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Há muitos novos cuidados nos restaurantes que reabriram portas esta segunda-feira

Rui Oliveira/Observador

Há muitos novos cuidados nos restaurantes que reabriram portas esta segunda-feira

Rui Oliveira/Observador

Uma ministra e um comentador entraram num restaurante. Em boa verdade foi em dois: episódios do dia em que voltámos a ir almoçar fora /premium

  • Texto de Maria Martinho e Mauro Gonçalves, fotografia de Rui Oliveira e Filipe Amorim

Ao fim de dois meses, acabou o jejum. Mas comer fora em tempos de pandemia é uma nova experiência. Passámos por dois restaurantes, em Lisboa e no Porto, e encontrámos clientes especiais.

Na cozinha, não há pontos em comum — um obedece cegamente à comida tipicamente italiana, o outro rege-se pela mais tradicional gastronomia portuguesa. Contudo, ambos viram caras já conhecidas sentarem-se à mesa neste dia de reabertura (tiradas as máscaras, de outra forma é difícil reconhecer até os rostos mais familiares). A norte, o político/comentador/advogado António Lobo Xavier reservou o seu lugar e apareceu com mais três amigos para almoçar. Na capital, a ministra Mariana Vieira da Silva quis dar o exemplo daquilo a que chamou um “regresso à normalidade”.

Passaram cerca de dois meses desde que o estado de emergência ditou o encerramento temporário dos restaurantes. Muitos reorganizaram-se para trabalhar à porta fechada e assim assegurar o mínimo de faturação. Foi o que fizeram o Memoria, em Lisboa, e o Rogério do Redondo, no Porto, dois negócios que respiraram fundo esta segunda-feira, dia em que a segunda fase do plano de desconfinamento decretou a abertura do setor. E logo ambos com estas visitas conhecidas.

Máscaras à discrição, uma campainha de 20 em 20 minutos para desinfetar as mãos e uma ministra à mesa: a reabertura do Memoria

A meia hora de reabrir a porta, o restaurante está em alvoroço. Chegou um carregamento de lenha, cena inusitada porém indispensável, já que as pizzas não se cozem sozinhas. Os individuais descartáveis também acabaram de chegar, trazem o menu de base italiana já impresso, opção bastante conveniente nos dias que correm. Do lado de fora, Vasco Raposo, um dos proprietários do Memoria, volta a expor a ementa. O que até esta segunda-feira não era um hábito, rapidamente poderá ser assumido como a nova rotina para o setor da restauração.

“Esta vai passar a ser a realidade dos nossos restaurantes”, indica o empresário ao Observador, fazendo referência aos gastos de “vários milhares de euros” em equipamento de proteção e limpeza, não só neste, mas também nos restantes dois estabelecimentos do grupo Non Basta. Dos seis funcionários em lay-off, quatro voltaram para a reabertura. Neste momento, há 15 pessoas a trabalhar no Memoria, a maioria nunca chegou a parar, para responder aos pedidos de entregas e take away.

À vista dos clientes, no Memoria, o trabalho na cozinha é feito de máscara. O uso de luvas é reservado a algumas tarefas apenas

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Ao meio-dia, hora de abertura, o sistema contabilizava 15 reservas para este primeiro dia, entre almoço e jantar. Dos 68 lugares sentados, a lotação está agora reduzida a um número máximo de 40 pessoas e nunca mais de seis por grupo. A máscara é obrigatória para todos os funcionários — tal como o uso de luvas em tarefas específicas e de viseira para os que atendem na sala. Aos clientes, o seu uso é apenas recomendado. “Vamos ter uma campainha a tocar de 20 em 20 minutos. Sempre que tocar, toda a gente desinfeta as mãos”, assinala o responsável.

Inaugurado em junho do ano passado, o Memoria está virado para o Jardim da Parada, um dos corações do bairro de Campo de Ourique, em Lisboa. Também o quiosque aproveitou a luz verde do Governo para voltar a montar a concorrida esplanada. A julgar pelo movimento da última manhã, há coisas que a pandemia não muda. Contudo, a Covid-19 teve o efeito contrário sobre o mais proeminente projeto deste grupo de restauração português — o quarto restaurante tinha data prevista para abrir dia 1 de abril, na Avenida da República. Continua fechado, à espera de melhores dias.

Empregados com máscaras e distâncias de dois metros. As medidas de segurança para a reabertura dos restaurantes

Com o aproximar da uma da tarde, chegam os primeiros clientes — dois, claramente habituais pela familiaridade com que interagiram com os funcionários. “Vamos aprender a sorrir com os olhos”, admite Michella de Diego, gerente do espaço. A prioridade parece estar alinhada com a de Vasco, que fala em dar aos clientes a “experiência de sempre”, o menos condicionada possível pelas precauções pós-pandemia.

Entre o bairro e o mundo, tem sido sobretudo o primeiro a encher estas mesas, agora menos e mais espaçadas. “Cerca de 70% dos clientes são daqui de Campo de Ourique”, revela Vasco. Mas o turismo também prometia, não fosse o novo coronavírus ter vindo estragar os planos de internacionalização. O Memoria não ia a lado nenhum, mas depois de a CNN Travel o ter elegido como um dos 20 melhores novos restaurantes do último ano (a amostra era mundial), o verão de 2020 já se avizinhava quente.

Almoçar fora: afinal o que mudou?

O serviço mudou — mesas e cadeiras são desinfetadas já na presença dos clientes, talheres e guardanapo chegam dentro de bolsas de papel e, sempre que possível, todos os elementos são postos na mesa com recurso a pinças. Entradas, pizzas, massas e sobremesas — está tudo no individual de papel, posto debaixo do prato. Tudo, menos as bebidas. Para isso, existe um QR Code que dá acesso à carta diretamente do telemóvel. Mas porque haverá sempre meia dúzia de aparelhos (ou utilizadores) inabilitados, a velha certa de cartão pode reaparecer ocasionalmente. É deixada em cima da mesa, com uma pinça, e, se usada em consciência, mantida intocada até ordem de recolha.

Não há volta a dar: a imagem de quando se entra num restaurante mudou. Por aqui, fazem falta as mesas já postas, os pratos, copos e talheres à vista nos aparadores, e não dentro de caixas fechadas, e ainda a facilidade em interagir com os outros. Comunicar ficou mais difícil. Abafadas pela máscara, as palavras circulam a custo, muita vezes entre os próprios funcionários. No campeonato das imagens às quais dificilmente nos habituaremos, está a de um pizzaiollo de volta do forno com uma máscara cirúrgica na cara.

Na sala, as mesas são limpas à frente dos clientes e a mesa posta com medidas de segurança reforçadas

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

É no terraço, e num outro espaço semiaberto, que está a maioria dos lugares. Ao sol e já sem a máscara na cara, a refeição parece retomar a descontração de outros tempos. Pelas 14 horas, a uma hora de encerrar, para só voltar a reabrir às sete da tarde, a casa fica composta.

Mariana Vieira da Silva. Uma ministra ao almoço, mas de olho no jantar

Entre os adeptos do almoço tardio, encontrámos Mariana Vieira da Silva, acompanhada por alguns colegas de trabalho. A dois passos do escritório, que é como quem diz da Presidência do Conselho de Ministros, a ministra de Estado e da Presidência aproveitou o dia um da segunda fase do plano de desconfinamento para matar saudades da ementa italiana.

“Hoje é dia de todos os que podem darem um sinal de regresso à normalidade a um setor que é muito importante em Portugal. É isso que aqui estamos a fazer, com toda a segurança”, afirmou a ministra, depois de se ter levantado e voltado a colocar a máscara para falar com o Observador. “Entre reuniões, escolhi um restaurante do bairro”, explica.

O plano traçado pelo Governo para a retoma gradual de diferentes setores económicos segue sem desvios, duas semanas depois de ter sido acionado. Mariana Vieira da Silva reforçou que “o processo de retirada de medidas é mais difícil”, mas também a importância de “reagir à pandemia” e de “estimular as pessoas a, cumprindo as regras, fazer a sua vida”.

Mariana Vieira da Silva, ministra de Estado e da Presidência, escolheu o Memoria para almoçar esta segunda-feira

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Ninguém tem dúvidas de que a resposta dos portugueses foi exemplar. Toda a gente soube qual era o momento de estar em casa. Agora, todos sabem que é momento de ir voltando. É um processo lento e gradual”, referiu. Salvaguardando um eventual recuo no desconfinamento, em função da evolução do surto no país, a ministra apontou para dia 1 de junho, como o próximo passo provável do plano do executivo. Atividades como discotecas e bares ficam por “definir mais para a frente”.

Esta segunda-feira, almoçar fora foi o regresso à normalidade possível para Mariana Vieira da Silva. É de jantar fora que a ministra tem mais saudades, segundo revelou ao Observador. “Hoje, não vai ser possível, mas tenho mais saudades de jantar e com mais tempo. Talvez sexta-feira”.

As 20 reservas não animaram o dono do Rogério do Redondo, no Porto

Passavam poucos minutos do meio dia e a porta do Rogério do Redondo já estava aberta. Junto ao balcão escreve-se pela primeira vez a ementa a giz numa parede de ardósia, com a ajuda de um escadote. Bacalhau assado na brasa, arroz de costela mendinha, rodovalho ou tripas à moda do Porto são alguns pratos que saltam à vista esta segunda-feira.

Perfilam-se as garrafas de vinho, limpam-se as mesas e as montras do peixe, abrem-se as portas das casas de banho, retificam-se os toalhetes de papel e os fracos com desinfetante. Os sete funcionários prestes a começar o serviço, apenas dois permaneceram em casa, colocam a máscara, o avental e desinfetam bem as mãos, passos obrigatórios de uma nova rotina que parece ter vindo para ficar. “Na próxima semana vai chegar um dispensador de álcool-gel que funciona com um pedal, vou pô-lo na entrada”, adianta Rogério Sá, o responsável.

Desinfetar as mãos, limpar a superfície colocar os objetos sobre um individual de papel. Eis a nova rotina nas mesas do Rogério do Redondo

Rui Oliveira/Observador

Em tempo de pandemia, este restaurante situado na zona do Bonfim, no Porto, nunca fechou efetivamente as portas, funcionou sempre com take away e entregas em casa, mas, ao fim de dois meses, recebeu esta segunda-feira novamente clientes à mesa. “Já não enviei mensagens aos clientes habituais com a carta, disse-lhes que se a quisessem ver teriam que vir cá pessoalmente”, brinca o dono de uma casa fundada em 1985.

O correio chega com a correspondência e o telefone não pára de tocar. “Sim, já estamos abertos. Uma reserva? Para quantas pessoas? A que horas?” Rogério Sá trata a maioria dos clientes por tu, uns são fiéis e não o trocam por nada, outros vêm à boleia de quem já conhece os cantos à casa.

Com 55 lugares agora disponíveis no interior e mais 15 numa esplanada coberta por jasmim, há 20 reservas para o almoço, mas o número ainda está longe de outros tempos. “É um começo, vamos devagarinho e ver no que isto vai dar. Numa segunda-feira normal tinha entre 70 a 80 clientes, hoje vou servir pouco mais de 20 almoços e ao jantar o número mantém-se”, diz o dono ao Observador ainda muito pouco otimista, sublinhando que “o futuro será uma incógnita”.

Na cozinha aberta ao público, descascam-se legumes, coloca-se a mousse de chocolate caseira no frigorífico para solidificar, acerta-se a chama no forno a carvão e organizam-se os talheres em caixas de plástico. “Isto de não ter as mesas postas parece que o restaurante está meio abandonado”, afirma Rogério Sá, de máscara e avental, a vaguear por uma sala ainda vazia.

A preparação do almoço fez-se de touca, luvas e máscara

Rui Oliveira/Observador

Quando o cliente chegar, a mesa será limpa com um pano e um líquido desinfetante, são colocados individuais de papel azul turquesa, um guardanapo, agora também de papel, prato, talheres e copos. Na entrada, o cesto do pão chega na companhia de um frasco de álcool, para quem quiser limpar algum objeto antes ou durante a refeição, e todos os pratos são servidos normalmente.

Se uns preferem comer no restaurante para matar saudades, outros continuam a optar por levar a comida para casa. Esta manhã saíram menos refeições que o habitual, mas o serviço irá continuar, tanto ao almoço como ao jantar. “Vamos continuar com o take away, não é coisa que goste muito de fazer, mas a situação ainda não está sarada, ainda há muitas pessoas com medo. Isto hoje é um arranque, vamos começar, estou com esperança.”

António Lobo Xavier, um cliente da casa com apetite para dois pratos

Perto da uma da tarde começam a chegar os primeiros clientes ao Rogério do Redondo, a maioria marcou mesa na esplanada para aproveitar o sol, que convida a um almoço ao ar livre, e a azáfama na cozinha começa a acentuar-se.

António Lobo Xavier foi o primeiro chegar a uma mesa no exterior que dividiu com mais três amigos, onde almoçou sem cumprir a distância recomendada de dois metros. Chegou como convém, de máscara posta no rosto e foi assim que tirou uma selfie com o telemóvel enquanto esperava pela companhia. A máscara deslizou para o pescoço quando picava as entradas, um prato de salpicão e presunto. Ao lado, está um frapê com uma garrafa de vinho bem gelado para fintar o calor.

Eis que a companhia chega e o almoço é servido. “Sou cliente do Rogério há muito tempo, faço parte de uma confraria mais ou menos secreta deste restaurante”, confidencia ao Observador durante a refeição. A fumegar do seu prato está o arroz de costela mendinha e as suas escolhas recaíram também no chispe com feijão vermelho e grelos. “Acho que vou confinar na sobremesa”, adianta, bem disposto.

Rogério Sá, o proprietário, supervisiona todos os pratos que saem e faz questão de ir às mesas durante a refeição para perguntar se está tudo a comer bem

Rui Oliveira/Observador

Lobo Xavier fez questão de almoçar fora na reabertura deste restaurante e justifica a opção como sendo um ato de solidariedade. “Espaços como este, que fecharam por imposição do Governo, uma obrigação razoável, precisam de ajuda numa altura em que voltamos devagarinho ao normal. Sobretudo as casas boas, de comida séria. Tenho tido um confinamento bastante apertado, não tenho ido para lado nenhum, mas penso que as pessoas precisam de alguma solidariedade.”

No entanto, o fiel cliente desta casa típica, admite que se deve continuar a ter cuidado, “principalmente os grupos de risco”, e adianta que a partir de agora vai passar a comer fora mais vezes. “Não vou a todo o lado, mas os meus sítios do costume merecem uma visita e vou fazê-la”, garante.

Um de bairro e outro da moda. Como dois restaurantes se preparam para abrir portas

Na mesa ao lado, está Lino Teixeira, um portuense que não sabe cozinhar e durante os meses de confinamento foi cliente assíduo do serviço take away de vários restaurantes espalhados pela cidade. Esta segunda-feira voltou a sentar-se à mesa do Rogério do Redondo na companhia de mais quatro amigos, separados por uma cadeira para tentar manter alguma distância.

“Esta esplanada é convidativa e inspira-me, sinto-me seguro, ainda que saiba que há um limite de risco”, afirma ao Observador, enquanto se serve de dois filetes de pescada e uma colherada de arroz malandro. Com a máscara guardada no bolso do casaco, garante que vai continuar a “cumprir as normas da Direção Geral de Saúde”, porque apesar do Rogério do Redondo já estar aberto, o vírus ainda não acabou.

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