Ivone Neto acaba de vender umas fraldas a uma reclusa que está presa e que leva a filha pela mão quando pára um minuto para pensar naquele dia em que o vírus entrou na cadeia de Tires. A Covid-19 começou primeiro por manifestar-se levemente em três reclusas do seu pavilhão e, até aquele dia, Ivone pensava que as paredes da cadeia a protegiam da pandemia. Quando o resultado confirmou as suspeitas das colegas e ela foi obrigada a fazer o teste, essa ideia desmoronou-se. Foi uma noite sem dormir à espera de uma espécie de nova sentença. Acabou por testar negativo e foi imediatamente mudada de cela, numa operação relâmpago que virou ao contrário a prisão feminina do concelho de Cascais.

Está atrás de um balcão improvisado na porta de uma sala que funciona como mercearia. Aos 54 anos, faltam-lhe escassos meses para terminar uma pena de mais de sete anos de prisão por tráfico de droga, naquela que é já a sua segunda passagem pela cadeia. “Estava no sítio errado à hora errada”, tenta justificar. É ela que está ao serviço da mercearia (ou cantina, como lhe chamam) da Casa das Mães, um dos pavilhões do estabelecimento prisional de Tires destinado a receber reclusas que tenham filhos até aos três anos, mas que agora tem também uma zona onde estão as reclusas mais velhas e consideradas de maior risco. Assim como algumas das que testaram negativo e que, antes, estavam no pavilhão 2  — que acabou transformado num hospital campanha assim que o vírus ali entrou.

Duas crianças com menos de três anos que estão na cadeia com as mães ficaram infetadas com o novo coronavírus

MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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