Pelo menos desde 2013 que circula nas redes sociais uma publicação que afirma que “80% dos muçulmanos residentes na Europa vivem de assistência social” e se recusam “a trabalhar”. A mesma informação pode ser encontrada em várias línguas, como o inglês ou castelhano, e mais recentemente em português. Apesar da sua popularidade no Facebook e noutras redes sociais, não tem qualquer fundamento real, como veremos de seguida.

A versão em português não cita nenhuma fonte, mas algumas das versões noutras línguas citam. Nestas, a frase é atribuída a um investigador egípcio chamado Ali And Al-Aal, que terá adiantado estes dados à televisão libanesa Mayadeen TV. Em alguns sites onde a mesma informação foi partilhada, as alegadas declarações de Al-Aal são usadas para sustentar textos que procuram mostrar que os muçulmanos procuram viver dos benefícios concedidos pelos diversosnestados europeus.

É precisamente nesta perspetiva que os dados supostamente fornecidos pelo investigador egípcio são utilizados pelo Partido Nacional Britânico, um partido de extrema direita com historial racista e abertamente contra o multiculturalismo, que considera “destrutivo” e “desumano”, como refere uma peça publicada no seu site, na qual Ali And Al-Aal é citado.

O post em português que refere que 80% dos muçulmanos recebem apoios do estado

De acordo com o site de fact check espanhol Newtral, que avaliou a mesma informação na sua versão em castelhano, a frase em causa não foi dita por Al-Aal, mas por um apresentador de televisão sueco-argelino chamado Yahya Abu Zakariya, que entrevistou o investigador em outubro de 2012 para uma estação de televisão argelina.

A entrevista está disponível online (com legendas e transcrição parcial em inglês) no site do Instituto de Investigação de Meios de Comunicação do Meio Oriente (MEMRI), que partilha com regularidade peças de canais de televisão árabes traduzidas para inglês, e também no Youtube (na tradução da MEMRI).

As imagens mostram o apresentador a declarar que, na Europa, existem 50 milhões de muçulmanos e que “80% desses muçulmanos [que vivem no ocidente] são mendigos que vivem do bem-estar ocidental. Noutras palavras, os europeus pagam impostos e o Estado dá o dinheiro aos muçulmanos para comprarem comida”. Ali And Al-Aal mostra-se em desacordo com as palavras de Zakariya e diz não entender as suas afirmações.

[Entrevista Yahya Abu Zakariya, na tradução da MEMRI:]

Apesar de a frase ter sido efetivamente dita por alguém, ainda que esse alguém seja Yahya Abu Zakariya e não Ali And Al-Aal como costuma ser indicado, existem vários problemas relativamente ao seu conteúdo. Primeiro, porque não existe nenhum estudo oficial feito na Europa sobre a situação laboral dos diferentes grupos religiosos. Em resposta às questões colocadas pelo Newtral, o Eurostat, o instituto de estatística da União Europeia, esclareceu que não realiza estudos sobre este tipo de grupos.

Em Portugal, uma pesquisa na página do Instituto Nacional de Estatística permite concluir rapidamente que nunca foi feito um estudo com base na religião dos habitantes do país. Mesmo em relação aos imigrantes (segundo o Pew Research Center, a principal causa do aumento do número de muçulmanos na Europa entre 2010 e 2016 foi a migração por motivos académicos ou laborais), a informação disponível diz respeito a aspetos como a nacionalidade, grupo etário ou enquadramento legal. Também em Espanha não se realizam estudos deste género.

Da mesma forma, não existe o hábito de se atribuírem apoios sociais com base em crenças religiosas. Em Portugal, o rendimento social de inserção (RSI), destinado a quem vive em situação de carência, visa “pessoas ou famílias que necessitam de apoio para melhor integração social e profissional, que se encontrem em situação de pobreza extrema e que cumpram as demais condições de atribuição”.

O acesso ao RSI depende, como explica o site da Segurança Social, do valor do património mobiliário, que não pode ser superior a 26.145,60 euros, ou seja, a 60 vezes o valor do indexante de apoios sociais. O beneficiado tem de ter residência legal em Portugal, podendo tratar-se de um cidadão da União Europeia, de um outro país (desde que viva em Portugal há pelo menos um ano) ou de alguém com estatuto de refugiado. A Segurança Social não refere nada relativamente à religião.

Também não é verdade que existam 50 milhões de muçulmanos na Europa, como afirmou o apresentador de televisão. De acordo com um estudo do Pew Research Center, um centro apartidário com sede em Washington D.C., em 2016, havia 25,8 milhões de muçulmanos a residirem no espaço europeu, o que correspondia a cerca de 5% da população total do continente europeu. O número de muçulmanos na Europa tem vindo gradualmente a crescer e o centro estimava na altura que, em 2050, poderia chegar aos 11,2%, dependendo do nível de migração.

Conclusão

Não é verdade que 80% dos muçulmanos na Europa vivem da assistência social oferecida pelo Estado, porque não existem dados que refiram esse número. Os centros de estatística europeus, incluindo o Eurostat, da União Europeia, não fazem estudos da população tendo por base a sua crença religiosa. Em Portugal, também não existem estatísticas deste género.

A informação teve origem numa entrevista conduzida pelo apresentador de televisão sueco-argelino a um investigador egípcio chamado Ali And Al-Aal, ao qual a frase foi erradamente atribuída.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook.

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