Quase dois mil anos depois de ter ficado a dever a sua liberdade e vida a Jesus de Nazaré, ao beneficiar do indulto pascal que deveria ter sido aplicado a Cristo, Barrabás converteu-se!

Os quatro Evangelhos coincidem, entre outros muitos aspectos, na referência a uma curiosa personagem interveniente na paixão de Cristo: Barrabás. Mateus apresenta-o apenas como “um preso famoso” (Mt 27, 16); João diz que “era um bandido” (Jo 18, 40); enquanto Marcos e Lucas acrescentam que provocara um motim, de que tinha resultado um homicídio (Mc 15, 7; Lc 23, 19).

Barrabás era um desordeiro, talvez uma espécie de terrorista, que tinha cometido um assassinato. Por esta razão era réu de morte e, como tal, foi equiparado a Jesus de Nazaré, também condenado à pena capital pelo Sinédrio. Pôncio Pilatos, não só não acreditara na culpabilidade de Cristo, como estava persuadido da sua inocência e, por isso, tentou a sua libertação, por via da aplicação do indulto pascal. Foi nesse contexto que ambos, Jesus e Barrabás, foram apresentados à multidão, para que o povo escolhesse o prisioneiro que deveria ser amnistiado por ocasião da Páscoa.

Há algumas semelhanças entre estas duas personagens. De facto, ambos são tidos como sediciosos: Barrabás talvez o fosse, em nome do nacionalismo judaico; Jesus Cristo não o era, decididamente, mas fora denunciado pelos judeus como pretendendo ser o rei dos judeus. Será este, com efeito, o título da sua execução: ‘Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus’ (INRI).

Há uma segunda analogia entre os dois condenados à pena capital: não só são homónimos, como o são duplamente! Nos Evangelhos, Barrabás é citado apenas por este seu apelido, mas já Orígenes, um escritor cristão do século III, afirma que o seu nome próprio era, curiosamente, Jesus! Por isso, na versão ecuménica da Bíblia, lê-se: “quem quereis que vos solte: Jesus Barrabás, ou Jesus, chamado o Cristo?” (Mt 27, 17).

Barrabás, significa, literalmente, filho do pai. O prefixo Bar indica, em aramaico, filiação: Bartimeu, por exemplo, um dos cegos curados por Cristo, era filho de Timeu (Mc 10, 46); Simão Pedro é apelidado Barjonas, que quer dizer filho de Jonas, ou de João (Jo 1, 42); Bartolomeu quer dizer ‘filho da consolação’ (Jo 1, 45-51); etc.

Por sua vez, ‘Abbas’ significa Pai: era, até, a forma carinhosa como os filhos se referiam aos seus progenitores; era assim que Jesus de Nazaré se dirigia a Deus, causando o escândalo dos fariseus, que reputavam desrespeitoso o uso, com o Criador, desse tratamento familiar. Assim sendo, Barrabás, ou Bar Abbas, significa, em aramaico, ‘Filho do Pai’ (contudo, em português vernáculo, seria mais exacto traduzir por ‘filho da mãe’ …).

Ora, a identidade de Cristo é sempre referida – desde a sua primeira fala (cf. Lc 2, 49) e até ao processo que conclui na sua condenação – pela sua especial e única relação com Deus, de quem não é um filho qualquer, mas o filho unigénito. E, como Jesus insiste em tratar sempre o Criador por seu Pai, não outro pai mas seu único pai, porque José só o era por adopção, é óbvio que ele é, portanto, em termos teológicos, o ‘Filho do Pai’, isto é, em aramaico, Bar Abbas, ou seja, Barrabás!

João, Lucas, Marcos e Mateus são omissos quanto ao destino de Barrabás, depois de libertado por Pilatos. A tradição também nada diz quanto ao impacto que tão extraordinária graça teve na alma daquele homicida: será que se converteu, como o bom ladrão?! Ou permaneceu impenitente, como o outro malfeitor?!

Se nada se sabe, com certeza, sobre a vida de Barrabás depois de ter sido amnistiado, como é possível referir a sua conversão, dois mil anos depois?!

A verdade é que este ‘Barrabás’, o que agora se converteu, não é o mesmo de há dois mil anos, mas o actor que o representou no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, e que a Família Cristã (Março 2020, págs. 46-52) entrevistou, por ocasião da sua vinda a Portugal, a convite da Conferência Nacional do Apostolado dos Leigos. Pietro Sarubbi, o Barrabás contemporâneo, é um actor italiano, de 58 anos, que se converteu em 2005, como aliás muitos outros dos que participaram nessa produção. Embora nascido numa família tradicionalmente católica, Pietro Sarubbi não era uma pessoa com fé e tinha até passado por momentos difíceis, nomeadamente “um problema de álcool e depressão”.

Mas, um olhar de Cristo, na pessoa do actor Jim Caviezel, que interpretou Jesus de Nazaré nesse filme, foi suficiente para mudar a sua vida, como ele próprio confessou: “Com este filme, descobri a pertença total a Cristo, nas 24 horas de cada 24 horas. De um Cristo de carne e osso, que está perto de ti em todos os momentos da vida. Não apenas quando queres, mas sempre. A minha família deu-me uma educação cristã, a minha mãe era professora e o meu pai funcionário do Estado, mas a intensidade de um olhar de Cristo é inexplicável”.

No episódio do jovem rico, esse olhar de Cristo é referido, quando se diz que “Jesus olhou-o com amor” (Mc 10, 21). São João Paulo II, a este propósito, comentou: “Desejo que experimenteis um olhar assim! Desejo que experimenteis a verdade de que Ele, Cristo, vos olha com amor! Ele olha com amor cada um dos homens. O Evangelho confirma-o a cada passo. Pode até dizer-se que neste ‘olhar amoroso’ de Cristo está contido como que o resumo e a síntese de toda a Boa Nova. (…) Sabemos que Cristo confirmará e selará este olhar com o sacrifício redentor da Cruz, uma vez que foi exactamente por meio deste sacrifício que aquele ‘olhar’ atingiu particular profundidade de amor” (Carta, 31-3-1985, n. 7).

A Páscoa? Talvez não seja mais, nem menos, do que esse olhar de Jesus de que Pietro Sarubbi deu um tão belo testemunho e ficou a dever a sua conversão. De facto, como escreveu São João Paulo II, “é necessário para o homem este olhar amoroso, é-lhe necessária a consciência de ser amado, de ser amado eternamente e escolhido desde toda a eternidade (Ef 1, 4). Este amor eterno de eleição divina acompanha o homem durante a vida como o olhar de amor de Cristo, talvez, sobretudo, no momento da provação, da humilhação, da perseguição, do fracasso, na altura em que a nossa humanidade fica como que cancelada aos olhos dos homens, ultrajada e espezinhada. Então a consciência de que o Pai nos amou desde sempre no seu Filho, de que Cristo ama cada um e sempre, torna-se o ponto de apoio firme para toda a nossa existência humana. Quando tudo se conjuga para favorecer a dúvida acerca de si mesmo e do sentido da própria vida, o olhar de Cristo, ou seja, a tomada de consciência do amor que n’Ele se demonstrou mais forte do que todo o mal e toda a destruição, é o que nos permite sobreviver” (id.).

Sim, a Páscoa é isso mesmo: um olhar de Cristo vivo que, mesmo num contexto penoso, como é o que agora nos é dado viver, nos trespassa e muda radicalmente.

Santa Páscoa, na alegria de Cristo ressuscitado!