A França gosta de dizer que tem a direita mais estúpida do mundo. Se ainda vivêssemos nos dias em que era de França que vinham as modas intelectuais e culturais, por certo que haveria gente por cá a bater-se pela palma de sermos nós a ter a direita mais estúpida do mundo. Como esses tempos passaram, aquilo que parece neste momento importar é dar cabo da direita que ainda resta. Se possível nas próximas eleições presidenciais.

Pessoalmente não aprecio especialmente esta divisão do espaço político em direita e esquerda – prefiro dividi-lo entre liberais e socialistas, ou entre conservadores na tradição de Burke e progressistas na linha de Marx –, mas se continuarmos nela então deixem-me ser claro: a principal ameaça ao espaço da direita democrática nos próximos anos vem do Chega. Os estragos que o partido de André Ventura está a fazer no CDS são já evidentes, tão evidentes que começa a ser difícil ver como é que os centristas algum dia reencontrarão uma  linha de rumo viável e autónoma.

Mais: o palco que António Costa tem dado ao Chega e ao seu líder não é inocente. Ele quer repetir em Portugal o que Mitterrand fez em França com a Frente Nacional: enfraquecer os partidos da direita moderada, criar uma espécie de “cordão sanitário” que torne o Chega infrequentável e assim afastar a direita por longos anos de qualquer veleidade de recuperar uma maioria que lhe permita voltar a governar.

A prazo isto tem um preço, que pode ser pesado para o próprio PS: partidos como o de André Ventura vão buscar eleitorado a todo o lado, são partidos de desencantados com o sistema e por isso tanto recolhem votos de antigos eleitores do PCP (muitos), como do CDS (alguns) como até do PS (talvez proporcionalmente menos). Ou seja, a prazo o Chega também pode dar cabo dos partidos que hoje sustentam a maioria de esquerda, por mais informal que ela seja. Foi também isso que sucedeu em França com a ascensão da Frente Nacional, foi o que se passou com a ascensão de outros partidos do mesmo tipo noutros países europeus. Num primeiro momento o populismo do Chega atrapalha os partidos de direita, no longo prazo fica com o eleitorado popular dos partidos de esquerda.

Mas isso não incomoda António Costa, que não é homem de pensar a longo prazo. Interessa-lhe sobretudo o dia seguinte. E olhando para o dia seguinte das próximas eleições presidenciais nada lhe será mais favorável do que um espaço à sua direita que seja um campo de ruínas, mesmo que com um totem ainda de pé, mesmo que com esse totem instalado no Palácio de Belém.

A preocupação do espaço não socialista devia ser pois a de não estraçalhar ainda mais um terreno que já se assemelha a um daqueles campos esfacelados da I Guerra, cheio de crateras, linhas de arame farpado e corpos em putrefação e, em vez disso, tratar do dia seguinte. Percebendo duas coisas. A primeira que, como já referi, tem de conter o Chega mas tendo consciência de que muitos dos temas do Chega são temas importantes que exigem respostas, só que não as respostas primárias que lhes dá André Ventura; a segunda que nunca poderá contar com Rui Rio, mas nunca derrubará Rui Rio: tem de esperar que ele desapareça por si.

Para todos os que aqui se situam a questão que se coloca é saber se é mais vantajoso fazer o que a esquerda à esquerda do PS costuma fazer – apresentar candidatos para marcar o ponto e garantir que as ovelhas se mantêm no seu espaço político – ou concentrar logo os votos em Marcelo Rebelo de Sousa.

Vamos ser francos e claros: não há figuras, nem por enquanto forças políticas, que consigam tirar partido de uma campanha como a presidencial, para mais disputada nas condições em que esta vai ser disputada, para mudar substantivamente o que quer que seja no tom do debate político. Ou, por outras palavras, que possam deixar sementes capazes de vingar na reconstrução do espaço político não socialista.

A não ser que optem por uma presença apenas simbólica, o mais certo, e o risco maior, é uma candidatura dessas contribuir para forçar uma segunda volta, hipótese remota mas não impossível se a abstenção for muito elevada e Ana Gomes concorrer, como tudo indica que vai acontecer. Ora um presidente Marcelo enfraquecido no seu segundo mandato, ferido na asa por ter sido obrigado a disputar essa segunda volta, seria ainda pior para todos.

“Pior como?”, já ouço muitos dizer, irritados que estão com estes anos de convivência Costa-Marcelo. Pior porque a relação de forças se alteraria, pior porque Belém ainda se arriscava a ser menos um contrapeso a São Bento, pior porque porventura nem a maior liberdade crítica que os Presidentes costumam ter nos seus segundos mandatos viria ao de cima.

Quem me costuma ler, ou quem me ouve na Rádio Observador, sabe que não tenho poupado nas críticas ao Presidente Marcelo – que de resto também critiquei ainda não era nem Presidente, nem candidato. Mas em política as nossas irritações não devem cegar-nos. Quando isso acontece o melhor é pôr água fria nos pulsos.

O espaço não socialista precisa de tempo e precisa de que nesse tempo o garrote socialista não aperte ainda muito mais – isto é, que não haja ainda mais lugares ocupados, que mais instituições que deveriam ser independentes fiquem na órbitra do PS, no fundo que o sistema de pesos e contrapesos continue minimamente a funcionar. Por muito que custe a engolir a quem se irritou com tantas “marcelices”, ter Marcelo em Belém suportado por uma votação substancial é melhor do que vê-lo lá demasiado tributário dos votos que António Costa lhe oferecer.