O Chega reuniu este fim de semana, em Évora, os militantes de norte a sul do país. E foi ali, a partir de um palco montado numa tenda e perante uma sala repleta de seguidores, que André Ventura proferiu uma série de afirmações sobre a força do partido, o apetite dos adversários por coligações, o crescimento exponencial (e ímpar, segundo Ventura) desde a fundação e, também, a ideia de que “metade” do país trabalha para sustentar a outra metade.

Verdadeiro? Errado? Ou esticado? O Observador analisou cada uma dessas declarações, escutadas, ao vivo, por cerca de 500 militantes do partido que participaram na II Convenção do Chega, e foi perceber se correspondiam aos factos. Resultado: uma declaração “esticada” e três frases factualmente erradas.

Todos querem coligar-se com o Chega?

A frase:

Passámos do partido que muitos que diziam que não devia sequer ser legalizado para o partido que todos temem e [com] que todos se querem coligar para formar governos

É um facto: este verão, correu uma petição pública que defendia a “abolição do partido Chega por ideologia fascista” que, neste momento, soma quase 27.500 assinaturas. A primeira parte da afirmação de André Ventura está, por isso, correta. Mas dizer, como fez o líder do partido, que o Chega passou a ser uma força com que “todos se querem coligar para formar governos” não corresponde à verdade. O tema tem merecido diversas referências nos últimos meses.

A frase fica, à partida, fragilizada por haver partidos chamados “de governo”, como o PS, que nunca admitiram a hipótese de estabelecer pontes com o Chega com vista à formação de um executivo. No caso dos socialistas, chegou a ser avançada a disponibilidade da candidata do partido à Câmara Municipal de Loures, nas autárquicas de 2017, para discutir uma eventual coligação com André Ventura, já depois de António Costa considerar que a candidatura de Ventura significava uma “desonra” para o PSD. Mas, nesse momento, Ventura ainda era um militante social-democrata que concorria àquela autarquia nessa qualidade. E a eventual coligação nunca avançou.

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Mas, mesmo admitindo que o líder do Chega se referia aos partidos que lhe são ideologicamente mais próximos — aqueles que se sentam à direita do hemiciclo –, também não é rigoroso dizer que “todos se querem coligar” com a força que André Ventura lidera para “formar um executivo”.

No caso do PSD – o único partido com possibilidades comprovadas de obter um resultado que lhe permita “formar governo” -, Rui Rio tem dado sinais dúbios sobre essa possibilidade. Depois de considerar “um bocadinho exagerado classificar o Chega de fascista ou de extrema-direita” e (em janeiro, à TSF), o líder social-democrata garantiu: “Não há coligações com o Chega.” Mas, nesse momento, discutiam-se, sobretudo, as autárquicas do próximo ano. “O Chega não tem implantação. Não tem sequer força local que permita alguma concelhia aventurar-se a vir propor à nacional uma coligação”, acrescentou Rio, no final de junho.

E sobre uma coligação parlamentar ou de governo? A posição foi conhecida já no final de julho, numa entrevista à RTP. “Não depende do PSD, depende do Chega. Se o Chega evoluir de uma tal maneira que – embora seja um partido marcadamente de direita, em muitos casos de extrema-direita, muito longe de nós que estamos ao centro –, se o Chega evoluir para uma posição mais moderada, eu penso que as coisas se podem entender”, admitiu o presidente social-democrata, naquela que tem sido a sua posição desde que o Chega conseguiu representação parlamentar. Ou seja, o PSD admitia essa possibilidade, mas fazia depender o diálogo de uma inversão de rumo do Chega.

Olhando para o resultado das últimas legislativas, Francisco Rodrigues dos Santos está longe de poder imaginar uma caminhada do CDS até São Bento. Ainda assim, os centristas poderiam ser uma peça fundamental numa coligação mais alargada à direita que garantisse a maioria dos lugares na Assembleia da República. E haveria margem para isso?

“Depende do caderno de encargos, depende das nossas linhas vermelhas, depende das políticas concretas a avaliar localmente. O CDS é um partido democrata-cristão que tem valores firmes que são inegociáveis.” No final de maio, em entrevista à TSF, Francisco Rodrigues dos Santos dizia mais ou menos o mesmo que Rui Rio: que uma coligação com o Chega dependia “do caderno de encargos, das linhas vermelhas [do CDS] e “das políticas concretas a avaliar localmente”. E acrescentava: “O CDS é um partido democrata-cristão que tem valores firmes que são inegociáveis”. Mas, com o tempo, até essa porta se foi fechando do lado do Largo do Caldas.

Mais recentemente, no início de agosto, o líder centrista ainda baixou mais a probabilidade de vir a considerar uma coligação com o Chega. “Neste momento, é nula”, disse Rodrigues dos Santos à revista Visão. “O Chega está cada vez mais longe dos valores que o centro-direita democrático e popular representam em Portugal”, explicou o presidente do CDS, notando o “distanciamento” da força de André Ventura face aos “valores” centristas e à “tentativa constante de ultrapassar as linhas vermelhas” do partido.

CONCLUSÃO

É “esticado” alegar, como faz André Ventura, que “todos” se queiram coligar com o Chega com vista à formação de um governo. Isso não é, de todo, para o PS. No PSD, Rui Rio já admitiu a possibilidade de diálogo com Ventura, mas fez depender esse passo de uma mudança de posicionamento do partido. O líder do CDS admite cada vez menos essa possibilidade, embora em tempos tenha admitido que era possível se o Chega respondesse a um determinado caderno de encargos.

ESTICADO

Chega é a “terceira força” política?

A frase:

Somos a terceira força política portuguesa, segundo os números

O Chega é a terceira força política nacional? André Ventura acredita que sim e defendeu-o na II Convenção do partido, em Évora, este fim de semana. Algumas das sondagens mais antigas, divulgadas este ano, colocam o partido nessa posição, atrás do PS e do PSD; outras, colocam-no em terceiro lugar, empatado com o Bloco de Esquerda; e também têm sido noticiadas sondagens que apontam ao quarto lugar. Mas esse dado é enganador e conduz a uma conclusão errada. Na prática, o Chega foi a sétima força mais votada nas legislativas de outubro do ano passado.

A primeira declaração de André Ventura, em Évora, foi taxativa: “Somos a terceira força política portuguesa, segundo os números.” Mais à frente, optaria por uma outra formulação: “Quem, há um, ano achasse que seríamos a terceira força política em Portugal chamar-nos-iam loucos, desligados da realidade. Hoje, não há sondagem que não nos coloque em terceiro ou em quarto lugar.” Insiste no argumento de que o Chega é o terceiro partido, acabando para alargar essa ideia ao quarto lugar.

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Ora, a forma de saber, com rigor, a força que um partido tem junto do eleitorado é quando o eleitorado se expressa — e isso acontece nas eleições, com os resultados colocados nas urnas de voto. Desse ponto de vista, o Chega nunca poderia ser “a terceira força política portuguesa”, como alega Ventura. Há um ano, o partido conseguiu eleger o seu líder, apenas seis meses após a fundação. No final da noite eleitoral, o Chega somou 1,24% dos votos (muito perto dos 68 mil boletins), ficando atrás do PAN, do CDS, da CDU (PCP/PEV), BE, PSD e PS.

Desde esse momento, foram divulgadas sondagens em que o Chega surgia com 3,3% de intenções de voto (sondagem SOL/Porto Canal de 7 de março com “direito” a um quinto lugar na hierarquia partidária); depois, subiu para o quarto lugar com uma intenção de 8,1% dos votos (a 28 de março, na sondagem JN/TSF), voltou a subir para um terceiro lugar (maio, na sondagem Pitagórica/JN), apesar de uma queda para os 6,4% (suficientes para ficar à frente do Bloco de Esquerda), empata com o partido de Catarina Martins em julho, nos 7% de intenções de voto (Católica), e volta a surgir num 4º lugar, em agosto, de novo atrás dos bloquistas, com uns possíveis 7,9% de votos.

Este domingo, 20, já depois de André Ventura discursar pela primeira vez na II Convenção do partido, foi conhecida uma nova sondagem para a TSF/JN que mantém o Chega em quarto lugar, a 1,5% dos votos do Bloco de Esquerda (com 8,3% das intenções de voto).

CONCLUSÃO

Animado por alguns estudos de análise de intenções de voto, André Ventura diz que o Chega é “a terceira força política portuguesa”. Não é verdade. As últimas eleições legislativas – as primeiras e únicas eleições disputadas até agora pelo partido – colocaram a força liderada por Ventura no sétimo lugar. A afirmação está, por isso, errada.

ERRADO

Ventura lidera o partido com o crescimento mais rápido de sempre?

A frase:

Somos o partido da história que mais cresceu no curto espaço do tempo em que fomos criados.

A lógica de André Ventura é esta: se o Chega é a “terceira força política” em Portugal (uma conclusão que não cola com a realidade), então isso também significa que o partido que lidera será, na história da política nacional, aquele “que mais cresceu no curto espaço do tempo” desde que foi criado. Mas o raciocínio de Ventura tem fragilidades e não está sustentado em factos.

O Chega estreou-se num ato eleitoral em outubro do ano passado, cerca de seis meses depois de ter sido fundado (a 9 de abril). Nessa primeira eleição, obteve 1,29% dos votos e conseguiu um lugar à Assembleia da República — o do próprio André Ventura. Nas sondagens mais recentes, a melhor posição atribuída ao Chega são 8,1% das intenções de voto. Foi em março, numa sondagem do JN/TSF. Mas, mais uma vez, o que está em causa são intenções de voto, não são resultados efetivos.

Focando a análise em resultados reais, e fazendo o mesmo raciocínio de Ventura, recuamos a 1985. Nesse ano, mais precisamente a 10 de julho, é fundado o Partido Renovador Democrático (PRD), liderado por Hermínio Martinho, mas que tinha como grande impulsionador e apoiante oficiosa do então Presidente da República. A nova força, intimamente inspirada na figura de António Ramalho Eanes, é registada pelo Tribunal Constitucional quando faltavam apenas três meses para as legislativas — metade do tempo que decorreu desde a fundação do Chega até ao primeiro ato eleitoral que o partido disputou. Mas isso não impediu o PRD de se afirmar como a maior surpresa dessas eleições (ganhas pelo PSD, na antecâmara das maiorias absolutas cavaquistas). Na sua estreia, Hermínio Martinho conquistou 17,92% dos votos (mais de um milhão de boletins inscritos naquela sigla) e elegeu 45 deputados à Assembleia da República.

Por outras palavras, em metade do tempo, o PRD conseguiu uma percentagem de votos 15 vezes superior à do Chega (que não chegou aos 68 mil votos) e conquistou mais 44 lugares no hemiciclo parlamentar. Mas não é caso único.

Janeiro de 1975, quase um ano depois do 25 de abril, o combate político fervilhava em Portugal, um país que ainda despertava de 40 anos de uma ditadura que impossibilitava a existência de partidos políticos. Isso mudou rapidamente com o derrube do regime. Em janeiro de 1975 (13), nasce o CDS. O PPD/PSD é criado a 17 desse mês e o PS é reconhecido no primeiro dia de fevereiro do mesmo ano (embora tenha sido fundado em 1973). Antes das primeiras eleições livres e universais, a 25 de abril, ainda seriam formalizadas a constituição do PPM (17 de fevereiro) e do PCTP/MRPP (um dia mais tarde).

Na manhã de 26 de abril de 1975, no rescaldo das eleições constituintes, todos estes partidos – e também o Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP / CDE) – tinham conseguido mais de 4,14% dos votos. Em termos absolutos, o PPD e o PS tiveram mais de 68 mil votos (o número mágico com que André Ventura saiu das eleições de outubro). E elegeram entre cinco e 116 deputados. Nas eleições de abril ano seguinte – e apenas como contraponto às sondagens que atribuem 8% das intenções de voto ao Chega –, o o CDS, o PPD e o PS conseguiram entre 14,39% e 34,89% dos votos e colocaram entre 40 e 107 deputados na Assembleia da República.

CONCLUSÃO

Ao contrário do que defendeu André Ventura, na II Convenção do Chega, não é verdade que a força que lidera seja “o partido que mais cresceu” no curto espaço de tempo após a sua criação. E também não é verdade que o seja um ano e meio depois desse momento fundador. Há vários exemplos que o desmentem – como é o caso do PSD ou do PS, embora os tempos fossem outros e de grande efervescência política. A afirmação está errada.

ERRADO

“Metade do país” trabalha para a outra metade?

A frase:

Temos de acabar com isto de metade do país a trabalhar para a outra metade

André Ventura quer acabar com uma situação em que, alega, “metade do país” está “a trabalhar para a outra metade”. A ideia tem sido repetida pelo líder do Chega, que, assim, pretende sublinhar a ideia de que há demasiadas pessoas a beneficiar de apoios sociais e a não contribuir, por via do trabalho, para a riqueza nacional. Dito doutra forma: metade do país que trabalha tem estado a sustentar a outra “metade”.

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, compilados no Pordata, havia, fevereiro deste ano, quase cinco milhões de trabalhadores em situação ativa. Considerando os mais de 10 milhões de cidadãos a viver em território nacional, à partida, a imagem construída por Ventura corresponderia à realidade. Mas, será mesmo assim?

De acordo com os dados do INE, compilados pelo site Pordata, em 2019, 20% da população nacional era composta por estudantes, distribuídos pelos vários níveis de ensino. Dentro desse grupo, e consultando os mesmos dados, é possível perceber que a maioria desses estudantes estava integrada no ensino básico, começa nos 5/7 anos de idade e se estende até aos 14/16 anos – logo, e na sua esmagadora maioria, são crianças e jovens sem idade para poder desempenhar uma atividade profissional.

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De que “metade” estaria André Ventura a falar, então? É uma ideia recorrente nas intervenções do líder do Chega, mas que carecem de sustentação – e de rigor. Os dados do Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social mostram que, no ano passado, pouco mais de 267 mil pessoas eram beneficiárias do Rendimento Social de Inserção. Como resultado da pandemia, estes dados terão sofrido alterações no último semestre, mas a curva da evolução do universo de beneficiários deste apoio social tem vindo a diminuir desde 2010. Era mais de meio milhão, em 2010, e esse universo tinha caído para cerca de metade, no final do ano passado.

Outro apoio estatal — o subsídio de desemprego — vem diminuindo o seu universo desde 2012 (eram mais de 331 mil, nesse ano), chegando a um valor de pouco menos de 144 mil beneficiários no ano passado.

CONCLUSÃO

Ventura quer “acabar” com a dependência de metade da população face à outra metade. Mas esse universo, simplesmente, não existe. Aos quase cinco milhões de pessoas em idade ativa que estão empregadas juntam-se milhares de crianças que ainda não atingiram a idade mínima para exercer uma profissão. Não é verdade que uma metade da população portuguesa viva “à custa” da outra metade.

ERRADO