Caça ao Voto 3 - O dia em que a bomba explodiu mesmo em campanha /premium

Foi uma espécie de bomba ao retardador. Depois de confirmadas as notícias da acusação no caso Tancos, a temperatura política subiu e Rio e Costa intensificaram os ataques. Os outros foram atrás.

Se a campanha andava morna, a tarde frenética desta quinta-feira veio trazer toda a emoção que os viciados em política esperam de um período eleitoral. Houve notícias de última hora, desconfortos evidentes, aproveitamentos políticos, dramatizações, efeitos surpresa, reuniões de emergência, reações a quente e várias dúvidas que ficaram no ar e que prometem tornar os próximos dias igualmente interessantes.

Rui Rio, que no início da semana até tinha começado a campanha com um teatrinho no Porto sobre o Serviço Nacional de Saúde, montou desta vez um espetáculo profissional pensado para ter o máximo impacto possível. Quando já se conheciam os pormenores da acusação do caso Tancos, e os crimes de que é acusado o ex-ministro da Defesa, fez saber que tinha cancelado alguns pontos na agenda dada a “gravidade” do que estava em causa, reservou uma sala num hotel nas Caldas da Rainha para uma conferência de imprensa transmitida em direto e começou a disparar projéteis em direção ao primeiro-ministro. Se sabia é porque foi “conivente”, se não sabia é porque falha como líder. Ambas as possibilidades, “são muito más”.

A esta hora, António Costa não ouvia uma palavra do que Rui Rio lhe dizia, porque estava em terreno confortável, num evento de campanha com startups em Lisboa. De manhã tinha despachado rapidamente o assunto Tancos, com o sempre eficaz “à justiça o que é da justiça” e com uma defesa publica do Presidente da República – algo que não tinha feito no dia anterior. Costa contava não ter de regressar ao assunto, mesmo que um seu ex-ministro estivesse formalmente acusado de quatro crimes, e que um deputado da bancada do PS (e agora novamente candidato) tivesse sido apanhado no lote de provas contra Azeredo Lopes.

Contudo, o nervosismo do staff de campanha na sessão de startups, contrastava com a boa disposição do (re)candidato que nem tinha previsto qualquer declaração à imprensa. A equipa de Costa sabia que, depois da dramatização do líder do PSD, a bomba tinha explodido mesmo na campanha e era inevitável uma resposta. Mas não necessariamente uma resposta direta às perguntas e às insinuações de Rio. Costa chegou-se aos microfones dos jornalistas e, sem sequer ouvir qualquer pergunta, disse o que quis e disparou contra o adversário acusando-o de ferir “a dignidade” da campanha eleitoral.

A acusação de Tancos dá votos?

O cheiro a pólvora já se sentia no ar, pelo menos, desde terça-feira quando Rui Rio insinuou, numa das suas talks, que vinha aí “uma outra encenação, noutro setor” preparada pelo governo. Ninguém no PSD quis especificar, na altura, a que se referia o presidente do partido, mas começou a circular o rumor de que estaria relacionado com Tancos.

E, tal como uma coreografia bem ensaiada, logo no dia seguinte o Presidente da República entrava de rompante nas caravanas de todos os partidos, obrigando-os a reagir e a separar as águas, a afastarem qualquer suspeita sobre Marcelo Rebelo de Sousa e a tentarem apontar os holofotes de novo para a sua agenda eleitoral.

Foi um esforço que não deu grandes frutos. Logo nessa noite, a imprensa avança que o ex-ministro Azeredo Lopes ia mesmo ser acusado e o Observador revelava que parte das provas implicavam até uma troca de mensagens com o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro.

Na manhã desta quinta-feira, à espera que saísse a acusação, quase todas as reações foram ainda cautelosas – até a de Rio, que admite que o assunto é “gravíssimo”, mas reserva comentários para mais tarde. A única a furar este embargo não escrito foi Assunção Cristas que viu ali uma janela no calendário para brilhar, antes que os tubarões chegassem para ocupar o aquário.

Sabendo que este era um trunfo para o CDS, que forçou a constituição da Comissão de Inquérito ao caso, e que (juntamente com o PSD) apresentou propostas para que no relatório final houvesse uma responsabilização do primeiro-ministro e do ex-ministro da Defesa (todas chumbadas à esquerda), a líder do partido entrou à bruta:

Um governo que encobre crimes, que iliba criminosos, que impede a justiça de funcionar porque aparentemente conhece e dá cobertura a um acordo que impede que os responsáveis políticos sejam efetivamente apanhados e punidos”.

Nem diplomacias, nem falinhas mansas. Cristas, que não deverá deixar cair o assunto na campanha, estendeu as acusações a BE e PCP, por serem “coniventes” com o encobrimento feito na comissão parlamentar de inquérito sobre Tancos. E deixou a dúvida: “Ou o primeiro-ministro não sabia e é de uma extraordinária incompetência ou sabia e também foi conivente com tudo isto”.

Eram basicamente estes os argumentos que Rio usaria mais tarde contra Costa aos quais acrescentaria ainda um outro: sugerir que foi o governo quem implicou o Presidente da República na história para “desviar” atenções do essencial, “uma encenação para que saíssem notícias a tentar pôr uma cortina de fumo”. Para capitalizar ainda mais o efeito dramático, o presidente do partido anunciou também que o PSD vai convocar uma reunião extraordinária da comissão permanente da Assembleia da República.

Ataques e contra-ataques. Um problema para Costa e um problema para Rio

Logo no arranque da sua intervenção, Rui Rio fez questão de esclarecer que “podemos tirar algumas conclusões da acusação, mas não muitas porque é uma acusação, não uma sentença transitada em julgado”. Com isto, o presidente do PSD tentava balizar os ataques que se preparava para fazer dentro do seu princípio “ético”: toda a gente é inocente até ser condenada. Logo ele, que tem entre os seus candidatos a deputados, quem esteja na condição de arguido e quem esteja mesmo acusado.

Rio tentou centrar as críticas na apreciação estritamente política, deixando de lado aquilo que será apurado pela justiça. Quis ainda que ficasse claro que o seu dedo estava apontado ao primeiro-ministro e não a Azeredo Lopes, que já nem ocupa funções políticas. Mas sabia que teria aqui sempre um problema de coerência que António Costa iria explorar na resposta que lhe deu.

Sem surpresas, na curta declaração que fez à imprensa, o secretário-geral socialista lembrou as palavras que ouviu “há dois dias” do adversário, num dos debates pré-campanha, sobre “o princípio fundamental de não fazer julgamentos na praça pública.

“Eu não mudo de princípios fundamentais de dois em dois dias. Quem sacrifica aquilo que são princípios fundamentais da forma de estar na vida política envergonha-se a si próprio mais do que ataca quem quer atingir”.

Rui Rio ouviu estas palavras e aproveitou o evento da noite, em Leiria, para responder. “Não me antecipei a nenhum tribunal, não quebrei a presunção de inocência de ninguém. Do ponto de vista político, temos o direito e até o dever de perguntar ao primeiro-ministro se sabia ou não sabia”. Depois, registou aquilo que considerou ser uma não resposta do adversário:“comentou o que eu não disse, porque não tem resposta para o que eu disse”.

Se Rio tinha aqui uma fragilidade, António Costa tem várias. As dúvidas sobre o que realmente sabia o primeiro-ministro não estão dissipadas, ficaram antes mais à mostra, com a divulgação da acusação. Por outro lado, o mantra “à justiça o que é da justiça” foi destruído pelo próprio Azeredo Lopes quando, ainda antes do bate-boca Rio/Costa, emitiu um comunicado a colocar a acusação exatamente no plano que Costa quer evitar, no da política. O ex-ministro da Defesa diz que “a acusação não tem factos nem provas a sustentá-la” e “é eminentemente política”.

Esta sexta-feira, dificilmente conseguirá escapar a mais perguntas sobre o tema. Não só porque tem agenda pública de rua, como um dos eventos é a tradicional descida da rua de Santa Catarina, no Porto. E quem é que lá estará? Tiago Barbosa Ribeiro, o deputado que aparece na investigação a trocar com Azeredo Lopes mensagens que se suspeita provarem que o ministro já tinha conhecimento da investigação paralela e ilícita feita pela PJ Militar ao roubo de Tancos.

A contra-gosto, a esquerda lá teve de incluir o tema na agenda

Se puder, Costa dá o assunto como encerrado. Foi isso que fez durante a noite, no comício em Santarém. Não dedicou uma linha à polémica e centrou o discurso nas políticas sociais e na necessidade de “estabilidade” e de “dar mais força” ao PS.

Também Catarina Martins e Jerónimo de Sousa preferiram ignorar o assunto à noite e recentrar as atenções nas propostas que têm para fazer aos eleitores ou nos avisos que vão deixando contra um poder reforçado dos socialistas. Durante o dia, ambos tinham sido já forçados pelos acontecimentos a reconhecer que há, de facto, um problema.

Catarina Martins foi a primeira, a admitir que “se o Ministério Público tiver razão, alguém mentiu” e isso é “muito grave”.

Na caravana da CDU houve resistência até ao fim, apesar da insistência dos jornalistas, e só ao final da noite, quando já o comício final estava despachado, é que a organização acedeu a que Jerónimo falasse. Com uma condição: seria extra-campanha, e Jerónimo falaria não como candidato da CDU, mas como secretário-geral do PCP.

Numa curta declaração, assumiu que “ninguém pode esconder a gravidade do que está em causa” e que é preciso depois apurar se houve “falsas declarações na comissão”de inquérito.

Jerónimo aproveitou ainda para acusar o CDS de ter duas caras, e de ter alertado para o risco de se fazer uma comissão de inquérito antes da conclusão da investigação. Mas Cristas não lhe iria responder. Estava a saborear o trunfo que lhe caiu nas mãos a poucos dias das eleições. A “telenovela, ou série da Netflix, que já vai na terceira temporada“, em que se tornou o caso Tancos. PSD e CDS deverão ser espetadores fiéis.

Voto a favor

Pode ter cometido alguns erros de amador nos primeiros dias desta campanha oficial, como o surreal combate por quem tem o melhor Centeno. Mas desta vez, a campanha do PSD não falhou e montou uma bem sucedida operação de dramatização com a acusação de Tancos. Costa parece ter sido apanhado de surpresa.

Voto contra

À beira da campanha oficial, a discussão não era se Costa ganhava, mas por quanto ganhava e se esse valor chegaria para ter maioria absoluta. Nada indica que as condições tenham mudado e não se sabe ainda o impacto que este caso poderá ter nas eleições, mas com a ambição com que partiu para a reta final, Costa não queria seguramente ter de lidar com isto precisamente agora.

Estas são as primeiras eleições em que o PAN nada na piscina dos grandes, em que a comitiva é acompanhada em permanência por jornalistas de todos os meios de comunicação social e em que o partido tenta reproduzir uma volta de campanha como os que já cá andam há muitos anos. Mas o amadorismo é evidente. A desorganização é tal que mesmo em dias com ações de campanha mais desinteressantes, o grupo chega atrasado a todo o lado. Esta quinta-feira, por exemplo, estava prevista uma visita a um Convento, com passagem pelas hortas biológicas. Já não houve tempo para a visita e a comitiva acabou apenas a servir-se do espaço como restaurante. O resultado desse momento foram horas de viagem e nenhuma história para contar.

Fotografia do dia

Nada fazia prever, durante o evento com startups, em Lisboa, que António Costa chegaria ao final do dia assim: forçado a reagir rapidamente às acusações de Rio por causa de Tancos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Papa quilómetros

PS – Partindo de Loulé, a caravana socialista estaciona em Lisboa, passa por Moscavide,vai a Santarém para o comício noturno e depois regressa a Lisboa para as dormidas. Total do dia, 444 km, para um acumulado de 789 km.

PSD – 281 km neste terceiro dia de campanha oficial na estrada. Rio andou por Évora, Benavente, Santarém, Caldas da Rainha e Leiria. Total de 733 km nestes dois dias.

CDS – Se o dia anterior tinha acabado em Viseu, foi dali que partiu para seguir para Lamego, passar pelas caves Murganheira e depois descer para Leiria. Um dia onde fez 308 quilómetros, Assunção Cristas já conta com 1298 km.

BE – O Bloco subiu de Faro para Lisboa, depois andou pela Moita e terminou com um comício em Almada. Foram mais 345km, o que acumula um total de  971 km.

CDU – A caravana comunista saiu de Vila Nova de Gaia e desceu à margem sul. Primeiro Seixal, depois Vidigueira, Moura e Serpa. Foram 572 km num só dia, para um total de 1419 km.

PAN – O dia começou em Faro, depois a caravana seguiu para Lagoa, onde foi servido um almoço vegan, depois Monchique, onde se plantou uma árvore e depois a subida para Lisboa. Num veículo híbrido, o partido de André Silva totaliza 576 km.

O Caça ao Voto é uma análise diária ao dia de campanha com os contributos dos repórteres do Observador na caravana de campanha, Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes. A Fotografia do Dia é uma escolha do editor de Fotografia João Porfírio.

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