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As semelhanças foram-se desenhando ao longo de todo o conflito na Ucrânia – sempre em paralelo – e ganharam, esta sexta-feira, contornos de realidade. Uma guerra interna pela liderança militar, entre o poder instalado das forças armadas e uma poderosa e influente organização paramilitar, ameaça transformar-se num banho de sangue — e, de caminho, mudar o curso da história.

Podíamos estar a falar do evento histórico que consolidou o poder de Hitler na Alemanha nazi – a conhecida “Noite das Facas Longas”. Em vez disso, referimo-nos aos eventos das últimas 24 horas, durante as quais o líder do grupo Wagner declarou uma “insurreição” contra as chefias do exército russo, numa tentativa de golpe declarado contra o ministro da Defesa, Serguei Shoigu, e o Chefe de Estado-Maior, Valery Gerasimov — e, ainda que Yevgeny Prigozhin não o admita, do regime russo encabeçado por Vladimir Putin.

A rivalidade era conhecida e durava há meses, com trocas de acusações de parte a parte. Prigozhin, fazendo uso do poderio militar do seu exército privado, o qual foi responsável pelas maiores vitórias russas na guerra na Ucrânia, foi vociferando contra Shoigu e o establishment militar do Kremlin, que acusou repetidamente de incompetência e sabotagem. Agora o empresário que, em tempos, era conhecido apenas como o “cozinheiro de Putin”, lançou o que aparenta ser a sua jogada final, numa derradeira (e, talvez, desesperada) tentativa de concretizar as suas ambições de poder, com consequências absolutamente imponderáveis. Como é que aconteceu aquela que poderá vir a ficar conhecida como a “Noite das Facas Vermelhas”?

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“Quer poder e influência.” Com a hipótese de Putin ficar fora de cena, poderá o líder do grupo Wagner tornar-se o seu sucessor?

(As horas apresentadas refletem o fuso horário de Lisboa, menos duas horas do que na Rússia)

08h50: Prigozhin acusa exército de mentir sobre a invasão

Os eventos que conduziram a este desfecho começaram ao início da manhã desta sexta-feira. Através do seu serviço de comunicação no Telegram, Yevgeny Prigozhin partilha uma “entrevista” — na verdade, um vídeo de mais de 30 minutos, no qual o líder da organização mercenária tece duras críticas ao comando militar.

As declarações acabaram por sinalizar um claro subir de tom nas acusações de Prigozhin ao regime, com o líder mercenário a acusar o Ministério da Defesa de “mentir” à população (e ao Presidente). A guerra, diz, não começou devido a uma ameaça de invasão da Ucrânia e da NATO, mas sim “para que um grupo de canalhas triunfassem e mostrassem a força do seu exército, para que Shoigu subisse a Marechal”.

Prigozhin aponta ainda a mira aos oligarcas — “o clã que hoje praticamente governa a Rússia”. No seu entender, a elite financeira russa tinha um interesse no conflito, para expulsar o governo de Volodymyr Zelensky e instalar o pró-russo Viktor Medvedchuk no poder.

O líder da Wagner acrescenta ainda que a situação na frente de combate é uma de total desnorte russo. Com efeito, quando a organização paramilitar chegou à Ucrânia, “já era impossível falar sobre vitória”, e que a falta de meios no terreno era por demais evidente. “Não havia gestão, havia histerismo, uma confusão no armamento, uma confusão em todo o lado… era o caos total”.

[Já saiu: pode ouvir aqui o penúltimo episódio da série em podcast “Piratinha do Ar”. É a história do adolescente de 16 anos que em 1980 desviou um avião da TAP. E aqui tem o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto episódios. ]

12h19: Líder mercenário diz que Rússia tem de “parar de mentir”

Poucas horas depois deste vídeo, o líder dos mercenários é questionado pelo serviço de imprensa acerca do que era necessário para que a Rússia vencesse a guerra. A resposta é perentória e direta:

Para a vitória da Rússia é preciso parar de mentir, de roubar, de parar de pensar apenas em si mesmos e no seu bem-estar e nos seus lugares, mas pensar nos soldados e nas suas vidas”.

15h10: Prigozhin ataca diretamente Shoigu e Gerasimov

Se dúvidas houvesse, Prigozhin recorre novamente ao Telegram para atacar diretamente o ministro da Defesa e o Chefe de Estado-Maior russos. Para o empresário, Serguei Shoigu e Valery Gerasimov são responsáveis “pelo genocídio do povo russo, o assassinato e dezenas de milhares de cidadãos russos e a transferência de território russo para o inimigo”. E devem ser responsabilizados de acordo com os seus crimes.

19h09: grupo Wagner (alegadamente) bombardeado pelo Kremlin

Ao final da tarde, a tensão escala definitivamente: Yevgeny Prigozhin acusa o Ministério da Defesa russo de ordenar um bombardeamento contra os próprios Wagner.

“Realizaram ataques, ataques com mísseis, na retaguarda dos nossos acampamentos. Um número muito grande dos nossos combatentes foi morto”, sublinhou, garantindo que a retaliação estaria para breve.

Num dos vários canais do grupo Wagner no Telegram, o líder da organização partilha ainda um vídeo do alegado ataque (aqui numa versão partilhada no Twitter pelo conselheiro presidencial ucraniano Anton Gerashchenko).

19h25: Prigozhin anuncia insurreição mercenária contra poder militar

O Conselho dos Comandantes Wagner declara oficialmente uma insurreição contra o poder militar do Ministério da Defesa. Prometendo “restaurar a justiça”, primeiro no exército e depois no país, Yevgeny Prigozhin deixa bem claros os seus alvos: Shoigu, Gerasimov e o Ministério da Defesa.

De fora da mira dos Wagner ficam Vladimir Putin e o restante governo russo, bem como as demais instituições, naquilo que o líder mercenário classifica não como um “golpe militar” mas sim como uma “marcha pela justiça”. Prigozhin deixa ainda um aviso: aqueles que se opuserem serão “destruídos”.

A mensagem do líder do grupo Wagner a declarar insurreição contra o Ministério da Defesa russo

Prontamente, o poder russo vem negar a responsabilidade por qualquer ataque, e descreve a acusação como uma “provocação” do líder mercenário. Ao longo da hora que se segue, Prigozhin partilha várias atualizações através do seu serviço de comunicação, onde, entre outras coisas, diz ter ao seu comando um exército de 25 mil homens, bem como o apoio de vários no exército e na Guarda Nacional, e acusa Shoigu e o Ministério de tentarem “destruir” a organização paramilitar.

20h44: Prigozhin fica em silêncio, Putin é informado

As atualizações abrandam e Prigozhin só voltará a fazer ouvir-se ao final da noite. Quanto ao regime russo, a resposta oficial demora. Pouco antes das 21h00, as agências estatais russas citam o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que diz que Vladimir Putin fora informado acerca dos “eventos em torno de Prigozhin”.

20h50: Serviços de informação russos acusam Prigozhin de “rebelião armada”

Minutos depois, a confirmação definitiva da cisão. O Serviço de Federal de Segurança (FSB) russo anuncia a abertura de um processo contra Prigozhin por “rebelião armada”. Os serviços de informação descrevem as ações do líder mercenário como um incentivo ao início de uma guerra civil e apelam à sua captura.

Pedimos aos combatentes mercenários que não cometam erros irresponsáveis, que parem todas as ações contra o povo russo, que não levem por diante as ordem criminosas e traidoras de Prigozhin, e que tomem medidas no sentido de o deter”, desafia o FSB em comunicado citado pela agência estatal russa RIA Novosti.

Em resposta, a procuradoria-geral russa saúda a decisão, sublinha que o crime de rebelião armada acarreta uma pena entre os 12 e os 20 anos e garante que as ações desencadeadas por Prigozhin terão “uma resposta legal” adequada.

21h40: Tanques nas ruas de Rostov, alerta máximo em Moscovo

Com a caravana militar mercenária em parte incerta, a BBC russa dá conta de que o departamento do FSB em Moscovo está em alerta máximo na capital russa. Os escritórios do grupo Wagner são revistados, as estradas estão cortadas e as tropas têm autoridade para abrir fogo “em caso de ameaça”.

Nas redes sociais vão sendo partilhada imagens, originárias da página dos serviços de emergência de Rostov, que mostram uma forte presença militar e veículos do exército nas ruas da cidade russa, para onde, ao que tudo indica, os mercenários se estão a dirigir:

22h50: Altas patentes do exército apelam a que mercenários respeitem ordem militar

Por esta altura, sabe-se que os responsáveis do Ministério da Defesa e do comando militar russo se encontram numa sucessão de reuniões de emergência. A tutela ainda não toma uma posição oficial; em vez disso, são as altas patentes do exército que se pronunciam.

O general Sergei Surovikin, antigo comandante das tropas russas na Ucrânia, toma o lado do regime e apela à rendição do grupo Wagner e à união dos diferentes ramos militares. “Fizemos um caminho difícil. Juntos com vocês, nós lutámos, arriscámos, tivemos perdas, mas superámos”, lembra Surovikin.

Já o tenente-general do exército Vladimir Alekseev é menos agregador, classificando a insurreição como “uma facada nas costas” e um golpe à imagem das forças armadas russas. “Só o Presidente é que tem o direito de nomear o chefe supremo das forças armadas, e vocês estão a tentar usurpar-lhe esse poder. Isto é um golpe de Estado”, declara.

22h55: Prigozhin insta Guarda Nacional a juntar-se a ele (ou sofrer as consequências)

Minutos depois, Yevgeny Prigozhin volta a falar. Ignorando os apelos russos, o líder das forças mercenárias insta a Guarda Nacional a juntar-se à insurreição — ou sofrer as consequências.

Na sua conta do Telegram, Yevgeny Prigohzhin assinala que tem uma “oferta que é melhor não ser recusada”. “Obedecer a ordens criminais e tentar interferir com a campanha planeada da Justiça vai correr mal”, frisa.

23h55: Ministério da Defesa diz que Ucrânia está a aproveitar situação

Já são quase o2h00 em Moscovo quando a Defesa russa se pronuncia oficialmente pela primeira vez. A declaração deixa, no mínimo, várias dúvidas. Em comunicado, o Ministério acusa a Ucrânia de se “aproveitar da provocação de Prigozhin para desorganizar a situação” em Bakhmut.

Acusando o regime de Kiev de empreender operações ofensivas, o Ministério da Defesa ressalva, contudo, que o “inimigo foi derrotado com ataques aéreos e de artilharia”. Não é claro o papel do grupo Wagner nas alegadas operações ucranianas na cidade que durante meses assistiu a uma sangrenta batalha entre forças russas e ucranianas — e que o grupo Wagner conquistou em nome de Moscovo.

00h03: Grupo Wagner ultrapassa a fronteira e chega a Rostov

A “Noite das Facas Vermelhas” começa. Yevgeny Prigozhin anuncia que a coluna de mercenários ultrapassou a fronteira e já se encontra em Rostov-on-Don, frente a frente com as forças do exército russo.

Passámos a fronteira estatal em toda a linha. Estamos a entrar em Rostov. Recrutas foram atirados contra nós mas estão a retirar-se”, afirma numa mensagem no Telegram, reiterando que é sua intenção “ir até ao fim”.

Mesmo após tantas horas de desenvolvimentos, é ainda difícil acreditar que a situação tenha chegado até aqui. As próximas horas e dias trarão novidades (com efeito, ao longo da madrugada surgem relatos de que os Wagner tomaram controlo de Rostov, com Prigozhin a anunciar que pelo menos um helicóptero russo foi abatido na cidade). A situação é incerta e imprevisível, mas parece que a guerra na Ucrânia entrou numa nova fase — dentro e fora da Rússia.

https://observador.pt/liveblogs/em-madrugada-de-ataques-ucrania-diz-ter-abatido-misseis-russos-lancados-em-direcao-a-aerodromo-militar/