Rádio Observador

Winston Churchill

A arrogância da ignorância /premium

Autor
162

Como devemos interpretar que um dirigente do segundo maior partido britânico venha dizer em público que o líder do mundo livre durante a II Guerra, Winston Churchill, foi um “vilão”?

A notícia britânica da semana passada não foi a décima derrota parlamentar da Sra. May em torno da interminável novela do “Brexit”. Foi a declaração do “ministro-sombra” das Finanças, o trabalhista John McDonnell, sobre Winston Churchill. Quando lhe perguntaram (num evento do website “Politico”) como avaliava Winston Churchill, se como herói ou como vilão, McDonnell respondeu: “Tonypandy. Vilão.”

“Tonypandy” refere-se a uma greve de mineiros em 1910, quando Churchill era ministro do Interior, e em que teria alegadamente autorizado a utilização de armas de fogo pelas forças de segurança. Os historiadores negam essa versão, mas ela tem sido recorrentemente mantida por alguns sectores trabalhistas. O que chocou a opinião pública, no entanto, não foi a referência a “Tonypandy” — que muitos certamente desconhecem e que permanece um tema controverso. Foi o veredicto final de “vilão” sobre Churchill — de que o autor não se retratou, tendo aliás repetido no dia seguinte.

A resposta provocou justificada indignação. Sir Nicholas Soames, deputado conservador e neto de Winston Churchill designou o autor como um “third-rate, Poundland Lenin”. Vários deputados trabalhistas condenaram o seu próprio Ministro-sombra e recordaram a participação dos trabalhistas no governo de coligação nacional liderado por Churchill entre 1940 e 1945.

O episódio poderia ter ficado por aqui se John McDonnell não fosse uma espécie de braço direito, por vezes mesmo designado como inspirador intelectual, do actual líder trabalhista, Jeremy Corbyn. O caso ilustra, numa primeira apreciação, a forte deslocação para a esquerda que os trabalhistas têm sofrido sob a actual liderança — e que tem sido sobretudo associada a chocantes manifestações de anti-semitismo.

Vários analistas observaram que as declarações de McDonnell poderão contribuir para reforçar o mal-estar no interior dos trabalhistas. Rumores insistentes referem a possibilidade de cisão e de criação de um novo partido ao centro-esquerda. Uma cisão deste tipo ocorreu em 1980 — contra a liderança esquerdista de Michael Foot, que então enfrentava Margaret Thatcher na liderança do Partido Conservador. A cisão no Partido Trabalhista levou à criação do SPD, o Partido Social-Democrata. O partido teve um sucesso relativo, mas inspirou a ulterior recentragem do trabalhismo sob a liderança de Tony Blair: a chamada “Third Way”, que Blair partilhou com Bill Clinton e os chamados “New Democrats” nos EUA — com êxito significativo.

Mas, para além da dimensão estritamente partidária, há outra dimensão mais crucial: a atmosfera moral e intelectual. Como devemos interpretar que um dirigente do segundo maior partido britânico venha dizer em público que o líder do mundo livre durante a II Guerra, Winston Churchill, foi um “vilão”?

O episódio parece corroborar os alertas que vêm sendo lançados por vários sectores sobre a degradação da atmosfera moral e intelectual das democracias ocidentais. Essa degradação tem como palco primeiro as chamadas “redes sociais”. Mas está a ocorrer também nas Universidades, através do abandono do estudo dos clássicos e sobretudo devido às modas politicamente correctas que impedem a livre expressão de pontos de vista — sobretudo se, e quando, esses pontos de vista não são politicamente correctos. O resultado só pode ser o crescimento do radicalismo e da arrogância — que são basicamente produto da ignorância.

Vamos ser claros: não somos obrigados a ter todos exactamente a mesma opinião sobre Winston Churchill. O homem teve uma carreira parlamentar de 64 anos (entre 1900 e 1964, tendo morrido em 1965); mudou de partido duas vezes (dos conservadores para os liberais em 1904, de volta aos conservadores em 1924); exerceu 11 cargos governativos, dois dos quais como primeiro-ministro (1940-45; 1951-55). Cometeu obviamente muitos erros e, obviamente numa democracia, mesmo muitas das posições que uns consideram certas outros podem considerar erradas. Mas convém recordar que temos a liberdade de discordar sobre Churchill porque ele liderou a defesa da democracia quando ela estava em perigo de morte.

Na mais recente biografia de Churchill — publicada em Novembro do ano passado por Andrew Roberts (e que será publicada entre nós pela D. Quixote em Outubro próximo) — o biógrafo atribui a Churchill uma longa lista de erros ao longo de todo o livro (de 1105 páginas!). Caso o leitor tenha perdido a conta a esses erros, Andrew Roberts recorda todos eles numa página inteira perto da Conclusão (p. 966). Mas, como tive oportunidade de sublinhar numa recensão recente, depois da longa lista de erros, Andrew Roberts conclui:

“Churchill teve razão acerca das três ameaças mortais desencadeadas [no século XX] contra a civilização ocidental: pelos militaristas prussianos em 1914, pelos nazis nas décadas de 1930 e 1940, e pelo comunismo soviético depois da II Guerra”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
II Guerra Mundial

A hora mais trágica

Rui Ramos
133

Ao contrário do que sugere o filme A Hora Mais Negra, a decisão britânica de continuar a guerra em 1940 não foi o resultado de sondagens de opinião, mas de uma liderança que "caminhava com o destino".

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)