Glock e Tancos. As 4 pontes entre os dois casos /premium

19 Dezembro 2018

Suspeitos, elementos internos, material que continua à solta e um número elevado de arguidos. As detenções da PJ e da PSP revelam pontos de contacto entre o desvio de armas e o material de guerra.

Cinco meses e quase 130 quilómetros separam dois dos principais casos que marcaram os últimos dois anos de investigação criminal. O desaparecimento de 57 armas Glock da Direção Nacional da PSP foi descoberto em janeiro do ano passado e, em junho, dois militares do Exército perceberam durante uma ronda pelos Paióis Nacionais de Tancos que três paiolins tinham sido assaltados.

Apesar de não estarem, à partida, relacionados, os dois casos têm vários pontos em comum: o suspeito Laranjinha; pelo menos um elemento interno (que facilita ou concretiza o furto); material por recuperar e um elevado número de arguidos.

Um dos processos está nas mãos da PSP desde janeiro do ano passado e o outro saltou da alçada da PJ Militar para a PJ civil nos primeiros dias de julho de 2017. Com as detenções desta semana, os dois casos ficam um passo mais perto do fim. Mas ainda há pontas soltas por resolver.

Laranjinha, o elo comum

A data exata em que as Glock foram desviadas do armeiro da Direção Nacional da PSP, em Lisboa, não é conhecida. Pela simples razão de que o desvio não aconteceu num momento só. As 57 armas foram desviadas ao longo de um período por um ou mesmo por dois agentes da PSP que desempenhavam funções naquele espaço sensível — os dois suspeitos tinham, aliás, responsabilidades na supervisão da arrecadação onde eram guardadas as armas.

Foi em janeiro que a PSP se deu conta de que algo de errado se passava com as suas armas, quando um traficante de droga foi apanhado, no Porto, com uma Glock que tinha uma inscrição em letras brancas na qual se lia “Força de segurança”, durante uma operação de rotina de combate ao narcotráfico. A polícia abriu um inquérito e só nesse momento fica claro que as outras 56 armas estavam em falta. Os dois agentes são suspensos e, depois, colocados em funções administrativas, até serem detidos esta quarta-feira.

Laranjinha — agora em prisão preventiva, depois de ter sido detido na segunda-feira pela Polícia Judiciária por estar envolvido no assalto a Tancos — ia recebendo as armas e passava-as a intermediários, que por sua vez as colocavam no mercado.

É já depois do sobressalto na PSP, com as 57 Glock desviadas, que surge o caso de Tancos e que, entre outro material furtado, leva ao desaparecimento de quase 1500 munições de 9 milímetros. O mesmo Laranjinha terá violado o perímetro de Tancos para ajudar a carregar as caixas para a carrinha com que os assaltantes concretizaram o assalto.

Os insiders: o elemento-chave para os furtos

Num caso, foram os agentes a concretizar o desvio de armas da PSP. No outro, foram militares — ou, pelo menos, um militar — a passar informações para o exterior sobre as rotinas de segurança nos paióis e a localização do material de interesse para os assaltantes. Em ambos os casos, a colaboração de alguém de dentro foi fundamental para o sucesso das operações.

Esta quarta-feira, cerca de uma centena e meia de elementos da PSP foram para o terreno para concretizar buscas domiciliárias e não domiciliárias e para cumprir três mandados de detenção, uma vez que um dos principais alvos da investigação, Laranjinha, já tinha sido detido pela PJ no início da semana, no processo de Tancos (ambos os processos estão a ser coordenados pelo mesmo procurador do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, Vítor Magalhães). De acordo com a investigação, os dois agentes da PSP foram desviando as Glock ao longo do tempo e, a partir do momento em que foi feito o inquérito para apurar os contornos do desaparecimento das armas, os dois agentes tornaram-se nos principais suspeitos do furto.

No caso das Glock, pelo menos um agente é suspeito de ter furtado as armas para vendê-las a um traficante. Em Tancos, um militar passou informação fundamental aos assaltantes. Os "insiders" foram decisivos nos dois furtos.

Mas como não havia provas suficientes de que estavam ligados ao desvio das armas, os agentes foram continuando em funções enquanto os colegas da Divisão de Investigação Criminal recolhiam indícios. Acabaram detidos esta quarta-feira e, agora, vão ser presentes a juiz de instrução para um primeiro interrogatório e para que lhes sejam aplicadas as respetivas medidas de coação.

No caso de Tancos, o furto teve contornos diferentes, mas a informação interna voltou a ser determinante para o desvio do material de guerra.

Na segunda-feira, dia em que “Laranjinha” foi detido, um dos nove mandados de detenção que a PJ queria executar não teve sucesso. Um ex-militar escapou aos inspetores, que ainda o procuraram nas várias moradas de que dispunham antes de perceberem que estava de férias em Espanha.

Esta quarta-feira, acabou mesmo detido, ao regressar a Portugal. O ex-militar, com vínculo contratual ao Exército, estava destacado nos Paióis Nacionais de Tancos no momento do assalto, em junho do ano passado.

De acordo com a investigação, foi esse ex-militar, que entrou há pouco tempo na GNR e estava prestes a ser colocado numa unidade, quem deu detalhes sobre as rondas feitas naquelas instalações militares, sobre os percursos dessas rondas, os timings e as equipas que cumpriam essa medida de segurança a troco de dinheiro. Quando chegaram ao perímetro dos paióis, os assaltantes sabiam — porque o ex-militar lhes deu esse conhecimento — de quanto tempo dispunham para retirar as dezenas de caixas de material militar até que outra ronda viesse a passar por ali.

Armas, munições e explosivos: o que falta recuperar

Das 57 Glock que desapareceram das instalações da PSP, oito já foram recuperadas.

A primeira foi descoberta na operação de combate ao tráfico de droga que, em janeiro do ano passado, daria origem ao inquérito interno na PSP. Dias mais tarde, em Ceuta, a Polícia Nacional Espanhola apanha mais três Glock que estavam nas mãos de elementos de uma rede de tráfico de droga. Outras três apareceram, em fevereiro deste ano, na casa de suspeitos de tráfico de droga, em Odivelas. Em outubro, o ministro da Administração Interna revelou no Parlamento que já tinham sido recuperadas oito armas — a oitava também foi descoberta em território espanhol.

Mas a grande maioria ainda não foi recuperada. E tendo em conta o elevado número de armas desviadas da sede nacional, mesmo que os suspeitos agora detidos revelem a quem venderam as armas, poderá levar bastante tempo até que a PSP consiga reaver a maior parte das Glock.

Entre o que foi roubado e o que o voltou a aparecer, as contas de Tancos são mais complexas. Desde logo, porque a diversidade de material roubado é muito maior. Depois, porque ainda não é totalmente claro — foi o antigo ministro da Defesa quem o admitiu no Parlamento — que material foi levado, porque o Exército podia simplesmente não ter uma base de dados rigorosa sobre o que estava guardado naqueles paiolins.

Ainda assim, e tendo por base as informações que a Procuradoria-Geral da República entregou aos deputados da comissão de Defesa, continuam por recuperar “1.450 munições de 9mm” — o único material que a PJ Militar identificou desde o início como estando em falta entre as caixas devolvidas e que poderá ser útil para municiar as Glock da PSP —, além de “um disparador de descompressão, duas granadas de gás lacrimogéneo, uma granada ofensiva, duas granadas ofensivas de corte para instrução, 20 cargas lineares de corte CCD20 e 15 cargas lineares de corte CCD30”.

Há, ainda, o material “a mais” que o ex-Chefe do Estado-Maior do Exército revelou ter sido devolvido em outubro do ano passado à PJ Militar: 136 velas PE4A (um composto explosivo).

Inspetores, militares e civis: os alvos das investigações

A PSP deteve esta quarta-feira nove pessoas durante a operação Ferro-Cianeto, o desfecho da investigação ao furto das Glock detetado em janeiro do ano passado.

Mas a este número há que somar o caso de Laranjinha — que foi detido na segunda-feira no âmbito da investigação a Tancos mas também é suspeito do furto à PSP — e há que retirar dois homens detidos, que “não estão relacionados com o presente inquérito” mas acabaram por ser levados pela PSP “por posse de objetos proibidos”. Contas feitas, a operação fez sete detidos (três em cumprimento de mandados de detenção emitidos pelo Ministério Público e quatro em flagrante delito) e há oito suspeitos envolvidos.

António Laranjinha é esse oitavo elemento, comum aos dois processos. Outros dois suspeitos são os agentes da PSP responsáveis pela gestão do armeiro na Direção Nacional. A identidade dos restantes elementos ainda não é conhecida publicamente.

Noutro plano, entre entre 25 de setembro e esta quarta-feira, foram feitas 18 detenções no âmbito da Operação Húbris e da Operação Húbris II. Com a exceção do ex-fuzileiro João Paulino, a maioria dos primeiros visados na investigação da PJ não são suspeitos do assalto, mas sim de colaborar numa ação de encobrimento dos assaltantes dos paióis de Tancos: além de Paulino (o único civil desse conjunto), foram detidos nesse primeiro momento o ex-diretor da PJ Militar, três dos seus investigadores e quatro militares do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé. Um quarto inspetor da PJ Militar, o major Vasco Brazão, participava numa missão na República Centro Africana quando a operação foi para o terreno e acabaria por regressar a Portugal de forma antecipada, na semana seguinte, para também ser detido, elevando para nove o número de detidos na Operação Húbris.

Desse grupo, dois continuam em prisão preventiva (o ex-diretor da PJ Militar e João Paulino) e um  (Vasco Brazão) está em prisão domiciliária, medidas revalidadas no final da semana passada pelo juiz de instrução João Bártolo.

No início desta semana — e já depois de ter sido constituído arguido mas não detido, Paulo Lemos, um informador da PJ conhecido pela alcunha “Fechaduras”, que assume ter passado informações aos assaltantes de Tancos mas recusa ter participado no assalto —, seriam detidos mais oito civis (alguns dos quais ex-militares), na segunda fase da Operação Húbris.

Laranjinha, o suspeito do caso das Glock, é um desses detidos. Neste segundo grupo, há dois tipos de suspeitos: por um lado, há elementos que a PJ acredita terem estado em Tancos no final de junho do ano passado e de terem participado diretamente no assalto às instalações militares; por outro lado, há um conjunto de suspeitos que terão apenas dado apoio aos assaltantes.

A lista sobe, também aqui, para nove pessoas. Ausente do país na segunda-feira, por estar a passar férias em Espanha, o ex-militar que estava colocado em Tancos no momento do assalto também seria detido esta quarta-feira e colocava o total de detidos, em ambas as fases da operação, nas 18 pessoas.

Mesmo com o elevado número de visados, há uma questão central que continua em aberto: quem encomendou o desvio de armas da PSP e quem encomendou o assalto às instalações militares de Tancos? A resposta pode surgir do depoimento de alguns dos suspeitos detidos esta semana.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)