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ANA MARTINGO/OBSERVADOR

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

Joe Biden. 6 pistas para perceber a vitória do candidato que não é Trump /premium

Aos 77 anos, Joe Biden chega à Casa Branca depois de uma luta inesperadamente dura, que se prolongou por muitas horas de contagem de votos. Como conseguiu vencer o Presidente que se recusa a perder?

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Joe Biden anunciou a candidatura no dia 25 de abril de 2019. Dezoito meses depois, o democrata de 77 anos foi agora eleito Presidente dos Estados Unidos. Ao longo de um ano e meio, o ex-vice-Presidente de Obama teve de assegurar a nomeação e unir um Partido Democrata dividido, com um número recorde de candidatos a candidato — e teve também de fazer uma campanha contra Trump, num ano marcado por tensões sociais e raciais nos EUA e, evidentemente, por uma pandemia global que matou centenas de milhares de americanos. No fim, recuperou o eleitorado que Hillary Clinton tinha deixado escapar em 2016 e tornou-se no candidato com mais votos na história norte-americana — nunca um candidato tinha conseguido mais de 70 milhões de votos e Biden poderá chegar aos 80 milhões (Trump também passa a fasquia dos 70 milhões). Neste artigo, deixamos seis pistas para perceber como Joe Biden conseguiu ganhar.

A vitória do centro no Partido Democrata

Desde 1972, ano em que os partidos começaram oficialmente a escolher os seus candidatos presidenciais através do atual sistema de eleições primárias, nunca tinham aparecido tantos aspirantes em busca da nomeação. O recorde anterior tinha sido batido no Partido Republicano em 2016, com 17 candidatos. Desta vez, 28 democratas assumiram a intenção de chegar a Presidente. Algumas candidaturas de menor dimensão foram efémeras; outras, como as de Bernie Sanders, Elizabeth Warren, Michael Bloomberg ou Amy Klobuchar marcaram de modo decisivo as primárias democratas. No fim, ganhou Joe Biden — mas o número recorde de candidatos deixou evidente a existência de profundas divisões dentro do partido sobre qual era o melhor caminho para derrotar Donald Trump.

Muitos candidatos concorreram às primárias democratas; no final, restaram Joe Biden e Bernie Sanders

Getty Images

Do lado republicano, a escolha pela continuidade de Trump era evidente (ainda surgiram outros três candidatos, sem qualquer hipótese de nomeação). Perante um Partido Republicano decidido a relançar Trump e um Presidente capaz de galvanizar uma grande fatia do eleitorado norte-americano, o Partido Democrata não teve outra hipótese que não consolidar uma união forte em torno de um candidato capaz de disputar a Presidência.

Esse esforço de união ficou claro na forma como, um a um, os vários candidatos à nomeação foram desistindo das suas próprias campanhas para declararem publicamente o seu apoio a Biden. Foi particularmente evidente em março, na semana da Super-Terça-Feira (o dia em que tradicionalmente mais estados realizam as suas primárias), que consolidou a nomeação democrata em torno de apenas duas figuras: Joe Biden e Bernie Sanders.

A senadora Amy Klobuchar deu o exemplo no dia antes daquela terça-feira. “Acabo a minha campanha para apoiar Joe Biden. Ele conseguirá unir o nosso país e construir a coligação da nossa base democrata com os independentes e os republicanos moderados”, disse Klobuchar. Michael Bloomberg fez o mesmo na quarta-feira dessa semana, encorajando os seus apoiantes a voltarem-se para Biden. Elizabeth Warren também desistiu da campanha naquela semana, mas só apoiou formalmente Joe Biden em abril, depois de Bernie Sanders também ter desistido.

A desistência de Sanders selou aquilo que já se vinha construindo nos meses anteriores: Joe Biden era o nome mais consensual entre os democratas para se opôr a Trump em novembro. Numa entrevista à Associated Press, Sanders disse o que pensava sobre o que deviam os seus apoiantes fazer e apresentou-lhes uma escolha: “Queremos ser o mais ativos que conseguirmos para elegermos o Joe Biden e fazermos tudo o que conseguirmos para influenciarmos o Joe e a campanha dele numa direção mais progressista? Ou escolhemos ficar sentados e permitir que o Presidente mais perigoso da história contemporânea americana seja reeleito?

A ideia de que Donald Trump não era apenas mais um republicano, mas um Presidente que precisava de ser urgentemente derrotado, pesou desde o início sobre o Partido Democrata — e os opositores internos reconheceram a capacidade de Biden de unir o partido. “Se há coisa que aprecio no Joe Biden é que ele diz sempre o que pensa”, afirmou Elizabeth Warren quando lhe declarou o apoio. “Quando discordamos, ele ouve. Não ouve apenas, escuta verdadeiramente e trata os outros com respeito, independentemente de onde vêm.

"O nosso partido está unido a oferecer uma escolha muito diferente: um Presidente que arregaça as mangas. Um tipo terra-a-terra, que faz o trabalho."
Bill Clinton, ex-presidente dos EUA

Em agosto deste ano, Joe Biden foi oficialmente confirmado como o candidato democrata à eleição presidencial, numa convenção virtual já marcada pela pandemia que entretanto devastou o planeta. No evento, o antigo Presidente Bill Clinton resumiu a necessidade de o Partido Democrata se unir em torno de Biden para defrontar Trump. “Numa altura destas, a Sala Oval devia ser um centro de comando. Em vez disso, é um centro de caos. Só há caos”, disse Clinton. “O nosso partido está unido a oferecer uma escolha muito diferente: um Presidente que arregaça as mangas. Um tipo terra-a-terra, que faz o trabalho.”

Mas unir o Partido Democrata não é uma tarefa simples, sobretudo numa altura de grandes alterações demográficas nos Estados Unidos. Aquele partido é o que mais capacidade tem para apelar ao voto das minorias do país (incluindo as comunidades negras dos subúrbios das grandes cidades e as comunidades hispânicas do sul) e aos mais jovens, um eleitorado que tem ganhado expressão crescente. Mas isso não é suficiente. O partido também depende de uma base mais alargada da classe média e dos trabalhadores da maioria branca — e a compatibilização dos interesses destes dois eleitorados nem sempre é um equilíbrio fácil de manter.

A opção dos democratas teve essa realidade em conta. Joe Biden foi vice do primeiro Presidente negro dos EUA — e o apoio de Obama durante a campanha foi um trunfo que o ajudou junto das minorias — e representa uma ala mais moderada do Partido Democrata (por oposição a Bernie Sanders, símbolo de um segmento do partido muito mais à esquerda), o que lhe permitiu também garantir o apoio de algum eleitorado mais tradicional. Uma sondagem publicada no final de outubro dava razão àquela escolha: Biden estava a ser capaz de captar 22% do eleitorado do centro que habitualmente se inclina para o Partido Republicano, ao passo que Trump só conseguia captar 7% do eleitorado do centro que habitualmente se inclinaria para os democratas. Por outras palavras, de um lado e de outro os indefectíveis estavam decididos; na batalha pelo centro, Biden ganhou.

Um exemplo prático deste complexo equilíbrio verificou-se no estado da Pensilvânia, onde uma parte significativa da população ativa depende do fracking (exploração de petróleo e gás natural). A ala mais à esquerda do Partido Democrata, onde se encontram grande parte dos proponentes do Green New Deal, propõe uma abordagem muito mais radical às alterações climáticas e quer impor fortes restrições aos combustíveis fósseis no curto prazo, enquanto Biden, defensor de um outro plano ambiental, conseguiu equilibrar os vários interesses em jogo — assumindo o compromisso com a neutralidade carbónica, mas sem terminar com a atividade de fracking que existe atualmente.

As projeções à boca das urnas sobre o comportamento dos eleitores publicadas pelo The New York Times confirmam que esta estratégia de aproximação ao centro foi eficaz. Joe Biden foi o favorito entre os mais pobres (57%-42%) e a classe média (56%-43%), ao passo que Trump apenas foi o favorito entre a minoria mais rica (43%-54%).

Mais importante, Joe Biden conseguiu convencer a maioria dos eleitores moderados e independentes. 64% dos eleitores que se identificam como moderados em questões políticas disseram ter votado em Biden (e apenas 33% em Trump). Do ponto de vista da filiação partidária, 54% dos que se identificam como independentes afirmaram ter optado pelo democrata (e 40% escolheram Trump). Ao mesmo tempo, Biden também foi mais eficaz que Trump a captar eleitorado habitualmente fiel ao partido opositor (14% dos conservadores votaram em Biden, 10% dos progressistas em Trump).

A campanha feita durante uma pandemia

No primeiro trimestre de 2020, a pandemia da Covid-19 entrou na Europa e nos Estados Unidos e marcou o decurso do ano. Os EUA tornaram-se em poucas semanas o país do mundo com mais casos e mais mortes provocadas pelo coronavírus e a pandemia assumiu o lugar central na campanha, contribuindo para evidenciar as diferenças entre Donald Trump e Joe Biden.

Os dois candidatos adotaram, desde o início, atitudes diametralmente opostas relativamente à pandemia. Donald Trump optou por um calendário de campanha em muito semelhante àquilo que seria uma campanha normal, com dois ou três comícios por dia (habitualmente realizados em pistas de aeroporto, permitindo ao Presidente viajar rapidamente por todo o país), atraindo milhares de apoiantes para todos os eventos, que decorreram sem qualquer distanciamento de segurança e com muitos dos seus fiéis a recusarem utilizar máscara.

Nos comícios de Trump apareceram multidões de apoiantes, sem distanciamento social e com poucas máscaras; já Biden organizou comícios "drive-in" com os apoiantes distanciados dentro dos seus carros

Getty Images

Joe Biden, por outro lado, jogou desde cedo a carta da pandemia. Organizou muito poucos comícios, mantendo a maioria dos dias de campanha sem eventos públicos, e comunicou com a imprensa essencialmente através de comunicados publicados no seu site. Nos poucos eventos que protagonizou, inovou com a criação de comícios “drive-in” — discursos em parques de estacionamento a que os apoiantes assistiam dentro dos seus carros, mantendo a distância — e realizou diversos eventos virtuais a partir do estado do Delaware, onde vive.

Aos 77 anos, Joe Biden faz parte do grupo mais vulnerável a sofrer complicações caso contraia o vírus, o que o levou a resguardar-se durante a campanha. Isso deu-lhe, também, uma outra autoridade argumentativa sobre o oponente, nomeadamente para explorar a incapacidade de Trump para responder à pandemia e para o acusar de contribuir para a disseminação do vírus.

Um exemplo: Biden foi desde muito cedo visto em público a usar máscara em praticamente todas as situações do dia-a-dia. Donald Trump só apareceu publicamente com uma máscara em meados de julho, num altura em que os EUA já registavam mais de 3,2 milhões de casos e mais de 130 mil mortes por Covid-19. No primeiro debate entre os dois, Trump fez questão de troçar de Biden por usar máscara frequentemente, mas o democrata manteve o hábito.

Biden não desperdiçou nenhuma oportunidade para se distanciar de Trump no que tocou à pandemia. Por cada comício com milhares de apoiantes organizado pelo Presidente, o democrata acusou-o de montar um “evento supertransmissor”. De cada vez que Trump afirmou, erradamente, que os EUA estavam a “dar a volta” à pandemia, Biden lembrou os números crescentes de infeções e mortos. Sempre que Trump desacreditou Anthony Fauci (o principal especialista em doenças infecciosas do país) e a comunidade científica, Biden insistiu que a sua Presidência seria baseada em “ouvir a ciência”.

No fim de contas, os argumentos de Biden viriam a ser corroborados pelo facto de o próprio Trump ter contraído o vírus. Depois de lhe desejar as melhoras, Biden disse que o Presidente era responsável por ter adoecido. “Qualquer pessoa que contrai o vírus essencialmente por dizer ‘as máscaras não importam, o distanciamento social não importa’, acho que é responsável por aquilo que lhe acontece”, notou o democrata.

No país mais afetado pela Covid-19 a nível global, o discurso focado no negacionismo da evidência científica e na desvalorização da gravidade da pandemia não foi vantajoso para Donald Trump, que pregou essencialmente para a sua base de apoio irredutível — de que fazem parte os muitos apoiantes que surgiram sem máscara nos seus comícios. Mesmo entre muitos republicanos, a postura de Trump não convenceu.

"Aqueles que negam as realidades científicas da pandemia minam as condições que permitem uma reabertura rápida e completa. Encorajam comportamentos que levam à tragédia pessoal e à regulação social. As pessoas precisam de encorajamento para fazer o que está certo, e não de desculpas para não o fazer"
Chris Christie, ex-governador de Nova Jérsia e conselheiro de Donald Trump

O ex-governador da Nova Jérsia Chris Christie — um dos principais conselheiros de Donald Trump durante a campanha eleitoral, sobretudo na preparação dos debates — é um exemplo claro de como a atitude de Trump perante a pandemia deixou de agradar até aos republicanos que com ele colaboram. Christie foi um dos que ficaram infetados no evento de apresentação da juíza Amy Coney Barrett, nos jardins da Casa Branca, onde começou um surto que infetou o próprio Trump. Algumas semanas depois, num artigo publicado no The Wall Street Journal, Christie veio admitir que devia ter usado máscara e reconhecer que a máscara “não é um símbolo partidário ou cultural, nem um sinal de fraqueza ou virtude”.

“Aqueles que negam as realidades científicas da pandemia minam as condições que permitem uma reabertura rápida e completa da economia. Encorajam comportamentos que levam à tragédia pessoal e à regulação social. As pessoas precisam de encorajamento para fazer o que está certo, e não de desculpas para não o fazer”, escreveu o republicano, numa mensagem que acertou certeira no discurso de Donald Trump ao longo da campanha.

Por seu turno, Joe Biden usou a pandemia a seu favor. Os eventos de campanha discretos e organizados para evitar aglomerações, a presença constante dos cientistas e especialistas e o exemplo pessoal do candidato resguardado contribuíram para aumentar a credibilidade do democrata à medida que a pandemia evoluiu no país. Este argumento convenceu uma boa parte do eleitorado. De acordo com as sondagens à boca das urnas, 67% dos eleitores disseram que usar máscara em público é uma questão de saúde pública, enquanto 30% defenderam que se trata de uma escolha pessoal. A crença de que se trata de uma responsabilidade de saúde pública levou grande parte desse eleitorado (64%) a votar em Biden.

A aposta na saúde como tema central

Acabar com o Obamacare (nome pelo qual ficou conhecido o programa de saúde aprovado por Barack Obama que alargou a cobertura dos seguros, num país que não dispõe de serviço nacional de saúde) e substituí-lo por uma nova política de saúde era uma das prioridades centrais de Donald Trump desde 2016. Em quatro anos, o Presidente Trump insistiu múltiplas vezes na sua intenção de desmantelar o programa, mas nunca concretizou qual seria a política de saúde alternativa que proporia.

No final de junho, altura em que a pandemia da Covid-19 já tinha provocado a morte a quase 125 mil pessoas e infetado mais de 2,4 milhões nos EUA, a administração Trump submeteu um pedido ao Supremo Tribunal norte-americano (juntando-se a um processo já iniciado por vários estados, incluindo o Texas) no sentido de que o Obamacare fosse declarado inconstitucional e revertido imediatamente. O fim do programa de saúde deixaria pelo menos 23 milhões de norte-americanos sem cobertura de um dia para o outro.

A pandemia tornou-se no assunto central da campanha eleitoral e Joe Biden capitalizou os temas da saúde em seu favor

Getty Images

A intenção de Trump de acabar com o programa de saúde durante uma pandemia como a que hoje o mundo atravessa foi profundamente mal recebida pelos democratas e Joe Biden usou-a em seu favor durante a campanha. A saúde foi o tema central dos discursos do candidato democrata, que tiveram uma mensagem simples: a meio de uma pandemia, Trump queria acabar com um programa de saúde que salva vidas. Biden, por seu turno, quer alargar ainda mais o espectro de ação do programa.

É certo que Joe Biden escolheu cautelosamente os poucos temas que abordou durante a campanha eleitoral. A pandemia foi o assunto principal, com o candidato a alternar entre a promessa de ouvir a ciência e os ataques diretos à forma como Trump geriu a resposta norte-americana, desvalorizou a doença e ignorou os especialistas.

Numa campanha fundamentalmente focada no objetivo de retirar Trump da Casa Branca, Biden apelou a todos os segmentos do eleitorado que menos beneficiaram da Presidência do republicano. O democrata esteve na Flórida a falar com as comunidades negra e latina para lhes prometer melhores condições de vida e citou a Bíblia e o Papa para segurar os cristãos moderados, mas, no fim de contas, a mensagem foi só uma: “Donald Trump é o pior Presidente possível, a pior pessoa possível para nos tentar guiar durante esta pandemia”, como resumiu Biden numa visita surpresa à Pensilvânia a uma semana da eleição. Mesmo assim, Biden não conseguiu convencer a comunidade cubana da Florida, o que contribuiu decisivamente para que perdesse o estado

No momento de depositar os votos, as questões da saúde e da gestão da pandemia contribuíram decisivamente para a opção dos americanos. 51% dos eleitores consideraram que Joe Biden seria melhor a gerir a crise da Covid-19 do que Donald Trump e 50% afirmaram que a resposta norte-americana à pandemia está ser má ou muito má. Essas opiniões levaram cerca de 90% desse eleitorado a votar em Joe Biden. O candidato democrata destacou-se sobretudo entre aqueles que foram mais afetados financeiramente pela pandemia. 72% dos eleitores que disseram ter sentido um impacto grave da pandemia nas suas vidas votaram Biden; enquanto 61% dos que sentiram um impacto moderado da Covid-19 também votaram no democrata. Trump só foi o preferido daqueles que não sentiram qualquer impacto financeiro nas suas vidas — e mesmo assim por uma margem menor.

Kamala. A escolha de uma mulher negra como vice-presidente

Em março, quando já só ele e Bernie Sanders restavam na corrida dos democratas à nomeação presidencial, Joe Biden comprometeu-se a escolher uma mulher como sua vice-presidente. A opção foi confirmada em agosto, quando Biden anunciou que a senadora Kamala Harris, do estado da Califórnia, seria a sua candidata à vice-presidência. Harris fica agora para a história como a primeira mulher a chegar à vice-presidência dos Estados Unidos — com outras vitórias simbólicas para as minorias: é negra e de ascendência indiana.

A escolha de uma mulher negra para número dois reforçou a popularidade de Joe Biden entre o eleitorado afro-americano, que já o tinha favorecido significativamente durante o ano de 2019 e a corrida à nomeação democrata. Em abril, mais de 200 mulheres assinaram uma carta aberta a Joe Biden pedindo-lhe que escolhesse uma mulher negra como vice-presidente: “As mulheres negras são a chave para a vitória do Partido Democrata em 2020”. Mas Kamala Harris, que não se aproxima particularmente da ala mais à esquerda do partido, contribuiu igualmente para a capacidade de Joe Biden de atrair votos em todo o espectro do eleitorado democrata.

"A escolha de Harris é uma resposta à necessidade, profundamente sentida, da justiça racial e de género na América"
Elizabeth Holtzman, ex-congressista democrata

É indiscutível que, independentemente do sexo ou da cor da pele, Kamala Harris foi desde o início considerada como uma candidata competente para a função. É evidente também que, apesar disso, não é possível olhar para a candidatura de Harris sem ter em consideração que ela é mulher e negra, em oposição aos homens brancos que dominam a classe política norte-americana Como escreveu na Politico Magazine a ex-congressista democrata Elizabeth Holtzman, a escolha de Harris surgiu num momento particular da história dos EUA em que esses dois fatores foram decisivos.

O movimento #MeToo, surgido no final de 2017 durante a Presidência de Trump, é um momento definidor da história contemporânea norte-americana e aumentou consideravelmente a consciência coletiva da necessidade de aumentar a representatividade de género nos cargos políticos — e o problema não é a falta de candidatas.  “Há muitas mulheres qualificadas para serem Presidente já amanhã”, disse Biden quando anunciou a sua intenção de escolher uma mulher para a vice-presidência.

Por outro lado, a eleição ocorreu num ano particular no que diz respeito às tensões raciais nos EUA. O homicídio de George Floyd às mãos da polícia norte-americana em maio deste ano deu início um movimento global de luta contra o racismo sem precedentes. A mobilização dos norte-americanos ficou evidente nos muitos protestos (que frequentemente redundaram em violência) sob o lema “Black Lives Matter” por todo o país. “A escolha de Harris é uma resposta à necessidade, profundamente sentida, da justiça racial e de género na América”, resumiu Elizabeth Holtzman.

Kamala Harris torna-se na primeira mulher a chegar à vice-presidência dos Estados Unidos

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Joe Biden não representa propriamente o eleitorado atual do Partido Democrata, que é mais jovem e mais diversificado no que toca à raça, etnia e contexto social de origem. A opção por Kamala Harris, que une estas características a um currículo consistente no Senado e a uma posição moderada, aproximou Biden do eleitorado democrata. Ainda que muitos argumentem que a escolha de um vice-presidente dificilmente influencia o resultado eleitoral, é certo que Kamala Harris contribuiu positivamente para a eleição do democrata ao reforçar a popularidade de Biden entre o eleitorado das minorias.

Com efeito, olhando para as projeções, Joe Biden foi o indiscutível vencedor entre todos os grupos demográficos excepto os brancos. 87% dos negros, 66% dos latinos e 63% dos asiáticos votaram no candidato democrata. No que toca aos brancos — que representam a maioria do eleitorado —, Donald Trump recebeu o apoio de 57% dos eleitores. Também entre as mulheres, Joe Biden foi mais popular: 56% disseram ter votado no democrata e 43% em Trump, enquanto nos homens Trump liderou por um ponto percentual.

Ao mesmo tempo, 71% dos eleitores consideraram que o racismo é um dos problemas mais importantes dos EUA na atualidade. Essa opinião está diretamente relacionada com o voto em Biden (70% desse eleitorado votou no democrata). Por outro lado, 82% dos que consideram o racismo um problema menor (26% dos eleitores) escolheram Trump.

O apelo democrata a segmentos do eleitorado como as mulheres, os jovens e as minorias contribuiu para outro dos resultados decisivos de Biden: a possível vitória no Arizona, um estado que era terreno seguro para os republicanos há muito tempo.  Em 48 anos, o Partido Democrata só tinha vencido naquele estado uma vez (com Bill Clinton, em 1996). Segundo a AP, as alterações demográficas naquele estado foram decisivas para a vitória de Joe Biden e o reforço do Partido Democrata. Mais jovens, sobretudo latinos, começaram a registar-se como eleitores como resultado de esforços das estruturas locais dos democratas; ao mesmo tempo, tem-se verificado um fluxo de residentes oriundos do estado vizinho da Califórnia, o que tem contribuído para aumentar a população mais progressista no Arizona.

O trunfo chamado Obama

Joe Biden anda na vida política norte-americana há 47 anos, desde que em 1973 foi eleito pela primeira vez para o Senado, em representação do estado do Delaware. Durante esse período, concorreu duas vezes (1988 e 2008) às primárias democratas para ser o candidato do partido à Presidência, mas sem sucesso. Ainda assim, mais de três décadas de vida política ativa no Senado não lhe deram o reconhecimento nacional que ganhou com os dois mandatos como vice-presidente de Barack Obama.

Obama, o primeiro Presidente negro da história norte-americana, tornou-se rapidamente no Presidente mais popular das últimas décadas entre os americanos. Por isso, o seu apoio durante a campanha eleitoral foi um trunfo fundamental para o candidato democrata — já que Joe Biden é tudo menos um líder carismático como foi (e, pode argumentar-se, ainda é) Barack Obama. Múltiplas vezes ao longo da campanha, Obama quebrou a tradição segundo a qual um antigo Presidente se deve abster de criticar publicamente o seu sucessor. Nas últimas semanas, endureceu ainda mais o discurso, atacando Trump em todas as dimensões da Presidência.

No comício de estreia, Obama chegou mesmo a acusar Trump de não levar a Presidência a sério. “Nunca achei que Donald Trump fosse abraçar a minha visão ou continuar as minhas políticas, mas tive a esperança de que, pelo bem do país, ele mostrasse algum interesse em levar o cargo a sério. Mas isso não aconteceu”, atirou o ex-presidente. Num outro comício, Obama chamou a atenção para o problema que valeu aos democratas a derrota em 2016. “Temos de nos mobilizar como nunca”, disse o ex-presidente. “Fomos complacentes da última vez. Ficámos preguiçosos, demos as coisas por garantidas. Vejam o que aconteceu. Desta vez, não.

O ex-presidente de Barack Obama foi um dos principais trunfos da campanha de Joe Biden, que foi seu vice-presidente entre 2008 e 2016

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Este apoio de Barack Obama ajudou Joe Biden a cumprir uma das principais tarefas que tinha em mãos: recuperar o eleitorado que o partido deixou escapar em 2016, com resultados desastrosos para os democratas. No último fim-de-semana da campanha, Obama juntou-se a Biden em dois comícios no Michigan, um estado central neste processo de recuperação do eleitorado, apelando aos eleitores para que acorressem às urnas “como nunca”.

Devido ao funcionamento do sistema eleitoral norte-americano, nem sempre o candidato que recolhe mais votos é eleito Presidente (já que os eleitores escolhem, na verdade, os representantes do estado no Colégio Eleitoral, e o vencedor em cada território obtém, na maioria dos casos, todos os lugares a que o estado tem direito). Foi isso que aconteceu em 2000, quando George W. Bush foi eleito com menos votos que Al Gore, e foi isso que voltou a acontecer em 2016, quando Trump venceu mesmo tendo tido menos votos que Hillary Clinton.

É certo que Hillary Clinton teve mais votos, mas não teve os votos nos sítios certos. Trump foi eleito Presidente devido à curta margem, de menos de 80 mil votos, que conseguiu obter em três estados fundamentais: o Michigan (10 mil votos), a Pensilvânia (46 mil votos) e o Wisconsin (22 mil votos). Aqueles três estados tinham uma longa tradição de votar no Partido Democrata, quebrada em 2016 pela primeira vez em 28 anos. Era vital que Joe Biden os recuperasse. Essa recuperação começou a fazer-se sentir em 2018, nas eleições intercalares, quando os democratas ganharam quer os governadores quer os lugares do Senado relativos àqueles três estados.

Este ano, Biden firmou essa recuperação, ganhando aqueles três estados. Este sábado, quando grande parte dos meios de comunicação norte-americanos declararam a vitória, o democrata levava um avanço de mais de 147 mil votos no Michigan, de mais de 20 mil votos no Wisconsin e de mais de 34 mil votos na Pensilvânia — o estado que confirmou a vitória.

Nesta recuperação dos estados do Midwest, os esforços de campanha de Biden com Obama vieram a revelar-se bastante eficazes. Nas áreas suburbanas que habitualmente tendiam a favorecer o Partido Republicano, e que Trump venceu com facilidade em 2016, a margem republicana baixou consideravelmente. Isso deveu-se essencialmente à alteração da preferência em dois grupos demográficos concretos: os idosos e os jovens adultos brancos com formação universitária. De acordo com a projeção estadual feita à boca das urnas e divulgada pela NBC, a participação eleitoral em Detroit (Michigan), uma cidade com uma população afro-americana muito expressiva, aumentou para cerca de 53% a 55% — contra 48% em 2016, ano em que muitos eleitores disseram não se sentir inspirados a votar por Hillary Clinton.

Uma maior afluência às urnas por parte dos jovens e dos afro-americanos — no contexto de um generalizado aumento da participação eleitoral em estados tendencialmente democratas — representou uma vantagem que foi suficiente para Joe Biden inverter a curta margem de Trump em 2016. No Wisconsin, a margem de Biden não foi tão expressiva como no Michigan. Naquele estado, o democrata conseguiu vencer sobretudo devido a vitórias expressivas nas zonas urbanas, como Milwaukee e Madison — embora Trump tenha vencido em mais condados.

A qualidade do candidato que bate todas as outras: não ser Trump

Em agosto deste ano, um inquérito publicado pelo Pew Research Center procurou perceber, entre os eleitores norte-americanos, quais eram as suas preferências eleitorais. Na altura, uma das principais conclusões foi a de que 53% dos eleitores apoiavam ou tendiam a apoiar Biden, enquanto 45% preferiam Trump. Mas um dos indicadores mais curiosos desse estudo relacionava-se com os motivos invocados pelos eleitores para preferirem um ou outro candidato. Os apoiantes de Trump apontaram uma variedade de razões, com seu desempenho, estilo de liderança e posicionamento político à cabeça; já os votantes de Biden convergiram, na grande maioria, num único motivo: não é Trump.

No fim de contas, a vitória de Biden resume-se muito a isto: não é Trump. Tirar Trump da Casa Branca foi a premissa do Partido Democrata quando deixou para trás as divisões internas (que, agora com Biden na Casa Branca, podem ressurgir) e se uniu em torno de Biden, um candidato nada carismático, mas que conseguiu chegar em simultâneo a vários pontos do eleitorado necessário para os democratas vencessem a eleição.

Em diversos momentos da campanha eleitoral — de forma mais notável nos debates entre Trump e Biden —, houve um comentário recorrente entre os analistas: à falta de melhor qualidade, Biden era o ser humano mais decente do debate. Pela forma de falar, pelos temas abordados, pela educação e pela postura no geral. Para uma parte considerável dos eleitores norte-americanos, o que esteve em jogo não foram dois programas políticos. Foram duas personalidades.

Joe Biden e Donald Trump distinguiram-se nos debates sobretudo pela postura

POOL/AFP via Getty Images

O próprio Biden já o tinha admitido, no dia em que foi formalmente nomeado candidato presidencial pelo Partido Democrata. “Esta uma eleição transformadora. Vai determinar o que a América vai ser durante muito, muito tempo. O carácter está no boletim, a compaixão está no boletim. A decência, a ciência, a democracia, estão todas no boletim”, disse Biden. “O atual Presidente envolveu a América nas trevas por muito tempo. Muita raiva. Muito medo. Muita divisão. Aqui e agora, dou-vos a minha palavra. Se me confiarem a Presidência, vou trazer ao de cima o melhor de nós, não o pior.”

As sondagens à boca das urnas esta terça-feira deixaram esta ideia bem clara. Para 24% dos eleitores, a escolha não foi feita com base nas qualidades do candidato em que votaram, mas como voto de protesto contra o oponente. Entre estes, 67% disseram ter votado em Biden e apenas 30% em Trump. Já no que toca aos que votaram num candidato pela suas características (71%), aí a maioria escolheu Donald Trump.

Com efeito, durante a campanha, Joe Biden não foi particularmente expansivo na apresentação das suas ideias concretas para a governação. Toda a campanha foi um grande argumento à volta do facto de Biden ser um Presidente mais apresentável do que Trump, capaz de, após quatro anos de caos, devolver normalidade à Casa Branca. No primeiro comício que protagonizou durante a campanha de Biden, Barack Obama tinha sublinhado essa qualidade do democrata: “Com o Joe e a Kamala ao leme, não vão ter de pensar nas coisas loucas que eles disserem todos os dias. Vão poder seguir com as vossas vidas sabendo que o Presidente não vai retweetar teorias da conspiração sobre cabalas secretas que controlam o mundo ou sobre os SEAL’s não terem mesmo matado o Bin Laden”.

Ou, como foi repetido uma e outra vez na imprensa norte-americana ao longo do último ano, Joe Biden regressa a Washington com um objetivo: tornar a Casa Branca aborrecida outra vez.

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