas peças e um olho apurado, Sindika Dokolo foi alargando a sua coleção e criou a Fundação com o seu nome, convidando Fernando Alvim para vice-presidente. Mas as suas origens pouco conhecidas e a sua ligação aos Dos Santos foram criando alguns episódios polémicos no mundo da arte.

O primeiro aconteceu em 2007. Sindika Dokolo venceu o concurso para representar o pavilhão africano na Bienal de Veneza com a coleção Luanda Pop, mas surgiram algumas vozes críticas. A 23 de fevereiro, um artigo da revista Artnet intitulado “Arte e Corrupção em Veneza”, que falava no “passado desagradável” de Dokolo (nomeadamente nos negócios em Luanda), levou a um direito de resposta do próprio. Nesse mesmo ano, Chika Okeke-Augulu, um dos historiadores de arte africana mais respeitados, disparou também sobre Dokolo, falando numa “ligação sem precedentes entre mecenato na arte e depredação do Estado”. De seguida, o artista dos Camarões Barthélémy Toguo decidiu retirar o seu trabalho da Luanda Pop, dizendo que não queria associar o seu nome ao de Sindika Dokolo. Por fim, segundo o próprio Sindika, o Museum of Modern Art (MoMA) terá decidido retirar o prémio de 100 mil dólares que lhe tinha atribuído, por causa da “exposição política” do seu dono — algo que, anos depois, ainda indignava Sindika Dokolo.

“Aquilo que Okeke-Agulu mencionou à altura é que os problemas não estavam tanto na coleção, mas sim na figura de Sindika Dokolo e no facto de ele se tornar a esperança da arte africana contemporânea”, resume Delinda Collier. Mas as dúvidas levantadas por alguns rapidamente foram ofuscadas pelo valor da coleção, que foi fazendo o seu caminho.

Em 2015, a cidade do Porto e a Fundação Sindika Dokolo estabeleceram uma parceria, cujo primeiro passo foi a exibição de parte da coleção do congolês na Galeria Municipal, na exposição You Love Me, You Love Me Not. Na mesma altura, a autarquia decidiu atribuir ao congolês a medalha de mérito da cidade, numa cerimónia onde estiveram presentes a mãe (Hanne Kruse) e a mulher (Isabel dos Santos) de Sindika Dokolo. No ano seguinte, a Casa Manoel de Oliveira seria comprada pela Supreme Treasure, empresa dirigida pelo braço-direito de Isabel dos Santos, Mário Leite da Silva, com o objetivo de vir a ser sede da Fundação em Portugal.

Sindika Dokolo na inauguração da sua exposição "You Love Me, You Love Me Not", no Porto, com Rui Moreira (à esquerda) e o à altura vereador da Cultura, Paulo Cunha e Silva (à direita)

Artur Machado

As críticas foram surgindo. Na Assembleia Municipal do Porto, houve quatro votos contra a atribuição da medalha a Sindika (em 45 presentes). Romuald Hazoumé, artista do Benim, questionou-se no Le Monde se o congolês procurava o “reconhecimento do Ocidente” e disse que a Fundação faria melhor trabalho se levasse crianças a museus em vez de receber medalhas para o seu fundador.

Em Angola, Sindika ia assinando uma parceria com o Museu do Dundo, antigo museu das artes africanas criado pela antiga empresa de diamantes colonial Diamang, e conseguiu que o Estado lhe cedesse o famoso Palácio de Ferro, em Luanda, para que viesse a ser a casa do futuro Museu da Arte Contemporânea. A Fundação Sindika Dokolo foi ganhando terreno no país, o que preocupava alguns, como o crítico de arte angolano Adriano Mixinge: “[A Fundação] atua, em parte, como se substituísse certas instituições do Ministério da Cultura, uma postura hegemónica que interessa acompanhar”, escreveu.

“Ele era uma das figuras que mais bem fazia pelos artistas africanos e este é mais um escândalo que ninguém queria. Há muita ambivalência em relação a Sindika. A posição dominante é a de que a riqueza dele provavelmente foi adquirida pelos meios errados. Mas ele estava a fazer coisas tão boas…”
Delinda Collier, professora de arte africana

Até que, no início de 2020, são publicados os Luanda Leaks e, subitamente, toda a gente no mundo da arte fica a par das suspeitas que pairam sobre a origem do dinheiro do mecenas Dokolo. “Todas estas coisas andavam a ser ditas, mas algumas pessoas no meio artístico ou não sabiam ou preferiam não se preocupar com elas. Adam Szymczuk, diretor da Documenta que recebeu financiamento de Dokolo, diz que não sabia. Olu Oguibe também diz que não sabia que este dinheiro poderia ter origens problemáticas”, resume Collier. “Mas isto já tinha tudo sido publicado desde 2007, todas estas preocupações. Para mim é um mistério ver estas perdas de memória ou estes esquecimentos forçados de certas ligações.” Os que optavam por falar em público eram aqueles que mantinham a confiança em Dokolo. “Recuso-me a uivar com os lobos”, decretou Simon Njami, curador que trabalha com Sindika.

A maioria, contudo, preferiu ficar em silêncio. “Há uma certa tristeza no mundo da arte contemporânea africana”, explica a professora Collier. “Ele era uma das figuras que mais bem fazia pelos artistas africanos e este é mais um escândalo que ninguém queria. Há muita ambivalência em relação a Sindika. A posição dominante é a de que a riqueza dele provavelmente foi adquirida pelos meios errados. Mas ele estava a fazer coisas tão boas…”

“Por cada negro oportunista, há 999 brancos que fizeram pior.” As polémicas com “o Ocidente”

”Há peças que foram roubadas do Museu do Dundo. Muitas destas obras-primas da cultura e da arte Chokwe desapareceram. Muitas estão por aí, no mercado, nas mãos de privados, muitas vezes pessoas que as adquiriram sem saber a sua origem e o facto de que tinham tido origem em pilhagens. Decidimos ir procurá-las.” A frase vem de um pequeno clip que aparece no trailer de um filme. Sindika Dokolo lê o discurso em voz off, enquanto se fazem close ups nas máscaras do povo Chokwe, naturais do centro de África (em particular de Angola e do sul daquilo que é hoje a RDC). Os tambores servem de banda sonora. É então que entram as letras garrafais que anunciam que “As máscaras Chokwe roubadas serão devolvidas a Angola”. Por cima, pode ler-se “Londres, 30 de outubro de 2015”.

É assim que começa o vídeo, um dos últimos nove divulgados em janeiro na página oficial de YouTube de Sindika Dokolo. Diz respeito à conferência de imprensa dada pelo congolês num clube exclusivo de Londres, em 2015, a anunciar o projeto de repatriamento de máscaras Chokwe que o colecionador de arte pretendia levar a cabo. O objetivo? Encontrar todas as máscaras Chokwe que foram roubadas, comprá-las e devolvê-las ao Museu do Dundo, em Angola. Para o ajudar neste processo, Sindika lançava o repto a três outros homens para que o acompanhassem: o homem mais rico de África, o nigeriano Aliko Dangote; o milionário sul-africano Patrice Motsepe; e o congolês Moïse Katumbi, homem de negócios envolvido na política da RDC. Um “quarteto” que, para o professor Nuno Porto, ilustrava bem o “cruzamento entre negócios, política e a prática de repatriamento” de que Sindika Dokolo fazia gala.

A política de repatriamento da arte africana pilhada pelos europeus ao longo da História é um tema altamente complexo, que ainda hoje faz manchetes — basta recordar que o Presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu a devolução de 26 peças ao Benim ainda neste mandato. Curiosamente, um dos defensores do repatriamento da arte africana foi precisamente o ditador congolês Mobutu Sese Seko, que denunciou “a pilhagem bárbara e sistemática” das riquezas africanas pelos colonizadores em plena assembleia-geral das Nações Unidas, em 1973.

Sindika navegou esta onda, mas o seu método passava menos pelas negociações entre Estados e mais por fazer justiça com as próprias mãos. Com a ajuda dos melhores marchands de arte, o colecionador procurava o paradeiro de algumas das peças no mercado privado. Quando encontrava uma das obras, confrontava o seu dono com duas hipóteses: vender-lhe a peça pelo preço que lhe propunha ou enfrentar um processo judicial por ter adquirido arte roubada. “Mesmo quando se é caricaturado como um membro da elite africana corrupta, é possível usar esta cartada com sabedoria. Eu escolhi um método radical, dizendo assim aos negociantes de arte: ‘Tenho um exército de advogados, tenho capacidade financeira para tornar a tua vida num inferno e posso retratar-te como inimigo de África.’”

A estratégia, dizia, costumava resultar. As obras eram-lhe geralmente vendidas a um preço abaixo do de mercado. Algumas já foram devolvidas pelo próprio ao Estado angolano, numa cerimónia em 2016 onde Sindika entregou a José Eduardo dos Santos, à altura ainda Presidente, duas máscaras e uma estatueta Chokwe. Um ano mais tarde, Sindika dizia estar a pensar fazer o mesmo na RDC, tentando encontrar peças roubadas dos museus de Lubumbashi e Kinshasa.

O mundo da arte ficou fascinado com este congolês rico, que usava a sua fortuna para promover a arte africana e devolvê-la ao continente, num gesto claramente político. Um “Robin dos Bosques da arte africana”, chamou-lhe mesmo o L’Echo.

E, entre os especialistas, parece não haver dúvidas sobre o impacto do seu trabalho. “É muito difícil caracterizar Sindika Dokolo, porque ele já fez muito pela arte africana e parece ser muito sincero nesses esforços”, aponta Delinda Collier. Nuno Porto reforça: “Questiono-me muitas vezes, independentemente da legitimidade ou não da fortuna que foi investida, se haveria o mesmo reconhecimento da arte africana contemporânea caso esta coleção não existisse”.

O que, contudo, não significa que não houvesse críticas à ação de Sindika, inclusivamente na área do repatriamento: “O processo é feito sem fazer perguntas. Isto é, sem se questionar como é que peças roubadas estão na posse privada. O que é problemático, porque, se não se questiona, é-se cúmplice de um roubo. As peças estão a ser alegadamente adquiridas por quantias bastante elevadas, segundo o próprio Sindika, o que significa que se está a proceder a uma espécie de branqueamento de capitais”, aponta Nuno Porto. O procedimento habitual quando se encontra arte roubada, explica, é a de denunciar às autoridades, nomeadamente à Interpol, algo que Sindika nunca fez, preferindo adquirir as peças e devolvê-las ele próprio. Gastou dinheiro do próprio bolso, é certo, mas, se não o tivesse feito, “os dividendos que teria em termos externos e de relações públicas não teriam sido os mesmos”, analisa o académico.

“A espetacularidade toda de comprar as peças, de fazer uma apresentação em Londres das peças resgatadas ao mercado privado e depois a cerimónia da entrega das peças ao Estado angolano é também a criação de uma personagem. A criação de uma figura pública que é uma espécie de salvador da memória angolana”, acrescenta. Fernando Alvim, artista plástico próximo de Sindika e vice-presidente da própria Fundação, parece concordar: “Isto é da responsabilidade dos Estados, não dos privados. Sindika faz isto pelo buzz e pelo ego”.

Não só a atuação de Sindika Dokolo lhe dava visibilidade — quer através da sua coleção, quer através das ações de repatriamento —, como o discurso que a acompanhava tornava o congolês em alguém que ia muito para lá dos rótulos de “colecionador” ou “homem de negócios”. Grande parte da sua visibilidade vinha também das declarações aguerridas que fez, com um discurso político claro de defesa da africanidade e uma tentativa constante de dizer ao Ocidente que não tem o direito de dar lições de moral aos africanos — incluindo a Sindika Dokolo ou a Isabel dos Santos.

“Cresci na Europa e tive sempre o sentimento de ser o Outro, o estrangeiro, e fui muitas vezes vítima de uma certa apreciação que as pessoas faziam do meu contexto, das minhas referências culturais, da minha maneira de ver o mundo”, disse em 2015, numa entrevista ao Público, sobre os seus anos a estudar na Bélgica e em França. “O meu trabalho com a arte foi também uma afirmação, uma maneira de dizer: ‘Ao contrário do que pensam, eu não sou o que vocês acham que eu sou’.”

Sindika e África: “Por cada negro africano oportunista que roubou dinheiro ilegalmente ou imoralmente, há 999 brancos, na maioria europeus, que fizeram muito pior”

Gerardo Santos

E, de cada vez que alguém apontava a Sindika que as origens da sua riqueza — ou pelo menos as da sua mulher — podiam advir precisamente do erário público angolano, ele era rapido a reagir com um apontar de dedo ao Ocidente: “Por cada negro africano oportunista que roubou dinheiro ilegalmente ou imoralmente, há 999 brancos, na maioria europeus, que fizeram muito pior”, chegou a dizer. “Quando se olha para as grandes fortunas mundiais, muitas tiveram origem na exploração de África. Por que não se pergunta a essas pessoas quantos empregos criaram em África ou quantos impostos pagaram em África?”.

Quando confrontado com a desigualdade tremenda que existe num país como Angola — onde a capital Luanda está entre as 10 mais caras do mundo, mas a taxa de mortalidade infantil era há três anos a mais elevada em todo o globo — Sindika Dokolo voltava a falar numa “conceção racista”, criticando “a conclusão de que o problema de África são as elites africanas, que seriam um grupinho de pessoas que só querem destruir os seus países”. “Hoje em dia as pessoas aceitam com muita dificuldade ver um africano como eu, jovem, a dizer: ‘Vou comprar as obras’ em vez de ir ao tribunal, ou em vez de chorar, ou em vez de suplicar. Não, exijo e pago”, dizia em 2016 à RTP. “E se tiver algum problema com a origem do meu dinheiro, o problema é seu. Estamos num mundo globalizado”.

Falar de Sindika Dokolo é, por isso, falar de nuances. “É tudo menos simples, porque a situação do mundo em que vivemos não é simples”, diz Nuno Porto. “A distribuição da riqueza no mundo contemporâneo é uma coisa absolutamente obscena. E, quando se tem acesso a níveis de riqueza absolutamente obscenos, há várias formas de dissipar essa riqueza. As pessoas podem comprar barcos, podem comprar aviões, ilhas, etc. Ou podem investir no mundo da arte.”

Delinda Collier reconhece também a ambivalência que caracterizava todo o discurso de Sindika: “É verdade que as elites africanas são mais escrutinadas. É verdade que há racismo nisto. Mas também é verdade que ele faz determinadas coisas e que depois recorre a este tipo de linguagem para se defender.” Para a académica, o próprio discurso inflamado de Sindika Dokolo era, em si mesmo, um paradoxo: “Ele usa a linguagem da revolução socialista em Angola, que é precisamente o oposto dos investimentos capitalistas em que ele está envolvido”, diz. “Por um lado, uma linguagem baseada no mercado, mas que também está relacionada com uma história socialista de sentimento anti-colonial. É algo muito difícil de compreender.”

Nuno Porto reforça: “Voltando à questão dos dois pesos e duas medidas, Sindika diz que ninguém perguntaria ao colecionador François Pinaut qual a origem da sua fortuna e que a ele lhe colocam sistematicamente essa questão, que ele vê como racismo. E quando as coisas são colocadas nestes termos, ele não deixa de ter razão”, diz. “O que não quer dizer que Sindika não esteja também a usar a sua paixão de colecionador e a sua capacidade de intervenção no mercado da arte africana como uma espécie de máscara. Para que aquilo que seja evidente na presença pública seja a sua faceta de colecionador e não a sua faceta de homem de negócios, que ele também é.”

Racismo no mundo da arte? "Ele não deixa de ter razão. O que não quer dizer que Sindika não estivesse também a usar a sua paixão de colecionador e a sua capacidade de intervenção no mercado da arte africana como uma espécie de máscara. Para que aquilo que seja evidente na presença pública seja a sua faceta de colecionador e não a sua faceta de homem de negócios, que ele também é”
Nuno Porto, professor de arte africana

Da mesma forma que Augustin Dokolo escreveu o Telema Congo, onde refletia sobre o papel dos congoleses no mundo, também o filho elaborou um discurso sobre África e criou uma personagem. O colecionador de arte africana sobrepunha-se assim ao homem de negócios. O “Robin dos Bosques” do repatriamento ofuscava “o marido de Isabel dos Santos”. E, pelo meio, fazia muito dinheiro.

Dos negócios na cerveja e no cimento até ao setor “onde o Diabo pesca”

Tal como Angola se fez um Estado capitalista inspirado em ideais marxistas-leninistas, também Sindika Dokolo se fez um capitalista que admitia usar paraísos fiscais ao mesmo tempo que denunciava as novas formas de colonialismo contra os africanos. Provocador, nunca escondeu que pretendia ganhar dinheiro. Em pelo menos duas entrevistas, Sindika mostrou simpatia pela ideia de “oligarcas africanos”. ”Embora o termo ‘oligarca’ tenha uma conotação negativa, sempre admirei a decisão difícil tomada pelos russos, após o colapso da URSS, de ceder os bens estratégicos falidos aos mais capazes, muitas vezes sem serem compensados, em vez de os venderem a empresas estrangeiras”, comentava em 2017 com um jornalista da Afrique Magazine. Nesse mesmo ano, tinha declarado com toda a certeza à Jeune Afrique que “os próximos oligarcas serão africanos”, destacando Angola como um dos países com melhores elites empresariais no continente.

Eram vários os negócios em que Sindika estava envolvido, muito para lá do mundo da arte. Ao todo, Sindika e a mulher Isabel dos Santos tinham ligações, de forma individual ou em conjunto, a 423 empresas e sociedades, espalhadas por 38 países. Havia ainda negócios em paraísos fiscais como as Ilhas Virgens Britânicas.

423 empresas em 38 países. O império de Isabel dos Santos que já começou a encolher

Em Portugal, Sindika Dokolo detinha uma participação indireta na Galp — um negócio cuja origem não é clara. De acordo com Isabel dos Santos, a ideia surgiu da “amizade” que a unia a Américo Amorim. Sindika dizia que a ideia de fazer uma joint venture com Amorim para adquirir parte da Galp foi sua, fruto de uma conversa à beira-mar no Mussulo com o próprio Américo Amorim — “Sempre tive muito respeito por ele, lembrava-me muito o meu pai: um homem que começou do quase nada e com sentido de negócios, inteligência, determinação e visão”, afirmou à rádio MFM em junho deste ano. Já o próprio Américo Amorim, quando ainda era vivo, disse que tudo nasceu “de uma conversa de circunstância em Luanda” entre ele e o casal.

Como Isabel dos Santos comprou parte da Galp

Eram vários os negócios onde Sindika e Isabel dos Santos entraram em conjunto. É o caso, por exemplo, da Nova Cimangola, a empresa industrial onde Sindika se envolveu ao comprar a parte da Cimenveste, uma holding à altura detida precisamente por Isabel dos Santos e Américo Amorim, que vendeu a sua quota-parte no negócio ao congolês, em 2010.

Outro exemplo é a Sodiba. A fábrica em Angola que produz a marca Luandina, e que também fabrica a cerveja Sagres no país, partiu de um investimento do casal. A 17 de novembro de 2017, apenas dois dias depois de o Presidente João Lourenço exonerar Isabel dos Santos da liderança da petrolífera Sonangol, a empresária e o marido inauguraram uma moderna fábrica da Sodiba, à beira do rio Kwanza, com pompa e circunstância. “A fábrica que hoje inauguramos materializa um projeto com origem em 2003. Um sonho que resultou da minha iniciativa e da engenheira Isabel de desenvolvermos um projeto de excelência no setor cervejeiro”, afirmou Sindika na cerimónia que envolveu corte de fita inaugural, bênção de um padre e brindes de espumante.

“Sindika Dokolo não tinha uma presença muito visível nos assuntos políticos de Angola, que eu saiba. Não me recordo de o ter visto a pronunciar-se sobre questões de natureza política”, aponta ao Observador, a partir de Luanda, Sérgio Calundungo, presidente do Observatório Social e Político de Angola, que descreve o genro de José Eduardo dos Santos como uma figura discreta. “Mas num país como Angola, onde o rating na avaliação de doing business é muito mau [177.º em 190 países, de acordo com a versão mais recente do ranking], é complicado perceber como Sindika Dokolo chega a Angola e tem os benefícios que tem.”

Menos de dois anos depois da inauguração da Sodiba, e na sequência da divulgação dos Luanda Leaks, o império de Sindika e de Isabel dos Santos começou a ruir em Angola. Em fevereiro, o presidente do conselho de administração da empresa, Luís Correia, admitiu que a Sodiba podia entrar na falência “a curto prazo”. Também a Nova Cimangola enfrentava dificuldades: no mesmo mês, teve de se apressar a desmentir os rumores de que o Estado angolano estaria prestes a confiscar a cimenteira.

Mas nenhum caso ilustra melhor a ascensão e queda de Sindika Dokolo e Isabel dos Santos no mundo dos negócios do que o da De Grisogono e a entrada do casal no mercado dos diamantes e da joalharia — um mundo de negócios obscuros que envolve muito dinheiro. “Costuma dizer-se que o diabo só pesca em águas turvas. E o setor dos diamantes em Angola era um setor de águas turvas”, resume Sérgio Calundungo. “Quer em relação ao que acontece nas zonas de exploração, quer em relação a como são explorados os benefícios e à comercialização. Toda a cadeia é uma cadeia com muito pouca transparência.”

”Embora o termo ‘oligarca’ tenha uma conotação negativa, sempre admirei a decisão difícil tomada pelos russos, após o colapso da URSS, de ceder os bens estratégicos falidos aos mais capazes, muitas vezes sem serem compensados, em vez de os venderem a empresas estrangeiras”
Sindika Dokolo

Desde os tempos da guerra civil (em que a UNITA controlava a maior parte do setor diamantífero no país e financiava assim parte do seu esforço de guerra) que os diamantes serviram para a criação de grandes lucros em Angola. Christian Dietrich, um dos maiores especialistas do mundo nesta indústria, calcula que entre 1992 e 1999 a UNITA terá conseguido quase quatro mil milhões de dólares a partir do mercado dos diamantes. Com a chegada da paz, o regime do MPLA encabeçado por José Eduardo dos Santos continuou a explorar o setor diamantífero, distribuindo territórios e dragas a muitos atores políticos próximos, como é o caso de vários generais.

Os rumores de ligações de Isabel dos Santos ao mercado dos diamantes não são de agora. Em tribunal, num processo judicial em Londres, Arkady Gaydamak — em tempos envolvido no famoso escândalo Angolagate com Pierre Falcone — declarou que Isabel dos Santos estaria envolvida nos diamantes através da empresa TAIS, cujo nome representaria parte dos nomes da sua mãe, Tatiana, e do seu próprio, Isabel. A TAIS, segundo a versão de Gaydamak, deteria parte da Ascorp, a empresa semi-pública com o monopólio da exportação de diamantes de Angola, criada no anos 2000.

Aquilo que os Luanda Leaks revelaram sem sombra para dúvidas é que, desde que se casaram em 2002, Sindika Dokolo e Isabel dos Santos foram duas das pessoas que tiveram acesso à exploração de diamantes em Angola através das empresas mineiras Muana Maua Mining, Somua Sociedade Mineira Maua e Socim o Cuango Congo Diamantes. Em 2012, o casal assumiu o controlo da joalharia suíça De Grisogono, detida pelo italiano de origem libanesa Fawaz Gruosi, que aceitou a injeção de capital.

Toda a operação foi possível graças à realização do investimento em conjunto com a Sodiam, a diamantífera estatal de Angola, o que levantou à altura suspeitas. Teria José Eduardo dos Santos permitido esse acordo para alavancar os negócios da filha e do genro? “Alguém que, estando próximo de quem tinha o poder — ele era tão somente o genro do Presidente da República, o esposo da filha querida Isabel dos Santos —, obviamente provoca fortes indícios de que boa parte da sua atuação tenha sido resultado de uma posição de favoritismo”, aponta Calundungo. “Agora dizer qual foi e como… Lanço o desafio: não deve haver muita gente que saiba.”

José Eduardo dos Santos e a ex-primeira-dama Ana Paula Santos. Na fila de trás, Isabel dos Santos e Sindika Dokolo

FACEBOOK ISABEL DOS SANTOS

O caso, inicialmente divulgado pelo jornalista e ativista Rafael Marques, levou Sindika Dokolo a reagir, numa entrevista ao Jornal de Negócios, acusando Marques de estar ao serviço de uma “agenda ideológica” e sublinhando que “num país democrático o Direito é ditado por um juiz”. Portanto, para Sindika, ali não havia história — apenas um negócio, legítimo, de um capitalista que usou todos os instrumentos que tinha ao seu dispor.

“Faz todo o sentido do ponto de vista estratégico querer estender a sua presença desde a fase de exploração até ao mercado internacional do luxo, procedendo-se desta forma a uma integração vertical de toda a cadeia de valor”, justificou assim ao Negócios a sua entrada no setor da joalharia. “Permita-me recordar que a Cartier pertence a um sul-africano. Não vejo, portanto, o que choca quando investidores angolanos seguem a mesma estratégia de sucesso”, acrescentou. Novamente recorria à estratégia de comparar a sua ação à dos empresários de democracias capitalistas, muito embora as dúvidas não dissessem respeito à aposta no setor, mas sim à ligação com a Sodiam.

Já em junho de 2020, em entrevista ao programa João2Pontos na rádio angolana MFM, Sindika voltou a explicitar mais o seu ponto de vista, esclarecendo que a atribuição de licenças de concessão do setor diamantífero a cidadãos angolanos surgiu como uma estratégia do governo de Dos Santos para contrabalançar o peso dos sul-africanos: “Havia sempre o risco de uma estratégia onde a [sul-africana] De Beers — ou outro operador do mercado, não estou a fazer um processo de intenção — poderia comprar uma grande parte da produção da Catoca [mina angolana, a quarta maior do mundo], fazer uma stockagem sem vender no mercado e depois de repente inundar o mercado com essa produção e levar o projeto [angolano] à falência.” A estratégia da presidência de Angola, ao atribuir licenças a privados como Isabel e Sindika, seria portanto uma forma de beneficiar os interesses angolanos, na ótica de Dokolo.

Uma vez mais, a inspiração pode ter vindo do pai de Sindika Dokolo. Em 1985, quando Mobutu liberalizou o setor dos diamantes no Zaire, Augustin Dokolo adquiriu o controlo de uma empresa de minerais que operava em Kivu, na RDC, mudando-lhe o nome para Compagnie D’Exploitation de MINES, ou CODEMINES. De acordo com o próprio site da família, a CODEMINES explorou ouro e diamantes, chegando a produzir 400 quilos de minerais por mês.

De acordo com o especialista Christian Dietrich, a liberalização desse mercado no Zaire contribuiu para a criação de uma “economia de casino” no Congo, baseada apenas “no sonho de fazer grandes quantidades de dinheiro num período muito curto de tempo”. “Os mineiros de diamantes artesanais, os creusers, viviam este sonho. Por exemplo, o tio de alguém conseguia lucrar cinco mil dólares e comprava um carro usado —  e isso faz o sonho de encontrar riqueza instantânea continuar. Na realidade, os que escavam fazem muito pouco dinheiro, mas continuam a trabalhar. Aqueles que lucram mais são os intermediários e os exportadores estrangeiros.”

Também no mercado dos diamantes de Angola acontece o mesmo. Em 2001, Dietrich explicava a uma comissão do Senado belga que é praticamente impossível ligar diamantes específicos às minas de onde foram retirados, o que distancia, por exemplo, a De Grisogono das minas que a fornecem — e, portanto, distancia também Sindika. “Isto não é como o petróleo. A Shell tem problemas na Nigéria e então boicota-se a Shell. Isso é fácil. Agora, imaginem que os diamantes vêm de uma mina em Angola e que ali há desrespeito pelos direitos humanos dos empregados ou um rio é poluído. Esses diamantes chegam à Antuérpia, por exemplo, são divididos em vários tipos de categoria e depois são vendidos a diferentes empresas e são essas empresas que os refinam. Não há uma ligação direta entre uma mina e uma loja.”

Não é possível saber ao certo quanto é que Sindika Dokolo lucrou com a De Grisogono e, mais do que com a venda de diamantes, com a exploração diamantífera. A joalharia suíça destacava-se pelas festas de luxo que dava em Cannes, pelas celebridades como Sharon Stone que usavam as suas jóias, e por golpes de marketing como o do “404”. O “maior diamante do mundo”, com 404 quilates (em bruto) terá sido encontrado numa mina em Angola no dia 4 de fevereiro de 2016, quando se assinalavam os 54 anos do início da luta armada pela independência no país — e pertencia, nada mais nada menos, do que à De Grisogono.

Em 2019, Fawaz Gruosi abandonou a empresa e deixou tudo o que lhe restava nas mãos de Sindika Dokolo, que já controlava a De Grisogono através de uma série de holdings e complexas engenharias financeiras. Estas envolviam uma empresa, a Nemesis, que funcionava numa offshore no Dubai. Só que, com a chegada de João Lourenço ao poder, tudo se complicou. Em 2017, a Sodiam emitiu um comunicado onde explicava que “a participação da Sodiam EP na Victoria Holding Limited [detida por Sindika Dokolo], e indiretamente no grupo ‘De Grisogono’, gerou, desde a sua constituição, em 2011, exclusivamente custos para a Sodiam, em virtude quer dos financiamentos bancários que contraiu, quer dos resultados negativos que têm sido sistematicamente apresentados pelo grupo, decorrentes de um modelo de gestão adotado a que a Sodiam EP é e sempre foi alheia”. Por essa razão, a empresa pública abandonou a parceria com a holding de Sindika.

Mais recentemente, em entrevista à SIC a propósito dos Luanda Leaks, o presidente da empresa, Bravo da Rosa, foi taxativo: “Desde 2011/2012, altura em que foi decidida a participação da Sodiam nesse negócio, o Estado não beneficiou de um único dólar”, afirmou à SIC. Antes de esta reportagem ser sequer emitida, contudo, Sindika antecipou-se. A 19 de dezembro, deu entrada no Tribunal Arbitral de Londres com um processo contra a Sodiam, acusando-a de “hacking e roubo de documentos”, bem como de “ter destruído o valor económico” da empresa ao anunciar publicamente a sua saída em 2017. “Se quiser vender o seu carro e num anúncio de jornal escreve que é um carro que não funciona, que dá sempre problema, que dia sim dia não tem de ir à oficina, obviamente que não vai conseguir vender. Ou seja, foi deliberadamente uma destruição de valor”, afirmou, para justificar o pedido de indemnização, numa entrevista à agência Lusa.

Quanto ao acordo original com a Sodiam, Sindika mantinha que não havia razão para a diamantífera pública ter rompido consigo: “Não é corrupção quando há um acordo comercial. Corrupção dá-se quando um membro do Governo recebe pagamentos para privilegiar uma ou outra parte e ninguém disse ou estabeleceu que nós recebemos fundos públicos que não foram devidamente e legalmente registados”, resumia. Apesar de o processo no Tribunal Arbitral de Londres ainda estar a decorrer, sem a participação da Sodiam e com o impacto dos Luanda Leaks, a De Grisgono não conseguiu vingar. Acabaria por declarar falência já em 2020.

Luanda Leaks. De Grisogono, empresa de jóias do marido de Isabel dos Santos, anunciou que entrou em falência

Eram os efeitos daquilo que Sindika Dokolo classificou como “uma perseguição política” à família Dos Santos, movida por João Lourenço. Algo que não era estranho aos olhos do congolês, que considerava que a sua própria família no Zaire fora alvo de uma outra perseguição. Segundo o site da família, o sucesso da CODEMINES detida por Augustin Dokolo “pode ter sido a razão que levou às medidas de expropriação ilegal tomadas pelo regime de Mobutu contra Dokolo”. “Os carrascos de Mobutu provavelmente convenceram-no de que Dokolo estava a tornar-se numa ameaça devido ao seu crescente poder financeiro e estratégico por todo o país”, pode ler-se. A declaração soa familiar.

Um novo Macron na política do Congo?

“Há quem diga” que “Dokolo [pai] foi tão bem sucedido nos negócios, que quis entrar na política”. Quem o diz ao Observador é Marius Muhunga, jornalista congolês. No site de família, contudo, desmente-se essa versão, dizendo que Augustin teve vários convites para entrar na política e rejeitou todos. E eis que se tropeça em mais um ponto da biografia de Dokolo pai que parece espelhar-se no percurso do filho.

Sindika Dokolo garantia que não tinha a mínima apetência para se tornar político. Mas, para além do seu discurso claramente politizado no que diz respeito à arte, desde pelo menos 2017 que o congolês estava envolvido na política da República Democrática do Congo, a partir da sociedade civil. Uma atitude que não era de somenos se tivermos em conta os laços apertados entre o Congo e Angola, países fronteiriços onde a dimensão gigantesca da RDC não corresponde à posição mais subalterna que tem tido face a Luanda.

Tudo começou no Twitter. Até então sempre discreto no que dizia respeito a assuntos sobre o seu país, eis que o empresário começou a criticar abertamente o Presidente Joseph Kabila — o mesmo que tinha estado como convidado no seu casamento com Isabel dos Santos. Em causa estava a recusa deste em sair do poder, quando o seu mandato já tinha terminado. Em junho de 2017, Sindika ousou fazer as críticas diretamente, numa entrevista à Reuters, onde afirmou que a capacidade do Congo para desestabilizar a região é “subestimada” e onde sentenciava que se está “a brincar com fósforos perto de um barril de explosivos”.

Erik Kennes, professor especialista na RDC que pertenceu à missão da ONU no país, relembra que Sindika nunca tomaria esta atitude se não tivesse a certeza que havia interesse do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, em pressionar Kabila para sair. “Não nos podemos esquecer de que o próprio Dos Santos mudou de posição. Ele sempre foi um grande apoiante de Laurent Kabila [pai de Joseph Kabila e anterior Presidente] e depois mudou de ideias”, destaca. “É muito difícil ter a certeza sobre o que aconteceu a esse nível, mas, por aquilo que sei, José Eduardo dos Santos era muito claro a dizer que Kabila filho tinha de sair. Não por questões [de defesa] da democracia, mas para manter a estabilidade na fronteira. Portanto, a relação entre os dois piorou. E Sindika claramente teve a bênção do sogro para se envolver nisto.”

“É muito difícil ter a certeza sobre o que aconteceu a esse nível, mas, por aquilo que sei, José Eduardo dos Santos era muito claro a dizer que Kabila filho tinha de sair. Não por questões [de defesa] da democracia, mas para manter a estabilidade na fronteira. Portanto, a relação entre os dois piorou. E Sindika claramente teve a bênção do sogro para se envolver nisto”
Erik Kennes, ex-observador da Missão da ONU na RDC

Um mês depois da entrevista de Sindika à Reuters, Kabila filho contra-atacava: um tribunal de Kinshasa condenou Sindika e o seu irmão mais novo, Luzolo, a um ano de prisão por fraude num negócio imobiliário. Dokolo denunciou o julgamento como sendo politicamente motivado — algo com que os especialistas no Congo ouvidos pelo Observador concordam — e não regressou ao país, a fim de evitar a prisão. Quatro meses depois, foi alvo de nova intimidação: os escritórios do consulado honorário da Noruega em Kinshasa, onde a mãe de Sindika trabalha, foram atacados por homens armados.

Pelo meio, Sindika Dokolo já tinha desafiado ainda mais Kabila. O primeiro gesto foi um vídeo divulgado online, onde Sindika, de fato preto e camisa branca, perguntava: “Eu sou um congolês de pé. E tu?”. Estava lançado o “Les Congolais Debout” (Os Congoleses de Pé), movimento cidadão promovido pelo empresário.

“No Congo, as pessoas começaram a perguntar: ‘Quem é este tipo?’”, conta Marius Muhunga. “À altura era un mystère, um mistério. A única coisa que existia era o nome Dokolo e o que ele representa. Mas, quando começou a falar sobre as suas ambições, ele nunca dizia que queria concorrer a eleições ou que era o tipo que podia mudar as coisas. A única coisa que dizia era ‘vamos ter um movimento para obrigar Kabila a sair’.”

Seguiram-se uma série de entrevistas a vários meios de comunicação congoleses onde a mensagem repetida por Sindika era uma e outra vez a mesma: Kabila tem de sair. Questionado com a possibilidade de ocupar um cargo político, recusava sempre a ideia. “Esta não é uma estratégia de estilo Macron”, chegou a assegurar, dado os rumores de que pretendia seguir a estratégia de se apresentar como um político jovem, nem claramente à esquerda nem à direita, e ancorado num movimento popular.

Os especialistas na RDC, contudo, discordam. “Sindika era visto precisamente como um Macron africano para alguns. Para outros era visto mais como um Frederick Chiluba [ex-Presidente da Zâmbia]. Um indivíduo um pouco tecnocrata e ao mesmo tempo liberal.” Bem-vestido, educado, calmo, com estudos, prometia uma visão de modernidade para África. E, apesar de não se assumir candidato, não parecia ter medo do palco ou de multidões. Em junho de 2018, Sindika discursou numa manifestação de congoleses em Bruxelas. Em tom messiânico, dirigiu-se à multidão em lingala, dialeto do país, e enumerou vários heróis congoleses. A certa altura, já em francês, arriscou abandonar o púlpito, levantar o punho e gritar “Le peuple gagne toujours!” (“O povo ganha sempre”) — uma frase popularizada pelo ativista congolês Rossy Mukendi, morto numa manifestação na RDC meses antes.

Dois meses depois, Kabila anunciou que haveria eleições em dezembro de 2018 e que não se recandidataria. “O movimento [de Sindika] parece-me ter sido bastante eficaz”, aponta Kennes. “Teve um grande efeito nas redes sociais. É claro que teve menos nas classes mais baixas, Sindika não é propriamente conhecido nos bairros de lata.” Após essa notícia, aponta o belga, Dokolo aproveitou o período até às eleições para fazer alianças: através de um amigo de infância, Olivier Kamitatu, aproximou-se ainda mais de Moïse Katumbi, um dos três empresários africanos que Sindika já tinha desafiado a juntarem-se ao seu esforço de repatriamento da arte africana. “Olivier Kamitatu permitiu um acordo: se Katumbi se tornasse Presidente, teria o apoio de Dokolo. Juntos, tornar-se-iam muito poderosos na economia e na política do país.”

Katumbi, contudo, percebeu a certo ponto que não tinha condições para vencer. Kennes fala na possibilidade de não ter tido o apoio dos sul-africanos — necessários para qualquer situação estável no país — pelo facto de ser mestiço. O detalhe pode parecer irrelevante, mas não o é na política da África Central. Ainda com Kabila no poder, a aliança entre Dokolo e Katumbi chegou a ser definida por um conselheiro do governo como uma “República dos Métis”. O termo francês significa algo como “híbrido” e foi usado ao longo do tempo pelos colonos franceses com uma conotação racista para definir os mestiços.

Quem acabaria por chegar ao poder na RDC no final de 2018 seria Félix Tshisekedi — e a situação política só acalmaria definitivamente em junho de 2019, quando Tshisekedi nomeou um kabilista para primeiro-ministro. Para Sindika, contudo, os ventos foram de mudança na mesma. Com Tshisekedi à frente do país, foi-lhe permitido regressar do exílio. A mulher, Isabel dos Santos, rejubilou no Twitter.

Sindika Dokolo aproximou-se então do novo Presidente congolês. O jornalista Marius Muhunga — que vive atualmente em Washington D.C., a partir de onde mantém um popular programa sobre a RDC que é transmitido no YouTube — assegura que os dois se encontraram nos Estados Unidos das duas vezes em que Tshisekedi foi ao país. Para além disso, Sindika esteve várias vezes na RDC. O seu objetivo já antes tinha sido dado a entender: “O novo poder anunciou a sua intenção de lançar um New Deal com o setor privado congolês, demasiado fraco, ou mesmo completamente ausente. As únicas pessoas com dinheiro no Congo pertencem à diáspora, como eu, ou à classe política”.

O empresário e o “jacaré” a acordar

Era tudo o que Sindika precisava de ouvir. Ele era congolês, era um homem de negócios, tinha dinheiro e viu que o novo poder em Kinshasa queria lançar “um New Deal com o setor privado” — o que o deixou automaticamente interessado.

Sindika Dokolo recebido por uma multidão no regresso à RDC, após a chegada de Tshisikedi ao poder (FACEBOOK ISABEL DOS SANTOS)

Com mais de 80 milhões de habitantes, uma área quatro vezes maior do que França e uma riqueza enorme em recursos, assim que a RDC tivesse uma situação política estável poderiam abrir-se muitas oportunidades de negócio. “No dia em que o Jacaré acordar, o continente africano ficará sob o domínio da RDC”, avisa o professor Eugénio de Almeida. “É uma grande mina de múltiplos produtos, de areias pesadas e, acima de tudo, de produtos que só existem quase em exclusivo ou em condições de serem explorados ali.” Um empresário que pudesse usufruir disso certamente não desperdiçaria a oportunidade.

Não era, por isso, de admirar que Sindika Dokolo já tivesse demonstrado interesse a Tshisekedi relativamente a um projeto em concreto: a construção do Grande Inga, uma rede hidráulica que inclui uma barragem com o dobro da capacidade da Three Gorges, na China, atualmente a maior do mundo. O projeto esteve parado algum tempo, devido à instabilidade política, mas voltara a arrancar e deverá ser levado a cabo por um consórcio sino-espanhol. Sindika ofereceu-se a Tshisekedi para construir um porto de águas profundas relacionado com esse projeto. “Ele disse-me: ‘Só uma pessoa é impossível’. Eu respondi-lhe que o concurso é público, com uma primeira fase de 350 ou 400 milhões. A minha fábrica de cimento [Cimangola] custou 450 milhões de dólares há dois anos. Portanto, é possível, é fazível. Gostava muito de fazer isto pela minha província do Congo central.” Os interessados em torno do projeto do Grande Inga são muitos, incluindo a próprio África do Sul.

Através do Les Congolais Debout, Sindika aproximou-se do poder político. Mas, ao longo de todo o processo, nunca largou o modo de pensar de um empresário. “Não estou a lançar uma OPA hostil à sociedade civil. Não é esse o meu estilo”, chegou a dizer numa entrevista, numa espécie de lapso linguístico de quem usa o know how dos negócios para sobreviver na política.

Uma postura que não era recente. Em 2015, ao receber a medalha de mérito da Câmara do Porto, também assegurou não estar a fazer uma “OPA amigável à cultura portuguesa”. Na mesma altura, Sindika dizia que “as batalhas devem ser vencidas com argumentos eficazes e, neste mundo capitalista, só existe um: o dinheiro”.

Sindika Dokolo a receber a medalha de mérito da Câmara do Porto

Artur Machado

De olho nos negócios no Congo, o facto de Sindika ser casado com Isabel dos Santos foi, durante muito tempo, uma mais valia. Há três anos, o empresário garantia que a criação de um grande grupo empresarial que ligasse a RDC e Angola não era um objetivo a curto prazo, mas sonhava com a possibilidade: “Imaginem se fosse um único país! Um eixo Luanda-Kinshasa poderia criar um contra-peso à supremacia sul-africana. Por isso, há muitos projetos a que estou atento e que gostava de levar a cabo, como o projeto ferroviário de Benguela ou a barragem Inga.” Uma ideia que, de acordo com o próprio Dokolo, não era nova. Já em 2005, na tal conversa com Américo Amorim na praia a propósito do negócio da Galp, Sindika dizia ter referido ao empresário português essa sua visão para unir o Congo e Angola através dos negócios.

O desejo de que haja boas relações entre os dois países sempre se manteve. Em junho do ano passado, Sindika publicou no Facebook uma imagem de Tshisekedi com Paul Kagame, Presidente do Ruanda, e João Lourenço. Na legenda, congratulava-se: “A diplomacia, calcanhar de Aquiles de JK [Joseph Kabila], parece ser um ponto forte do novo Presidente”.

Mas qualquer tentativa de manter influência em Luanda esfumou-se por completo nos últimos tempos. Não só a publicação dos Luanda Leaks afetaram profundamente os negócios de Sindika e Isabel dos Santos — com a De Grisogono como maior exemplo —, como as relações com João Lourenço se deterioraram a tal ponto que a justiça angolana ordenou o arresto de todos os bens do casal no país e fez de Isabel dos Santos arguida. A situação ameaçava até afetar a posição de Sindika no seu próprio país. A 5 de janeiro, Lourenço e Tshisekedi reuniram-se em Benguela para discutir o caminho de ferro na região. No comunicado emitido após a reunião, sugeria-se a Dokolo e a Dos Santos “máxima cooperação com as autoridades competentes”.

Sindika Dokolo com João Lourenço, atual Presidente angolano (FACEBOOK SINDIKA DOKOLO)

Eugénio de Almeida não tem dúvidas de que esse encontro foi motivado pelo facto de Sindika Dokolo ser cidadão congolês e de que Lourenço terá tentado trazer Tshisekedi para o seu lado nesta questão: “De repente, um Presidente de um país ir visitar o seu colega que está de férias, para tratar de assuntos que teoricamente não têm a ver com o arresto, mas onde no comunicado se fala da questão…” Qualquer aproximação entre Sindika e o Presidente da RDC parecia estar agora contaminada. Erik Kennes concorda: “Tshisekedi não tem qualquer interesse em ser próximo de Sindika neste momento e irá manter a sua distância, até porque goza de uma boa relação com o regime angolano neste momento.”

Eugénio de Almeida não tem dúvidas de que o encontro entre os presidentes de Angola e do Congo foi motivado pelo facto de Sindika Dokolo ser cidadão congolês: “De repente, um Presidente de um país ir visitar o seu colega que está de férias, para tratar de assuntos que teoricamente não têm a ver com o arresto, mas onde no comunicado se fala da questão…” 

Ninguém sabia o que Sindika Dokolo e Isabel dos Santos pretendiam fazer. Depois de anos como casal cosmopolita, bem-sucedido e representante de uma nova elite africana, viam-se agora cercados pelas autoridades angolanas, desamparados pelo poder em Kinshasa e investigados em Portugal. Continuam a residir em Londres, onde passavam a maior parte do seu tempo. Mas, com a falência da De Grisogono, os problemas na Sodiba e a saída de Isabel dos Santos do EuroBic e da Efacec, o cerco ao casal apertava-se cada vez mais. Em maio, a empresária acusou Luanda de usar um passaporte seu falsificado, com a assinatura Bruce Lee. Foi a primeira declaração pública sobre o processo, depois da barragem de entrevistas como a que deu à RTP, onde deixou no ar a possibilidade de se candidatar à presidência em Angola.

Talvez Sindika planeasse sugerir o mesmo na RDC. Ou — talvez mais provável — viesse a colocar todas as fichas no amigo Katumbi, que deverá ser candidato presidencial às próximas eleições. “Creio que, quando o atual regime angolano se virou contra ele, Sindika deve ter contemplado a possibilidade de ter uma posição política no Congo, porque o protegeria de qualquer acusação judicial em Angola e lhe permitiria recuperar alguns dos seus negócios”, sugere Erik Kennes. O jornalista Marius Muhunga relembra que, na RDC, a maioria das pessoas não está chocada com as acusações de corrupção e nepotismo que pairam sobre o casal Dokolo-Dos Santos: “Quando falei sobre isto no meu programa as pessoas reagiram dizendo ‘Sabem que mais? Isto faz parte da política angolana, estão a tentar prejudicar o Sindika e a mulher dele’”.

Moise Katumbi e Sindika Dokolo (INSTAGRAM SINDIKA DOKOLO)

“Sindika era, acima de tudo, um homem de negócios”, resume Muhunga. “Mas o movimento que ele criou, o Les Congolais Debout, era um backup. Uma reserva, só para o caso de vir a ser preciso. Sempre que ele necessitasse de fazer alguma coisa ou dizer alguma coisa, teria um movimento na sociedade civil que poderia utilizar.”

O percurso que Sindika Dokolo tinha projetado para si teve um desvio. Segundo ele, o seu projeto de vida era o de levar a cabo uma série de tarefas como a recuperação da voz dos africanos, a promoção da arte do continente, o desenvolvimento económico de Angola e do Congo e a continuação do legado do seu pai. Mas talvez essa fosse apenas a construção da imagem de uma figura messiânica que prometia fazer isto tudo, ao mesmo tempo que promovia os seus interesses.

No rescaldo dos escândalos, Sindika manteve uma presença mediática mais discreta do que o habitual, retomando a atividade nas redes sociais apenas em meados de março, para discutir a situação relativa ao novo coronavírus em África. Em junho deste ano, com o recrudescimento das investigações a Isabel dos Santos em Portugal, voltou a falar, acusando Portugal de ir atrás da empresária e ignorar outros com “testas-de-ferro portugueses”, desde que “isso não seja um ‘irritante'” — numa clara alusão ao antigo vice-presidente Manuel Vicente, cujo processo na Operação Fizz foi enviado para Angola e está parado. Ao mesmo tempo, dava sinais de que ele e a mulher estariam dispostos a negociar com Luanda, desejosos de colocar o assunto para trás das costas.

A 1 de janeiro de 2020, dois dias depois de ver os seus bens e os da mulher arrestados em Angola e quando já sabia que estava para breve a publicação dos Luanda Leaks — que prometiam manchar todos os seus negócios, bem como a imagem trabalhada de colecionador — , Sindika Dokolo decidiu logo falar. No Twitter, deixou uma mensagem enigmática que incluía uma citação do pai:

“‘Meu filho, a adversidade surgirá no teu caminho. A vida é assim. Dar-te-á a oportunidade de demonstrar o teu verdadeiro valor.’ Augustin Dokolo, março de 2000. Feliz Ano Novo a todos, numa década que promete ser entusiasmante.”

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