Nesta curiosa fatia de tempo em que andamos a viver, dominada pela incerteza e pelo risco, mais palpáveis hoje do que é costume, há, apesar de tudo, coisas previsíveis. O “vírus chinês” – não tenho nada contra a designação de Trump, e espanta-me ver belas almas chocadas com ela, no mesmo parágrafo em que falam de “gripe espanhola”, quando de espanhola ela não teve nada na sua origem (de facto, pode bem ter-se iniciado na China) – suscitou respostas distintas em vários países, segundo linhas facilmente compreensíveis. Nos países onde a tradição da liberdade individual se encontra mais arreigada (Inglaterra, Estados Unidos e Holanda, por exemplo), optou-se inicialmente por medidas que interferissem o menos possível com ela, enquanto que naqueles onde ela é precária ou de todo inexistente, como no imemorial despotismo chinês, agora a cargo da administração do Partido Comunista, escolheram-se, a par do tradicional secretismo na divulgação da pandemia, medidas duríssimas de confinamento e silenciamento, obviamente só possíveis, na sua forma mais radical, no contexto de uma ditadura (sobre o comportamento do governo chinês, permito-me aconselhar a leitura dos artigos que Sebastião Bugalho tem publicado aqui no Observador).

Dito isto, é claro que há surpresas de vários tipo nesta crise. Menciono apenas duas. A primeira, que é ainda muito cedo para pensarmos resolvida, reside na dificuldade em decidir qual, a médio prazo, o melhor processo para combater a progressão do vírus. É uma dificuldade comum a todos os problemas (as “alterações climáticas” são outro exemplo) cuja discussão, misturando elementos científicos e políticos, é, por assim dizer, “impura”. Há quem defenda o isolamento, a chamada “distância social”, como único meio possível, quem sustente a preferência pela continuação de uma vida o mais próxima possível do “normal”, e, finalmente, quem creia que a boa decisão consiste na alternância das duas outras práticas. Talvez por causa da minha idade e de uns certos problemas de saúde, inclino-me mais para a opção que, a curto prazo, parece ser a mais eficaz: a primeira. Mas é obviamente uma questão em aberto, pese ao moralismo geral que recusa, por regra, aceitar a complexidade das questões e não resiste a proclamar, alto e bom som, a excelência da sua virtude pessoal e o odioso ínsito a quem pensa de outra maneira.

A segunda razão de surpresa tem a ver com a muito generalizada escassez de meios disponíveis para o combate à pandemia. Nestes tempos de prodígios científicos, técnicos e produtivos, faltam ventiladores, máscaras e camas. Isto apesar dos notórios esforços dos humanos em se ajudarem uns aos outros, particularmente manifestos na dedicação, no esforço e no sacrifício de quem trabalha nos hospitais. Mas talvez a nossa surpresa deva ser temperada. As comunidades humanas, por mais conscientes que estejam da necessidade da precaução, não podem, por definição, pensar sistematicamente no pior e concentrar todos os seus esforços na prevenção deste. Até porque, e o mesmo vale para cada indivíduo, para cada um de nós, isso as paralisaria. Podem, sem dúvida, pensar em piores determinados – basta lembrar o que se escreveu sobre o “delicado equilíbrio do terror” durante a Guerra Fria –, mas não podem pensar simultaneamente em todos os piores possíveis. Nem o mais consumado paranóico, na sua exemplar e patológica coerência, consegue tal prodígio, por falta de espaço na sua cabeça.

A par destas duas surpresas, sem dúvida legítimas, e, à sua maneira, essenciais, outras surgem que são ao mesmo tempo mais contingentes e mais superficiais, tanto ao nível global quanto ao nível local. Ao nível global, o caso exemplar é o da colaboração inicial do senhor Tedros Adhanom, da Organização Mundial da Saúde, com o silêncio chinês (que envolveu a perseguição dos médicos que no princípio da pandemia a revelaram) sobre a escala da propagação do coronavírus. Não vale a pena epilogar sobre a longa tradição de parcialidade e voluntária cegueira dos vários organismos que se enquadram nas Nações Unidas. Em contrapartida, não é inútil recordar que o dito cavalheiro pertenceu a um facinoroso movimento comunista na Etiópia, que muito o ajudou na sua eleição para o cargo que presentemente ocupa e que um dos seus primeiros gestos desde que eleito para esse cargo foi nomear Robert Mugabe para “Embaixador da Boa Vontade” da OMS – uma escolha muito judiciosa, se me é permitido: Mugabe tinha boa vontade para dar e vender, como o mostra amplamente a recente história do Zimbabwe. Dado este historial, qual o motivo da surpresa com a sua intimidade com o governo chinês? Nenhum.

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