1 De início a estranheza era quase invisível no espaço público. Nem podia ser de outro modo, a arena começara a pertencer-lhe por inteiro, Belém tinha o segredo e o exclusivo da sua ocupação. Com o desenrolar das coisas e dos dias, a estranheza transformou-se em incredulidade.: Marcelo esquecera-se da direita? A garantia da sua muda fidelidade autorizava-lhe a indiferença?

Passou tempo. O governo somava cativações para apresentar serviço em Bruxelas e brilhar no burgo enquanto se solidificava a ficção narrativa sobre Passos Coelho e a media rejubilava com um país “descomprimido” ( e com os telefonemas de Marcelo para os telemóveis directos dos jornalistas, cujos variam aliás conforme as “saisons”).

A vida mudara para o rosa, nem era preciso perguntar pela direita: não constava.

Passou mais tempo: a incredulidade galopou para a irritação. Que opção presidencial era aquela que ignorava a metade do país que ia do PSD até ao fim da metade? E que casamento com as esquerdas era aquele que aparentemente apenas cuidava dos convidados da boda deixando á porta os fieis da primeira hora? Eles e os seus valores, as suas convicções, os seus lugares políticos? A sua matriz cultural e civilizacional e a representação de tudo isso? Mas a irritação não passava disso. Era dócil, pouco audível, passiva. Inorgânica. Inútil, portanto.

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