1 De início a estranheza era quase invisível no espaço público. Nem podia ser de outro modo, a arena começara a pertencer-lhe por inteiro, Belém tinha o segredo e o exclusivo da sua ocupação. Com o desenrolar das coisas e dos dias, a estranheza transformou-se em incredulidade.: Marcelo esquecera-se da direita? A garantia da sua muda fidelidade autorizava-lhe a indiferença?

Passou tempo. O governo somava cativações para apresentar serviço em Bruxelas e brilhar no burgo enquanto se solidificava a ficção narrativa sobre Passos Coelho e a media rejubilava com um país “descomprimido” ( e com os telefonemas de Marcelo para os telemóveis directos dos jornalistas, cujos variam aliás conforme as “saisons”).

A vida mudara para o rosa, nem era preciso perguntar pela direita: não constava.

Passou mais tempo: a incredulidade galopou para a irritação. Que opção presidencial era aquela que ignorava a metade do país que ia do PSD até ao fim da metade? E que casamento com as esquerdas era aquele que aparentemente apenas cuidava dos convidados da boda deixando á porta os fieis da primeira hora? Eles e os seus valores, as suas convicções, os seus lugares políticos? A sua matriz cultural e civilizacional e a representação de tudo isso? Mas a irritação não passava disso. Era dócil, pouco audível, passiva. Inorgânica. Inútil, portanto.

2 E assim o tempo se deixou estar. Pelas más razões, bem entendido: a direita, porque se ia dissolvendo em incapacidades várias e contradições graves; Marcelo porque tinha mais com que se preocupar, (com a esquerda justamente). O que restava da direita estava já no seu bolso e podia sempre dizer para si mesmo que a direita era ele embora não parecesse.

Ah e depois havia os estouvadamente contentes e os imprudentemente felizes. Cito-os porque mesmo que nunca se possa contar com eles para nada de sério, são muitos e votam. Estavam felizes e contentes com as selfies, a “descompressão”, o “desanuviamento”; um presidente sempre mesmo ali ao pé da mão; o falso fim da austeridade; a surpresa do mago Centeno que, quem havia de dizer ? um dia, num conveniente ápice, passaria a mau da fita; e havia o resto, afectos, feriados, a proximidade e tutti quanti. Era enfim uma nunca vista (embora por ambos desejada) unanimidade entre Marcelo e Costa (e os imprudentemente felizes nunca desgostaram da unanimidade, talvez lhes dê menos trabalho).

E assim se esteve. Não um, mas dois, três, quatro anos. Mas há por onde escolher para, entre coisas boas, falar também de desanimo: a indiferença e a letargia da sociedade civil face ao estremecer de alguns dos seus alicerces civilizacionais; a inoperância dos agentes económicos diante da falta de sustentabilidade da economia, a passividade perante um país que nunca cresce, a clamorosa falta de investimento público, o rasto de miséria, solidão e atraso deixado pelos inesquecivelmente trágicos incêndios de 2018… Nada estorvou, nada se evitou, nada se reviu. As “contas estavam certas” como se isso fosse tudo, a vida continuou. Poderosa para a esquerda, inexistente para a direita que deixara de funcionar.

3 É certo que Rui Rio mal chegou, desajudou quanto pôde. Foi um susto quando se descobriu que ele acha a sério que o PSD é social democrata. Daí não encontrar — como dizer? — “vantagem” alguma em que o seu partido seja o motor de arranque do grande espaço que existe do PSD para a sua direita. Condição sem a qual, como é óbvio, nada, mas absolutamente nada ,será feito, nem se mudará de vida. Um erro para o qual não se encontra adjectivação à altura: até um distraído percebe que é por aí, pelo PSD, que tudo deve, pode e tem de começar. O distraído também percebe que a tal área que vai do centro ao extremo da sua direita, apesar de estar hoje circunstancialmente doente, é bem maior do que as esquerdas a costumam certificar. Etiquetando-a de pequena, irrelevante., minoritária, reacionária, inculta. E “fascista”, claro, quando lhe ocorre — à direita — alguma lucidez e diz que os nossos reis, ás vezes, vão nus.

4 Neste estar de coisas, que pensaria o próprio Marcelo o bem amado? E como olharia para os desalentados que partilham a sua matriz politica de origem? Resolvi saber, procurei-o, apanhei-o num avião. Sugeri expor-lhe o que me parecia sério e pertinente sobre a sua relação não privilegiada com esse espaço político. Era só combinar passar pela sua casa de Cascais. “Não”: havia já entrevistas marcadas, prometidas, combinadas. “Então em off,” insisti, “e depois se escolheria o on”. Apenas queria perguntar-lhe “então o centro e a direita nisto tudo?” Ou era possível continuar a sinalizar que o assunto nunca o preocuparia, porque (por definição?) o seu voto estava garantidíssimo mesmo que resignado?

Havia um precedente que nada ajudava: Marcelo já me mostrara que o tema o irritava. Há uns meses, ainda no mundo ante-coronavírus, num dia em que eu voltara à questão, ouvira-lhe um quase ríspido “sempre quero ver se eu não me candidatar e ficar tudo nas mãos da esquerda, sim, sempre quero ver…” Sub-entendido: sempre quero ver como se amanham esses queixosos!”

O argumento era ocioso, não me comoveu..

Insisti sobre a vantagem de um diálogo franco que desaguasse na explicação do persistente fastio que lhe causava o seu eleitorado natural mas a resposta foi desoladora “manda as perguntas por mail”. Apesar de uma agenda “de doidos” e “não sei quantas horas de voo”, talvez ele arranjasse tempo. Alguma coisa me disse que arranjaria: nunca, pesem as nossas pesadas discordâncias políticas, que não pessoais, fiquei sem resposta (há que ser sério quando se fala de gente com tão altas responsabilidades: nunca é a animosidade o que me move). A amizade é antiga, trabalhámos muito juntos durante anos, vivemos os dois extraordinárias coisas em conjunto, rimos do mesmo, temos fortes amizades em comum. Move-me isso sim uma veemente discordância política. Julgo que impassável.

5 Mandei o mail o pedido por Marcelo. Voaram de Lisboa para o Índico sete perguntas consistentes e sempre bem educadas. Dou um exemplo da boa educação: “com que argumentos fortes deveria eu contrariar os que me manifestavam preocupações e perplexidades face a sua actuação”; ou: “em que é que eu me enganara na apreciação negativa que fazia da sua relação com o centro e a direita” (cito de memória).

Dias depois surgiu surpreendentemente (ou deveria dizer habilmente?) uma lista. Interessante de resto. Dela constavam os gestos, iniciativas, vetos, démarches, atitudes, deslocações, inaugurações, escrita de prefácios, etc. que ilustrariam a sua atenção criteriosa aos valores e temas caros ao espaço político supostamente mal tratado. Uma forma expedita de argumentar através da sua agenda presidencial. A lista era obviamente convincente — havia o cuidado com as questões éticas, sociais, religiosas, culturais, civilizacionais. Tudo aquilo era indiscutivelmente verdade. Mas…

6 Apesar da lista e para além da lista foi-se criando um pequeno fosso no país. Chame-se-lhe desilusão, corte ou rejeição, ele existe. Real, mesmo que ainda pequeno, e por isso lhe neguem expressividade: concreto, mesmo se negado por sondagens e afins. A reeleição fará com que Marcelo não tenha que dar pelo fosso. Mas como o que tem de ser, tem muita força, ele irá experimentar o que à cabeça o encherá sempre de temor e horror e que é afinal ser menos amado, ou pouco amado, ou mal amado. Também não gostará de saber que dos escombros do centro e da direita há-de começar a surgir, mesmo que incipiente, desajeitado e inorgânico, um leque de sinais que uma vez aberto se tornará subitamente transparente. Abrindo uma outra vontade política, para uma outra história (e não, por favor, não estou a falar do “Chega”). Uma história nova e que, por isso mesmo, dispensará Marcelo.

Comece ela quando começar, demore o tempo que demorar, julgo-a irreversível mesmo que o ar do tempo em tudo hoje me desminta. Sim uma história que por ser nova, dispensará Marcelo, com o qual não quererá contar. Destoaria. Atrapalharia. Não perceberia.

Onde quero chegar com isto? À tal lista. Quando ele a ler em voz alta nas televisões, o seu conteúdo cairá bem. Contribuirá até para a reeleição, a lista mostra serviço e boas intenções. Os já mencionados imprudentemente felizes — são imensos – comover-se-ão e darão o braço a Ferro Rodrigues numa grande unidade presidencial que dará direito à segunda selfie com o reeleito.

Mas vendo bem o que é que isto interessa?

E Portugal? E nós? E o nosso futuro colectivo? E a dissolução da sociedade gerada pelo militante relativismo, a supremacia do pensamento único, a cultura vigente, a inquietante educação ministrada hoje às gerações de amanhã? E nossa produtividade anã? E os empresários e criadores de riqueza tão enxotados? E… outras coisas. É que justamente me parece que há gente que hesita em achar que a Portugal tenha valido a pena contar com Marcelo Rebelo de Sousa. Contar a sério. De forma a fazer a diferença para melhor (e como ela teria sido precisa!).

Apesar da lista.