“Mudar uma fralda é uma coisa técnica, ser pai não”

13 Fevereiro 20161.142

O pedopsiquiatra Joshua Sparrow defende a importância de os pediatras ouvirem os pais, partindo sempre do princípio que são eles "os maiores especialistas no que diz respeito aos seus filhos".

Joshua Sparrow é o diretor do Brazelton Touchpoints Center. Falámos com ele quando esteve em Portugal, em fevereiro de 2016. Republicamos este trabalho no dia da morte de Berry Brazelton, o homem que revolucionou a pediatria e cuja teoria e ensinamentos se explicam nesta entrevista.

Quem não carregou O Grande Livro da Criança do pediatra norte-americano T. Berry Brazelton debaixo do braço durante meses e não o leu de uma ponta à outra, quando a dúvida se instalava e o bebé teimava em fazer coisas que eram desconhecidas para os pais, ponha a mão no ar. Mas com cuidado, para não deixar cair o bebé… A teoria dos Touchpoints — que tem por base a definição de momentos-chave no desenvolvimento da criança — correu mundo e assim nasceu o Brazelton Touchpoints Center, dirigido por Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, professor em Harvard, que recentemente esteve em Lisboa para participar numa conferência organizada pela Fundação Brazelton/ Gomes-Pedro, Love Synapses.

A corrente defendida por Brazelton e Sparrow — e seguida em Portugal pelo pediatra Gomes-Pedro — assenta num pressuposto aparentemente simples de conceber, mas difícil de praticar. A de que são os pais os maiores conhecedores dos seus bebés e que os especialistas devem estar presentes para dar aconselhamento técnico e para apoiar os progenitores, passando-lhes a ideia de que eles têm as ferramentas necessárias para criarem os seus filhos. Para o resto, para as partes técnicas, estão lá os especialistas formados nas universidades.

Mas o que é da técnica e o que é do instinto e do senso comum? É aqui que as linhas se cruzam e podem complicar a vida de todos. Numa entrevista concedida ao Observador, Joshua Sparrow condensa numa frase tudo o que explicará a seguir: “Mudar uma fralda pode ser uma questão técnica, não há um milhão de formas diferentes de o fazer, mas ser pai não é”.

JoshuaSparrow

Joshua Sparrow é o diretor do Brazelton Touchpoints Center e presidente do Boston Children’s Hospital. Dá ainda aulas de psiquiatria em Harvard

– Se eu estivesse prestes a ser mãe pela primeira vez, o que deveria saber por parte do meu pediatra sobre o meu bebé?

O que nós defendemos é que o médico não deve colocar-se na posição de que é o detentor do conhecimento total que deve ser passado aos novos pais. A teoria dos Touchpoints identifica perguntas que é previsível que os pais tenham, por causa dos desafios que lhes serão apresentados no processo de se tornarem pais e durante o desenvolvimento da criança. Por exemplo, durante a gravidez, há o topuchpoint pré-natal. Uma pergunta muito comum, que a maioria dos pais colocam, principalmente no primeiro filho é: será que o meu bebé está bem? Querem saber disto muito intensamente.

A ideia desta abordagem é então co-construir, ou seja, fazer, juntamente com os pais, com que eles entendam o ser individual que é a criança que ali têm e sobre o que vai ser para eles tornarem-se pais.

"A última coisa que deve ser dita aos pais é: de facto, você não sabe nada sobre o seu filho e eu sei, porque eu sou o especialista. É por isso que a abordagem dos Touchpoints não é sobre o médico ter a crença de tem um campo de conhecimento que precisa de dar aos pais, mas sim ajudar os pais a descobrir que eles têm a capacidade de se tornarem nos pais que querem ser."
Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, diretor do Brazelton Touchpoints Center

Por isso, quando alguns pais perguntam, ‘será que o meu bebé vai estar bem?’, eles estão muito certos de que de facto o bebé está bem e ficam contentes por ouvir o médico dar-lhes essa garantia. Por vezes, eles têm uma razão para estar preocupados, pode ter havido um problema durante a gravidez, podem existir problemas de doenças genéticas na família, ou outras razões de preocupação e por isso as respostas são importantes.

Outra questão que os pais mais colocam é ‘Quem eu? Como é que eu vou ser pai? Como é que eu vou conseguir fazer isto?’. Essa é a pergunta que os pais colocam uma e outra vez, à medida que a criança cresce e se desenvolve e apresenta novos desafios.

A última coisa que deve ser dita aos pais é: de facto, você não sabe nada sobre o seu filho e eu sei, porque eu sou o especialista. É por isso que a abordagem dos Touchpoints não é sobre o médico ter a crença de que ele ou ela tem um campo de conhecimento que precisa de dar aos pais, mas sim ajudar os pais a descobrir que eles têm a capacidade de se tornarem nos pais que querem ser. Então, se a seguir os pais colocarem questões específicas sobre as quais querem aconselhamento, então o médico pode dar-lhes essa informação sem correr o risco de os pais se sentirem menos certos e menos confiantes de que conseguem ser pais. Essa é a ideia. Parece muito simples…

– Mas não é…

É difícil conseguir que qualquer profissional que trabalhe com a criança faça esta mudança. Eu vi isto por todos os Estados Unidos, vi isto em muitos outros países, em França, na China, em Portugal – em Portugal há muito amor e isso é muito importante e ajuda muito – mas é muito difícil fazer com que médicos, professores e enfermeiros sejam capazes de partilhar o seu conhecimento, a sua experiência, e ao mesmo tempo ouvir os pais e o conhecimento que os pais também têm, em vez de fazerem imposições.

Temos de reafirmar que os pais são os maiores especialistas no que diz respeito às suas crianças. Assim os pais vão sentir-se mais confiantes e mais competentes. O que aconteceu aos pais e à sua experiência? Nós interferimos com as fontes de onde os pais iam buscar conhecimento e substituímos isso por livros e programas de televisão. Há uma ansiedade de como ser o pai perfeito, e parte do problema é os pais acharem que não sabem ser pais, que não sabem fazer isto. E de que há alguém na internet que sabe.

– E porque é que isso acontece? Porque é que é tão difícil?

Durante muito tempo, na medicina, a primeira razão que se invocava era a de que não há tempo. Mas isso é um embuste. Porque para fazer isto não é preciso mais tempo, não se tem de fazer mais ou dizer mais, só é preciso ser diferente. As pessoas que escolhem profissões relacionadas com crianças não o fazem necessariamente porque querem trabalhar com pais. Os pais são muitas vezes vistos como um mal necessário, que tem de se tolerar se se quer trabalhar com crianças. Não se vai para pediatria a dizer ‘eu adoro pais, eu adoro trabalhar com pais’. Nem se escolhe ser professor por essa razão. E mais tarde descobre-se que ‘oh, as crianças têm pais que estão sempre com elas’ — a maioria, pelo menos — e agora terei de perceber como vou lidar com eles.

"O que aconteceu aos pais e à sua experiência? Nós interferimos com as fontes de onde os pais iam buscar conhecimento e substituímos isso por livros e programas de televisão. Há uma ansiedade de como ser o pai perfeito, e parte do problema é os pais acharem que não sabem ser pais, que não sabem fazer isto. E de que há alguém na internet que sabe."
Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, diretor do Brazelton Touchpoints Center

E isto não faz parte da matéria que se estuda nas universidades, nem nos estágios profissionais. Não é ensinado em nenhum curso que os pais mudam, que a gravidez começa a mudar os pais, que eles vão mudando à medida que a criança cresce, que há um desenvolvimento do adulto que passa por muitas mudanças nesta fase da vida. Isso pura e simplesmente não é falado. Por isso creio que, como os profissionais não têm esses conhecimento, sentem-se muitas vezes intimidados pelos pais. Lembro-me de quando comecei a trabalhar como pedopsiquiatra. Sentia que não sabia nada sobre nada. A criança não iria cobrar-me nada, na verdade, mas os pais tinham uma infinidade de perguntas que me colocavam e que me intimidavam, porque eu não sabia as respostas. Os pais colocam questões difíceis e os enfermeiros, os médicos e os professores nem sempre têm respostas para elas. E depois acontece que estes especialistas sentem que a sua identidade profissional depende do seu conhecimento e quando encontram um obstáculo e não têm a resposta certa isso pode causar um problema.

– Mas não são muitas vezes os pais que querem e pedem regras escritas para tudo, porque se sentem inseguros?

Bom, antes de mais a nossa ideia é a de que se um profissional cria uma relação de respeito com os pais, reconhecendo o poder e os recursos que os pais têm para serem os melhores pais, então esses pais estarão mais confortáveis para dizer ‘eu não sei mesmo o que fazer, preciso de um conselho, pode ajudar-me?’. E, quando se dá esse conselho, é mais provável que os pais o ouçam e o levem a sério. E que não recebam esses conselhos como uma crítica mas como encorajamento.

Também é verdade que uma das tendências da industrialização, pós-industriualização e digitalização é este esforço contínuo de querer tornar tarefas complexas, tarefas que variam muito, que requerem presença e flexibilidade, em tarefas técnicas e mecânicas. Há alguns problemas técnicos, de facto, como por exemplo, mudar uma fralda. Não há um milhão de maneiras para mudar uma fralda…

"Dar sempre 180 mililitros de sopa não é ser flexível, é não prestar atenção para reparar que o bebé está satisfeito aos 160 mililitros ou que ainda tem fome depois dos 180 mililitros. Isso não é estar presente nem é estar a aprender e a absorver a informação comportamental da criança."
Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, diretor do Brazelton Touchpoints Center

– Falemos da alimentação, por exemplo, da introdução dos alimentos sólidos. Há pessoas que saem do pediatra com uma lista exaustiva de como deve ser feita cada sopa e já conheci pessoas que trazem a medida, em mililitros, da quantidade de comida que devem oferecer à criança.

Há algumas coisas básicas que são importantes, que os pais devem saber, e essa informação não se deve sonegar. Mas a verdade é que esse tipo de informação é limitada a certas áreas. Essa história é boa, porque mostra como a indústria pediátrica retira o senso comum e a intuição dos pais, que devem saber o que fazer com o seu bebé. Podemos pensar ou sentir que o médico deve saber como fazer isto. Mas na verdade os pais vão sentir-se muito mais confiantes se perceberem que não é importante ter uma quantidade em mililitros de sopa para dar ao seu bebé — ia importar se estivéssemos a falar de um medicamento, mas se estamos a falar de sopa de batata, o seu bebé vai dizer-lhe o que precisa. Isso é o que queria dizer quando referia que o comportamento e desenvolvimento das crianças e adultos não é na sua maioria um problema técnico, nem mecânico, é adaptativo e complexo. E por isso o que é necessário é ter flexibilidade e estar presente. Dar sempre 180 mililitros de sopa não é ser flexível, é não prestar atenção para reparar que o bebé está satisfeito aos 160 mililitros ou que ainda tem fome depois dos 180 mililitros. Isso não é estar presente nem é estar a aprender e a absorver a informação comportamental da criança.

"Portanto, modo geral, educar uma criança, ser pai, é esse processo, difícil de explicar, mas que é muito importante. E é quando tentamos reduzir tudo a um problema técnico que falhamos."
Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, diretor do Brazelton Touchpoints Center

Um dos pontos centrais da teoria dos Touchpoints é a ideia de que se juntarmos o instinto, o conhecimento e a capacidade dos pais de estarem presentes e de observarem a criança e a capacidade que a criança tem, desde o nascimento, de dar informação através do seu comportamento acerca de quem ela é, das suas necessidades, daí retiraremos a maior parte da informação que necessitamos. O resto são áreas muito técnicas. Creio que, de certa forma, os pediatras saíram dessa zona técnica para fazerem asserções e afirmações sobre as quais não há necessariamente conhecimento científico que as apoie. Ou seja, não há forma de defender que 180 ml de sopa possa ser a quantidade ideal para toda e qualquer criança, porque isso vai variar não só de uma criança para a outra, como de um dia para o outro. Quando muito, pode ser uma estimativa. Se temos de dar estimativas ou aproximações, então é importante dizer aos pais, e fazê-los entender, que eles são capazes de perceber as necessidades do seu filho com o seu filho. Não têm de medir a sopa em mililitros, porque isso não os vai ajudar de todo.

– Mas porque é que isto acontece? Porque é que o médico dá uma lista e uma medida e não diz ‘veja o que ele quer, se quer mais ou menos’?

Creio que isso também acontece por causa da medicalização de coisas que não podem ser medicalizadas. Um bom exemplo disso é a amamentação. Durante séculos, em todas as culturas, os bebés eram amamentados. E bem. Nos anos 50, com o aparecimento dos leites artificiais, houve pessoas contratadas para dizer que, de acordo com a ciência, o leite artificial é melhor. Há uma história longa de coisas que a ciência achava certo e que depois reverteu o caminho. Dito isto, eu também não quero deitar fora o bebé com a água do banho, e claro que há muitas coisas como as vacinas, os antibióticos, as cadeirinhas dos carros…

Isso, vamos pegar no exemplo das cadeirinhas dos carros. Elas são uma forma excelente de proteção dos bebés quando eles estão nos automóveis, em viagem. Mas para os transportar fora dos carros, essas mesmas cadeiras podem interferir com a comunicação não verbal do corpo a corpo, do pele com pele, do contacto que as crianças precisam. Portanto, neste processo de industrialização, por vezes fazemos uma coisa acertada e depois essa coisa evolui para algo prejudicial. Quer isto dizer que não deveríamos ter cadeirinhas de transporte? Não. Mas temos de olhar para estas consequências, para estes efeitos secundários que acabam por acontecer.

"Um touchpoint é uma altura previsível do desenvolvimento humano em que, quando uma nova capacidade emerge, outra capacidade é perturbada. E muitas vezes é o sono o prejudicado. Outras vezes é a alimentação, noutras é o auto-controlo, a auto-regulação, e por isso há mais irritabilidade e necessidade de contacto físico."
Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, diretor do Brazelton Touchpoints Center

Outro exemplo que acontecia nas culturas mais tradicionais. O bebé era alimentado à mesa, com toda a gente presente, quando todos os outros estavam a comer. E então ele provava um bocadinho da comida que os adultos e as crianças mais velhas tinham no prato. Não creio que exista prova científica de que isto causava grandes problemas. Ora esta ideia de que deve ser introduzido um alimento sólido de cada vez, tem a ver com a possibilidade de a criança desenvolver uma alergia a um alimento e aí é mais fácil saber qual é esse alimento. Mas pode acontecer que, com tudo isto, tenhamos criado um ambiente em torno das crianças que aumenta os riscos de elas desenvolverem alergias. Sabemos que os esforços de higienização podem fazer com que as crianças não sejam expostas a suficientes corpos estranhos, que vão de facto protegê-las e fazer com que desenvolvam um sistema imunitário mais robusto. Durante algum tempo, a Academia Norte-americana de Pediatria recomendou às mulheres que não comessem amendoins durante a gravidez e o aleitamento, porque havia muitos casos de alergias aos amendoins. Muito recentemente, reverteram esta informação, alegando que ela poderá até ter piorado as coisas, fazendo aumentar a intolerância aos amendoins.

Se pensarmos bem sobre isto, concluímos que o desenvolvimento do sistema imunitário é um processo complexo e adaptativo, sobre o qual não se pode dar uma lista de tarefas aos pais. Não podemos dar uma lista e dizer, faça por expôr o seu filho a todos estes germes para ele desenvolver anticorpos. Temos é de dizer que devemos proporcionar às crianças experiências que as fortaleçam, que as ajudem a crescer e a torná-las mais fortes.

Portanto, modo geral, educar uma criança, ser pai, é esse processo, difícil de explicar, mas que é muito importante. E é quando tentamos reduzir tudo a um problema técnico que falhamos.

– Vamos falar do treino do sono? Houve uma grande polémica nos Estados Unidos, porque um pediatra de Nova Iorque defendia que às oito semanas o bebé deveria ser deixado sozinho no seu quarto das sete da noite às sete da manhã, chorasse ou não. A Academia Norte-americana de Pediatria insurgiu-se contra isto e o debate foi intenso. O que pensa disto?

O que é trágico nessa história é que na cultura euro-americana andamos nisto dos conselhos de especialistas em crianças desde o início do século XX. Já passámos por isto várias vezes, pelas teorias do sono e da amamentação a horas e programadas, em vez de serem a pedido, de acordo com as necessidades do bebé. Apresentam-se essas teorias como científicas e como conhecimento especializado. Eu acho que temos de ter muito cuidado com o que dizemos ser conhecimento científico. E se o dizemos, não o devemos impôr, não devemos dizer aos pais o que devem fazer nestas matérias. Podemos dizer ‘esta é a minha ideia, ou esta é a minha experiência, ou esta é a experiência que eu recolhi’, mas não podemos dizer que há clara evidência de que esta é a melhor e única maneira de o fazer.

"Se os pais souberem que o sono piorou porque o seu filho está a tentar andar, acabam por relaxar um pouco mais, sabem que passa… E até dormem melhor. Sabem que está tudo bem, que não fizeram nada de mal e que não há muito mais a fazer a não ser ter paciência, não ficar frustrado com o seu filho ou culpar-se."
Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, diretor do Brazelton Touchpoints Center

Na maioria das culturas no mundo inteiro, os bebés dormiam quando precisavam de dormir, acordavam quando precisavam de acordar, a maioria das vezes no colo da mãe. Durante muito tempo, em muitos sítios do mundo, os bebés andavam ao colo das mães, ou às costas, no sitio onde estão protegidos de quedas ou de se magoarem, onde têm a temperatura regulada, o ritmo cardíaco regulado e a mãe consegue sentir quando o bebé está perturbado, ou quando o bebé precisa de urinar, ou defecar, ou comer. O doutor Brazelton esteve com uma tribo indígena na Guatemala e outra no México, onde as mães colocavam os bebés à mama cerca de 80 vezes por dia! Eu sei que isso é provavelmente muito trabalho… [risos] Mas esses bebés nunca tinham cólicas, nunca bolsavam. E há muitas outras culturas onde estudos antropológicos mostram que, quando a tolerência para o sofrimento do bebé é muito baixa, quando à primeira pista que o bebé dá de que está em sofrimento a mãe põe o bebé na mama, não há problemas.

Não sou mulher e acho que não temos de interferir onde não temos direito de interferir, dizendo às mulheres o que têm de fazer com os seus corpos, mas também é importante dizer que também dá muito trabalho ter um bebé com cólicas. Porque começa às 3 semanas, acaba às doze, tem o seu maior pico às 8 e representa cerca de 3 horas por dia de choro inconsolável. Cabe à mulher decidir.

Com o sono é a mesma coisa. Eu creio que é uma decisão da família. Esta nova versão da antiga teoria que começou a emergir nos anos 20, do sono treinado, do choro não atendido, é em parte baseada na forma como as familias organizam a sua vida e de como organizam o trabalho.

– Mas o sono deve ser um assunto na consulta?

É sempre. Aliás, uma das ideias da teoria dos Touchpoints é a de antecipar problemas, e o sono é sempre um problema que surge, porque a rotina do sono é interrompida em muitos Touchpoints. Um Touchpoint é uma altura previsível do desenvolvimento humano em que, quando uma nova capacidade emerge, outra capacidade é perturbada. E muitas vezes é o sono o prejudicado. Outras vezes é a alimentação, noutras é o auto-controlo, a auto-regulação, e por isso há mais irritabilidade e necessidade de contacto físico, mas estas são tipicamente as áreas, até aos dois anos de idade, que ficam temporariamente desorganizadas quando uma nova capacidade surge. Então, um touchpoint é uma altura no tempo em que o médico ou a enfermeira devem conectar-se com a família.

Quando o sono se desorganiza, toda a família fica desorganizada, porque ficam todos muito cansados e muito irritados. Se os pais souberem que o sono piorou porque o seu filho está a tentar andar, acabam por relaxar um pouco mais, sabem que passa… E até dormem melhor. Sabem que está tudo bem, que não fizeram nada de mal e que não há muito mais a fazer a não ser ter paciência, não ficar frustrado com o seu filho ou culpar-se.

O mais conhecido dos livros de T. Berry Brazelton é editado em Portugal pela Presença

O mais conhecido dos livros de T. Berry Brazelton é editado em Portugal pela Presença

– Fui uma das pessoas que andaram com o livro do Dr. Brazelton para todo o lado. Um dia, mais um dos dias em que ao final do dia o meu filho estava super agitado e irritadiço, decidi seguir o conselho do livro, que explicava que era normal que tal acontecesse com as crianças. Dizia qualquer coisa assim: sente-se com ele no sofá e não faça nada. Quando chegar àquela hora do dia, não faça nada, dê só colo. E eu a essa hora o que fazia era dar banho, preparar o jantar, etc. Um dia sentei-me. E resultou. Ele acalmou-se, eu acalmei-me.

Esse exemplo é tão perfeito, porque toda a ideia por detrás da Fundação Brazelton é aliviar os pais do fardo e da ideia de culpa de que há só uma maneira de fazer isto, e esta é a forma certa de o fazer. Como dizia, tenho de dar banho ao bebé a esta hora e sabe que vai ser um desastre, se está cansada e irritada e o bebé está inconsolável, o que vai acontecer é que vão, os dois, passar por uma experiência miserável. O que interessa se não se dá banho naquele dia? É muito mais importante que a mãe e o bebé ultrapassem aqueles maus momentos sem chegarem ao desespero.

É tão importante ouvir um pai ou uma mãe dizer que precisou de ajuda para perceber que era ok só pegar no bebé e sentar-se com ele no sofá. Parece que é preciso permissão para saber que não tenho de ir pentear-lhe o cabelo, ou dobrar-lhe as roupas ou dar-lhe um banho e que se eu conseguir apenas manter-me calma e ficar com o bebé nesta altura em que ele não está a conseguir acalmar-se, acaba por ser bom. E provavelmente sentiu que tinha tido sucesso…

– E só me sentei! Foi fácil…

Mas é difícil fazê-lo, quando o que as pessoas pensam é que têm de consertar aquele comportamento, de resolver, de fazer alguma coisa. Parte da razão por que isto é tão importante é que os pais acabam por ser mais afectuosos a serem pais e a criarem um bebé quando sentem que sabem o que estão a fazer e que são bons a fazê-lo. As crianças precisam de sentir confiança nos seus pais, precisam que eles sejam previsíveis e de confiança. Precisam de saber que os pais são o seu chão. E são. E se o resto do mundo, se os professores ou os médicos dizem que tu não sabes o que estás a fazer, que não és muito bom a fazer isto, isso vai passar para a criança e isso é perturbador para ela. As crianças estão a aprender quem são os pais, se são de confiança, se podem contar com eles. E quando eles estão agitados ou perturbados vão ter com os pais sabendo que no mundo há pelo menos uma pessoa que estará lá para eles.

"É tão importante ouvir um pai ou uma mãe dizer que precisou de ajuda para perceber que era ok só pegar no bebé e sentar-se com ele no sofá. Parece que é preciso permissão para saber que não tenho de ir pentear-lhe o cabelo, ou dobrar-lhe as roupas ou dar-lhe um banho e que se eu conseguir apenas manter-me calma e ficar com o bebé nesta altura em que ele não está a conseguir acalmar-se, acaba por ser bom."
Joshua Sparrow, pedopsiquiatra, diretor do Brazelton Touchpoints Center

Tem havido tanta discussão sobre os males que podem causar às crianças esta educação de horários instituídos, baseada numa agenda. Não tenho certeza de ser possível provar a relação causa-efeito de não responder a uma criança que está a chorar durante o sono, mas para mim isso não é muito diferente do conceito de negligência. E a negligência, isso sim, está provado, prejudica o desenvolvimento das crianças.

Os bebés nem sempre conseguem confortar-se a eles próprios. É por isso que precisam do adulto para saber como o fazer, fazendo-o. E muitas vezes, quando os bebés estão em stress e o stress se mantém e não é atendido, então sim, há interferências com o desenvolvimento saudável do cérebro.

– Se o bebé chora nós vamos. É isso?

Eu acredito que é uma escolha dos pais, mas os pais devem saber no que estão a meter-se. Se os pais fazem todo o trabalho de conforto pelo bebé o bebé vai esperar que sejam sempre eles a fazê-lo. E se calhar vai demorar mais tempo a desenvolver uma forma de o fazer sozinho. Se não fizermos nada pelo bebé, não creio que ele vá necessariamente aprender a autoconfortar-se, mesmo que se cale. Porque ele precisa de aprender com os pais. Mas há um espectro enorme de escolhas.

Há diferentes graus de desconforto e irritabilidade dos bebés. É como a conversa dos mililitros de sopa. Antes de ir a correr tirar o bebé do berço e pegá-lo ao colo devemos pensar: ‘A que soa este choro? Será que tipo de choro?’. Dá para perceber pelo choro, pela cara do bebé se ele precisa de facto de ser pegado ao colo, porque está a precisar do contacto físico, se precisa de ser alimentado – e às 8 semanas, das 19h00 às 7h00 eles precisam de ser alimentados de certeza. Portanto os pais têm de ir ao pé do bebé, olhar e perceber o que se está a passar, para tomar uma decisão. E pegando o bebé ao colo, acalmando-o, vão perceber que o bebé começa a relaxar e se calhar nessa altura podem pousá-lo. Ele pode voltar a chorar, mas se calhar chora menos e nessa altura podemos colocar uma mão nas costas do bebé e dizer ‘eu fico aqui contigo, mas tu também consegues fazer isto sozinho, eu sei que consegues’. Nesta altura eles vão ter de fazer alguma coisa por eles próprios, algum autocoforto, mas não estamos a abandoná-los, eles sabem que estamos ali, sentem-nos, ouvem-nos. E continuam a saber que nós somos os pais em quem eles podem confiar e que os vamos confortar em alturas de stress.

– A verdade é que mesmo recebendo instruções para que o bebé passe aos seis meses para um quarto sozinho ou de que nem pensar em trazer o bebé para a cama dos pais, depois as realidades das casas são diferentes e quantas vezes ouvimos: “Ah, ele vem para a nossa cama sempre. E acaba por ficar lá porque já estamos todos cansados…”

O que isso significa é que, em última análise, esses pediatras que têm uma série de regras que tentam impor, acabam por minar a sua autoridade aos olhos dos pais. Porque os pais percebem que aquilo não está a funcionar e de facto não é isto que está a acontecer no seio daquela família.

Os pediatras perdem a autoridade quando fazem esse tipo de afirmações nessa área. Há coisas em que é importante dizer ‘isto é assim’; noutras áreas devem apenas dar conselhos e partilhar experiências. Podem dizer, esta é uma área em que eu posso dizer-lhe o que acho, mas vocês vão ter de perceber o que resulta melhor na vossa família.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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