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O hospital de Santo António, no Porto, tem uma ala exclusiva para tratar doentes de Covid-19

Octavio Passos/Observador

O hospital de Santo António, no Porto, tem uma ala exclusiva para tratar doentes de Covid-19

Octavio Passos/Observador

Médicos dizem que sistema que regista casos de Covid-19 tem muitas falhas. "É um pesadelo burocrático."

DGS vai fazer a distribuição geográfica de casos apenas com base no sistema de doenças infecciosas. Médicos falam em falhas e "pesadelo burocrático". No S. João desistiram de registar casos suspeitos.

Foi o crescimento repentino do número de casos de Covid-19 registados no concelho do Porto que fez soar o alarme. No domingo, o relatório da DGS registava 417 casos naquele município. Na segunda-feira, o número disparou para 941 mais do dobro do dia anterior. Esta terça-feira, porém, o número voltou a cair, para 462.

O problema? Uma duplicação de dados devido à multiplicação de fontes de informação.

Para o resolver, a Direção-Geral da Saúde decidiu que, a partir de agora, apenas vão ser considerados os dados reportados através do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE) — o sistema informático onde os médicos devem registar todos os casos — confirmados ou suspeitos — de doenças infecciosas. Mas esta decisão tem o potencial de pôr ainda mais em causa a fiabilidade dos dados, de acordo com infecciologistas com conhecimento do funcionamento do sistema ouvidos pelo Observador.

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Na conferência de imprensa diária desta terça-feira, o sub-diretor-geral da Saúde, Diogo Cruz, explicou o que se tinha passado na segunda-feira e confirmou a revelação que havia sido feita, horas antes, pelo Jornal de Notícias: tinha havido uma duplicação da contagem dos casos de Covid-19 no concelho do Porto, resultado da soma indevida dos dados reportados diretamente pelos médicos através do SINAVE e das informações comunicadas à DGS a nível regional pela Administração Regional da Saúde (ARS) do Norte.

“Houve aqui uma tentativa de dar o maior número de números possível e houve duplicação de valores no número de ontem, porque houve uma confluência entre os dados reportados da região e os dados reportados via SINAVE”, admitiu Diogo Cruz, para logo acrescentar que “o boletim, a partir de hoje, vai ter apenas dados do SINAVE, para não haver duplicações“.

Isto significa, como admitiu o próprio responsável, que dificilmente existirão, daqui para a frente, dados completos sobre a distribuição geográfica dos casos de Covid-19 em Portugal. “Vamos ter, eventualmente, alguns missings [dados em falta] que não estejam no SINAVE“, assumiu Diogo Cruz, sublinhando que o número de casos com informação completa sobre o local de residência e outros detalhes deverá rondar os 70% do número total de casos confirmados.

A pandemia da Covid-19 está a pôr à prova a capacidade de resposta dos hospitais

ANDREA FASANI/EPA

Isto acontece porque o SINAVE é um sistema de notificação ativado pelos médicos e nele fica, automaticamente, registada a região onde é feita essa notificação. “Tem sempre o sítio onde foi notificado pelo médico”, mas “pode não ter exatamente onde mora” — sobretudo nas “grandes zonas urbanas”, explicou o sub-diretor-geral da Saúde.

Ao Observador, a DGS esclareceu que são os dados por concelho que voltaram “a ter por base os registos da plataforma SINAVE, deixando de depender da informação reportada pelas Administrações Regionais de Saúde” — mesmo que isto queira dizer que os dados divulgados pela DGS não acompanhem as informações reportadas pelas autarquias nem sejam relativos ao número total de casos.

Isto significa que estão agora [nesta terça-feira] disponíveis 78% dos dados por concelho, que são os que foram registados na plataforma SINAVE. Os restantes serão colocados nas atualizações subsequentes, quando for feita essa notificação”, detalha a DGS, assegurando que “estas mudanças em nada alteram os dados nacionais, que estão na primeira página do boletim e que estão e têm estado corretos”.

Reportar um caso é como preencher o IRS. Mas pior

É preciso recuar onze anos para encontrar as origens do SINAVE. Em 2009, com Ana Jorge como ministra da Saúde, o Governo decidiu criar um “sistema de vigilância em saúde pública, que identifica situações de risco, recolhe, atualiza, analisa e divulga os dados relativos a doenças transmissíveis e outros riscos em saúde pública“.

Mais tarde, foi aprovada a lista das doenças transmissíveis de notificação obrigatória. Trata-se de uma lista de mais de meia centena de doenças cuja eventual disseminação as autoridades de saúde querem ter permanentemente controlada. Isto implica que todos os médicos portugueses que se deparem com um caso suspeito de qualquer uma destas doenças têm a obrigação de reportar esta suspeita através do SINAVE.

"Houve aqui uma tentativa de dar o maior número de números possível e houve duplicação de valores no número de ontem, porque houve uma confluência entre os dados reportados da região e os dados reportados via SINAVE"
Diogo Cruz, sub-diretor-geral da Saúde

Ao sistema têm acesso os médicos e os laboratórios. É a estes segundos que cabe validar ou não validar cada um dos casos consoante o resultado dos testes complementares que venham a ser feitos depois da identificação do caso suspeito.

Entre as doenças que constam da lista incluem-se o botulismo, a brucelose, a cólera, a dengue, a difteria, a lepra, a doença dos legionários, o ébola, as hepatites A, B, C e E, a infeção pelo vírus zika, a malária, a peste, a raiva, a tuberculose, a varíola, e infeções sexualmente transmissíveis como a sida, a sífilis ou a gonorreia. A esta lista a DGS juntou recentemente a Covid-19.

Na teoria, isto quer dizer que todos os casos suspeitos de Covid-19 têm de ser reportados no SINAVE e posteriormente validados ou não como confirmados, dependendo de se o teste dá positivo ou negativo. E é a partir dos dados do SINAVE que a DGS espera compilar as estatísticas diárias sobre a infeção pelo coronavírus.

Na prática, contudo, este sistema pode vir a revelar-se ineficaz na tarefa de recolher todos os dados sobre a pandemia. Isto porque, como afirmam infecciologistas ouvidos pelo Observador, há, no mínimo, muito espaço para melhorar a forma como os casos são reportados através do sistema.

O serviço de infecciologia do hospital Curry Cabral, em Lisboa, estão internados vários doentes com Covid-19

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Jaime Nina, especialista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e médico infecciologista do hospital Egas Moniz, em Lisboa, classifica o SINAVE como “um pesadelo burocrático” e teme as consequências de colocar toda a estatística da Covid-19 nas mãos do sistema. “Colocar tudo dependente do SINAVE significa que vamos deixar de ter dados“, vaticina.

Segundo explica Jaime Nina, habituado a trabalhar com o SINAVE para reportar casos de várias doenças contagiosas, “está tudo dependente de as coisas informáticas funcionarem perfeitamente, e não costumam funcionar nos hospitais“. “Desde que começou a informatização do meu hospital, não houve um único dia em que funcionasse tudo. Quando funcionam as receitas, não funcionam as análises, quando funcionam as análises, não funciona a o SINAVE”, exemplifica o médico.

O infecciologista faz uma comparação: “É como quando preenchemos o IRS. Mas o IRS é mais rápido, deve ter 100 vezes a capacidade da rede do Ministério da Saúde. E mesmo que haja um erro, aquilo diz-nos qual é o erro. O SINAVE bloqueia e, se houver um erro, não sabemos qual é”.

Registar apenas os positivos para não perder tempo

No hospital de São João, no Porto, que está desde o primeiro dia na linha da frente no combate à Covid-19, os médicos já desistiram de reportar os casos suspeitos no SINAVE, diz ao Observador a médica infecciologista Margarida Tavares.

"É como quando preenchemos o IRS. Mas o IRS é mais rápido, deve ter 100 vezes a capacidade da rede do Ministério da Saúde"
Jaime Nina, médico infecciologista

“No início, declarávamos quando tínhamos um caso suspeito. Todo e qualquer médico que via um caso suspeito fazia a declaração no SINAVE. Mas, dado o volume gigantesco que esta questão assumiu, nós e muitos outros deixámos de ter capacidade. Quando tínhamos cento e muitos doentes a serem testados por dia no ambulatório, revelava-se impraticável, visto que é um ato médico, fazer a notificação no momento da colheita. Sei que não era a situação ideal, mas nós aqui assumimos que só íamos declarar os casos positivos“, revela Margarida Tavares.

Ou seja, continua Margarida Tavares, “no dia seguinte de manhã, com base nos resultados dos testes, só notificamos os positivos”.

E mesmo este processo só é feito graças à “generosidade gigantesca” de uma série de médicos de medicina geral e familiar e de saúde pública que se voluntariaram para ir fazer este processo. “Vieram em nosso auxílio e fazem as nossas declarações, porque nós não temos tempo“, conta a infecciologista.

"Mas, dado o volume gigantesco que esta questão assumiu, nós e muitos outros deixámos de ter capacidade. (...) Sei que não era a situação ideal, mas nós aqui assumimos que só íamos declarar os casos positivos"
Margarida Tavares, médica infecciologista

Novamente, o tempo é o principal inimigo da informação detalhada. Como explica Margarida Tavares, a notificação de um caso no SINAVE é um processo longo, que inclui o preenchimento de dezenas de campos num formulário. “Faz imensas perguntas. Todos os sintomas, a data de início dos sintomas, etc. Admito que, com a dificuldade de tempo, as pessoas privilegiem o cuidado do doente.”

Por isso, assume a médica, há campos que são deixados por preencher e há informações que não são relatadas com toda a precisão. “Informações como a data de início dos sintomas, por exemplo, admito que podem ser informações que podem ser menos precisas“, diz Margarida Tavares.

“Além disso, trata-se também de saber se estão a ser notificados todos os casos. Porque há subnotificação. Não consigo garantir que, dado o enorme volume, cada vez que se observa um doente é feita a notificação”, assume a médica do hospital de São João.

Fernando Maltez, diretor do serviço de doenças infeciosas do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, admite também o problema da subnotificação, mas considera que é uma realidade que “existe em todo o mundo”.

“A subnotificação irá haver sempre, qualquer que seja o sistema. Os médicos estão muito assoberbados com o trabalho, normalmente os doentes são muitos e tiram-nos muito tempo. Por isso, há a tendência para descurar a notificação“, assume o responsável da infecciologia de outro dos hospitais na linha da frente do combate à Covid-19.

O hospital de São João, no Porto, foi o primeiro a receber doentes com Covid-19 em Portugal

Rui Oliveira/Observador

Jaime Nina vai mais longe e admite mesmo que “a esmagadora maioria” dos casos de Covid-19 vão acabar por não ser notificados no SINAVE, à semelhança do que acontece com praticamente todas as doenças infecciosas naquele sistema.

“É famosa a história, e eu vi os números, do ano em que o número de casos de hepatite B que tiveram alta no Santa Maria era superior ao número de casos notificados a nível nacional. Há uma subnotificação massiva. As autoridades têm tentado melhorar o sistema. Só que, em vez de o melhorarem do ponto de vista informático, tentam penalizar os profissionais quando não preenchido devidamente”, afirma o infecciologista.

Oportunidade para corrigir as falhas informáticas

Ao extenso procedimento para o qual os profissionais de saúde já não têm tempo juntam-se incontáveis problemas informáticos na plataforma, denunciam os infecciologistas ouvidos pelo Observador.

Uma pessoa abre o SINAVE e depois vai ver o doente, e volta para ver se já está aberto e não está. Três quartos de hora depois“, assegura Jaime Nina, lamentando que o Ministério da Saúde não tenha uma rede dedicada para que sistemas como este possam correr.

Prova da grande dificuldade em usar o sistema é a forma como os dados incluídos na plataforma dificilmente correspondem à realidade. “Se for a uma urgência grande, como a de São Francisco Xavier, Santa Maria ou São José [todos em Lisboa], vê sífilis todos os dias. Depois, vai ao total nacional, e o número de casos é residual.”

"Uma pessoa abre o SINAVE e depois vai ver o doente, e volta para ver se já está aberto e não está. Três quartos de hora depois"
Jaime Nina, médico infecciologista

No Porto, Margarida Tavares tem uma experiência semelhantes. “Muitas vezes, temos o serviço em baixo. Ontem estivemos muito tempo sem acesso ao SINAVE. Há vezes em que temos de voltar atrás e perdemos uma declaração inteira“, descreve a responsável.

Todos os médicos ouvidos pelo Observador reconhecem, porém, que a opção da DGS de recorrer exclusivamente aos dados do SINAVE pode ser uma oportunidade a aproveitar no sentido de melhorar a plataforma.

“Poderá sempre haver melhorias”, admite Fernando Maltez, sublinhando que seria útil a possibilidade de fazer “a notificação simplificada nestes casos“. Jaime Nina, por seu turno, apela ao Governo para que seja “reforçado o apoio informático nos hospitais” para ajudar os médicos com o processo. “Ou o Ministério consegue pôr um sistema informático melhor, ou consegue dar apoio informático, ou vai ser difícil ter os números corretos.”

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