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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O escorpião, as crises e o envelope discreto. O Estado da Nação de António Costa e do Governo /premium

Quatro horas e meia. Quatro-horas-e-meia de um longo debate em que o primeiro-ministro perdeu ministros, torceu o nariz ao Bloco e recorreu ao gabinete de apoio para preparar o contra-ataque.

“Muito bem”, aprovou António Costa, visivelmente satisfeito depois de ouvir a intervenção com que o seu ministro adjunto fechou o debate sobre o estado da Nação. Siza Vieira falou, em tom monocórdico, mas sempre de improviso, sobre as alterações ao código laboral e Costa acenou com agrado; também disse que seguir um caminho diferente ao da “geringonça” teria “um sentido oposto ao que foi percorrido”, e o primeiro-ministro voltou a apoiar. Depois, o ministro-adjunto desceu do púlpito e voltou a sentar-se na bancada do Governo.

Foi a primeira vez, desde que o Governo está em funções, que Augusto Santos Silva não assumiu as honras da casa para concluir um dos mais importantes debates em que o executivo participa. A mudança de estratégia acontece poucos dias depois de o número dois de António Costa ter elevado a fasquia que permite uma eventual renovação da “geringonça”, com declarações que obrigaram o primeiro-ministro a anular eventuais danos na relação com os parceiros à sua esquerda.

Siza Vieira sentou-se e António Costa deixou o lugar ao centro da bancada para cumprimentar o ministro-adjunto. Ainda trocou umas palavras de circunstância com alguns ministros e deixou o plenário quatro horas e meia depois do início do debate. Pelo meio da maratona que encerra o ano parlamentar, houve expressões de surpresa do primeiro-ministro, alguns sorrisos, poucas gargalhadas — e, sim, frutos secos para repor energias. Este é o estado da nação com uma lente apontada ao chefe do Governo.

Santos e Vieira da Silva: gestão de crises, S.A.

O discurso improvisado de Siza Vieira durou pouco mais de dez minutos. Durante esse tempo, António Costa quase não desviou o olhar do relógio que lhe indicava a contagem decrescente da intervenção do seu braço-direito no Governo — como, aliás, aconteceu durante a maior parte do debate. Exceção, só mesmo quando Costa era surpreendido por um número ou quando se animava com uma passagem dos deputados.

Heloísa Apolónia foi das poucas a arrancar Costa do seu estado de contemplação, quando acusou o Governo de se comprometer com um aumento de quatro mil milhões de euros em gastos com a Defesa para responder às exigências de Donald Trump e da NATO. “Não, não”, apressou-se o primeiro-ministro a dizer. Mas, à cautela, recorreu de imediato ao gabinete de apoio.

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Trocou algumas palavras com Pedro Nuno Santos, sentado à sua esquerda, e o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares recorreu a José Azeredo Lopes, dois lugares ao lado e os três entraram num debate paralelo. Foi Heloísa Apolónia quem trouxe o chefe de Governo de volta ao estado da Nação. “Sr. primeiro-ministro?!”, atirou a deputada d’Os Verdes.

Costa voltou a focar-se na deputada enquanto, na bancada do Governo, o gabinete de apoio completava a sua missão. O ministro da Defesa rabiscou umas notas num papel que passou a Pedro Nuno Santos. O secretário de Estado confirmou os dados e passou-os a António Costa.

Dessa vez, Mariana Vieira da Silva não interveio. Mas a secretária de Estado adjunta do primeiro-ministro entraria em ação quando o líder parlamentar do CDS falou numa “nação que vive em dupla austeridade e sem troika”.

Nuno Magalhães já tinha acabado de falar há alguns segundos e António Costa não se levanta para responder. Três segundos, quatro, sete…. Mariana Vieira da Silva lá estica o braço e deixa uma folha à frente do primeiro-ministro. Costa passa os olhos pelas anotações e levanta-se, aperta o botão do casaco e junta as mãos em frente à cintura — já tem mote para o contra-ataque: o CDS, diz o chefe de Governo, “ficou cativo de 2016 e não deu conta que o ano de 2017 foi um recorde nas descativações”. O PS aplaude. Ninguém repara que esse recorde foi conseguido porque 2017 foi também ano recorde de cativações iniciais (1880 milhões de euros, dos quais acabaram cativados “apenas” 556). Sucesso para o gabinete de gestão de crises do primeiro-ministro.

Telemóvel, computador e o envelope discreto: os salva-vidas do Governo

Convenhamos, é natural que nas mais de quatro horas que dura um debate sobre o estado da Nação haja momentos de ausência. Uma solução é sair da sala. Foi o que fez Azeredo Lopes, uma hora depois do arranque das intervenções (o Observador só se apercebeu do regresso do ministro da Defesa 40 minutos mais tarde), e também Augusto Santos Silva. Outra solução é recorrer às tecnologias.

A dado momento, mais de metade dos membros do Governo estão sentados na bancada sem que estejam, de facto, presentes no debate. Há telemóveis na mão dos ministros, há ecrãs de computadores abertos e os deputados de cada um das bancadas continuam a fazer as suas intervenções. Mas poucos prestam atenção.

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Mariana Vieira da Silva, José Azeredo Lopes e Maria Manuela Leitão Marques juntam-se à volta de um iPad e ficam longos minutos a trocar impressões. Num dos extremos da bancada do executivo, António Capoulas Santos continua de rosto baixo. Já tinha passado mais de uma hora e meia desde o início do debate quando o ministro da Agricultura decide acompanhar as intervenções. A bola estava em Telmo Correia, que nesse momento antecipava maus ventos no horizonte. “Cada cabeça sua sentença, a coisa vai correr mal. Ai vai, vai! E quem pagará as fatura somos nós todos”, anunciava o deputado do CDS.

E os frutos secos? Também houve, e também eles ajudaram a reunir energias para aguentar o resto do debate. Fernando Negrão estava no púlpito e animou uma manhã de discussões mornas. O líder da bancada do PSD comparou a geringonça a um “escorpião” — o animal que “não resiste a fazer mal quando pode e promete fazer bem” — e conseguiu arrancar uma gargalhada ao primeiro-ministro; também falou sobre o assalto a Tancos e acusou a maioria parlamentar de estar “esgotada”. As referências do social-democrata provocam apartes constantes da bancada do PS. É nesse momento que Pedro Nuno Santos avança.

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São 12h27, o debate começou há quase três horas. Uma funcionária parlamentar aproxima-se do secretário de Estado. Traz um envelope na mão e pousa-o junto ao secretário de Estado. Onde é que já vimos isto? O socialista abre o envelope, recolhe parte do conteúdo e leva a mão à boca. Daí a uns minutos, Mariana Vieira da Silva fará o mesmo. É o combustível que carrega alguns membros até ao final do debate. Faltavam duas horas de intervenções. O entra e sai dos membros do Governo continua.

António Costa. O trejeito para o Bloco e a “piada” de Negrão

Costa não arreda pé. Passeia os olhos pelas bancadas, troca impressões com o ministro dos Negócios Estrangeiros, à sua direita, tira notas e, pontualmente, reage a uma ou outra intervenção. Foi assim quando Catarina Martins disse que Merkel se aliou com a “extrema direita” para assegurar a viabilidade do seu Governo.

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Aí, o primeiro-ministro abre os olhos, surpreendido com a formulação. Mas as palavras do Bloco de Esquerda voltariam a provocar a reação de António Costa. Como quando Mariana Mortágua disse que as opções do Governo em matéria de Serviço Nacional de Saúde tornaram o setor mais “permeável” aos negócios dos privados. Costa faz um trejeito e abana a cabeça. Não gostou do comentário da bloquista.

O melhor ainda estava para vir. A reação “rir a bandeiras despregadas” do chefe do Governo acontece quando Fernando Negrão está no púlpito. Mais que a metáfora do escorpião, Costa diverte-se quando o líder da bancada do PSD tenta pôr o dedo na ferida, referindo-se às contradições entre o ministro dos Negócios Estrangeiros e o primeiro-ministro sobre as exigências de um novo acordo à esquerda. “Só haverá nova geringonça”, antecipa Negrão, “se o PS deixar a União Europeia ou abandonar a NATO”. E continua: “Senhor primeiro-ministro, o seu ministro [Augusto Santos Silva, número dois do Governo] pôs a sua tão amada solução governativa nos cuidados intensivos.”

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Costa leva a mão à testa e ri, e ri, e continua a rir. Depois, pega no telefone e perde-se numa conversa — mais uma — de alguns minutos com Carlos César. O assunto ficará entre os dois. Depois, foi a vez de o líder da bancada parlamentar do PS subir ao púlpito, dividir “sucessos” com os parceiros da esquerda e sublinhar que as “responsabilidades” também se dividiram entre o PS, o Bloco, o PCP e Os Verdes.  “Nem tudo o que fizemos foi tudo quanto havia a fazer, nem tudo o que fizemos foi bem feito”, diz Carlos César.

Está aí a prova do algodão: aquele que se previa ser um teste à resistência da geringonça já vai avançado e António Costa já percebeu que a sua solução de Governo pode abanar, mas não chega a cair.

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