A NATO mudou três vezes nos últimos anos.

Mudou a primeira vez durante a presidência de Barack Obama. Ciente que os Estados Unidos estavam a perder peso político à medida que a China ganhava terreno internacional, a administração redesenhou a grande estratégia americana incluindo-lhe dois elementos que prejudicavam a Europa: o retraimento estratégico – uma política de encolhimento de todos os ativos prescindíveis e a redução dos compromissos internacionais que não pusessem em causa a segurança norte-americana –; e o “pivô” asiático – um papel que Washington passaria a desempenhar, em que o que estava em causa era a transferência de grande parte da sua influência para aquela parte do mundo, de forma a equilibrar os poderes regionais e, especialmente, conter a China.

No primeiro caso, o do retraimento, a Europa era vítima do seu próprio sucesso. Setenta anos seguidos de paz (Balcãs à parte) davam aos EUA confiança suficiente para não terem que se preocupar com conflitos entre estados. No segundo, o do pivô asiático, a Europa foi vítima do seu próprio fracasso. Não foi capaz de se reinventar enquanto aliado atlântico, e a mudança dos centros de poder deixou-nos desprotegidos e a ter de lidar com a nossa vulnerabilidade internacional. Ainda assim, por essa altura, estava disseminada a ideia de que a Europa não corria riscos de maior e as insistências para que tivesse mais responsabilidades na sua própria defesa foram recebidas (em Berlim, onde Obama decidiu falar sobre o assunto a primeira vez ainda como candidato) com marcada indiferença.

Mudou a segunda vez em 2014 quando a Rússia invadiu a Ucrânia e anexou a Crimeia. Nesse momento, os aliados ocidentais conheceram uma união mais forte entre si. Conseguiram conciliar posições relativamente a Moscovo, concordando que Putin não tinha legitimidade para violar fronteiras alheias. Mais, a Europa (e, de certa forma, os Estados Unidos, ainda que por motivos diferentes) perceberam que a Rússia era uma ameaça real, que não podia continuar a ser ignorada. Mesmo os muitos que acreditaram que era possível construir um arquitetura de segurança regional em harmonia com Moscovo viram as suas expectativas goradas pela realidade. Putin nunca quis boa vizinhança. Simplesmente, não tinha poder para impor a sua posição até há relativamente pouco tempo. Isso mudou.

No entanto, a resposta dos aliados transatlânticos mostrou que, mesmo em consenso, o sistema internacional já não estava para hostilidade abertas. A imposição de sanções e o reforço da segurança militar nas fronteiras orientais da NATO foram as medidas mais gravosas que se conseguiram impor. E por muito que se diga que é irracional – o que é verdade – um conflito armado com Moscovo, 2014 mostrou ao Ocidente a sua incapacidade de impor as mais elementares regras do direito internacional público à Rússia. Não existia vontade política ou poder militar para travar investidas vindas de Leste.

Mudou a terceira vez quando Trump chegou à Casa Branca. O presidente mais atípico de que temos memória entrou de rompante na cena internacional, questionando quase tudo o que dávamos como adquirido, incluindo as relações transatlânticas e a NATO. Perante uma Europa incrédula, pôs em causa o Artigo 5º do Tratado de Atlântico Norte, declarou que o multilateralismo tinha deixado de interessar aos Estados Unidos e exigiu, sem qualquer cerimónia, que os aliados passassem a honrar o seu compromisso firmado, na Cimeira de Gales, em 2014, de aumentar os seus orçamentos de defesa para os 2% do PIB.

Contrariados, os membros europeus da NATO começaram a ceder (ainda que apenas nove estados membros tenham já atingido a meta). O orçamento aumentou consideravelmente com estas contribuições. Mas não sem se ter aberto uma ferida: a aliança parece já não ser uma comunidade de democracias e, sem esse elemento, o que criava a confiança estratégica de que a aliança se manteria desapareceu. E os parceiros europeus ainda estão a aprender a viver com este novo dilema de segurança, a mudança estratégica dos EUA face ao mundo, o que aumenta consideravelmente a vulnerabilidade dos mais fracos.

Os verdadeiros motivos de preocupação da NATO são estes: a mudança na grande estratégia dos Estados Unidos num momento em que a Europa precisa de voltar a conter a Rússia e os ajustes que a Aliança Atlântica tem de fazer para se adaptar quer à nova liderança americana, quer às mudanças estruturais que estão a ocorrer no sistema internacional. Acima de tudo, os aliados europeus têm de ser capazes de se adequar a um mundo em que o tipo de regime deixou de ser um fator preferencial nas relações entre os estados. É um desenvolvimento positivo? Não. Mas em política as decisões devem recair sobre o mal menor, porque não há “melhor dos mundos”. Mas só a Alemanha parece ter percebido isso.

Assim, no passado dia 20 de novembro, o ministro dos negócios estrangeiros alemão, Heiko Mass, impôs a criação de um grupo de sábios para esvaziar as intenções francesas de matar cerebralmente a Aliança. Uma semana depois, a poucos dias da Cimeira que decorreu em Londres esta semana, Berlim comprometeu-se a passar a pagar exatamente o mesmo montante que os Estados Unidos para o orçamento direto da NATO.

Esta decisão não muda tudo, mas representa um passo político da maior importância. A chanceler Merkel e a sua anunciada sucessora, Annegret Kramp-Karrenbauer, têm vindo a reconhecer, paulatinamente, que a Europa tem que tomar medidas para ter a certeza que a segurança do continente não é posta em causa. Têm razão, por três motivos.

Primeiro, a Rússia e a China – esta última considerada na reunião dos chefes de estado, a par com o terrorismo e a cibersegurança, o maior desafio da NATO – não se vão desviar do seu curso estratégico. Moscovo quer desestabilizar a Europa para garantir que pode continuar a fazer o que quer no que considera a sua “esfera de influência”. Pequim quer rever a ordem internacional, independentemente do que a Europa pensa sobre isso. E os Estados Unidos, por muito que tenham mudado a sua política externa, são a única grande potência que não ameaça verdadeiramente os interesses europeus. Assim, a Europa não tem grande escolha estratégica senão manter-se próxima dos Estados Unidos.

Segundo, a distribuição de poder mudou, e com essa mudança a normatividade internacional liberal também perdeu a força que tinha. Assim, a Alemanha deixou de lado a esperança que tudo volte a ser como era quando Donald Trump for substituído (quer seja em 2020, quer seja em 2024). Qualquer presidente dos EUA estará fundamentalmente preocupado com os seus rivais e essa é a nova realidade estrutural das relações entre os estados. E não chegou com Trump, chegou com Barack Obama.

Finalmente, a Europa tem espaço neste sistema – e este espaço é precisamente através da NATO. Daí que Berlim tenham dado o passos necessários para assinalar a Washington a sua vontade política de estar na linha da frente desta parceira. A Alemanha reconhece que a Aliança Atlântica tem funcionado eficientemente quer na fronteira oriental, quer na fronteira sul (resultado de um recentramento que se iniciou há cerca de cinco anos) e que é essa eficácia que prende os norte-americanos ao compromisso transatlântico. Se o próximo presidente voltará a valorizar o consenso democrático ou não, o tempo o dirá. Mas no presente é preciso assegurar a manutenção e reforço de NATO, porque esta é, em última análise, a única forma de garantir a segurança europeia e a continuação dos regimes democráticos europeus. Sem isso, será tudo muito, mas muito mais difícil.

Foi com este o pano de fundo da Cimeira da Londres, esta semana. Caso esta predisposição se mantenha, a NATO pode ter-se transformado para fazer face ao seu novo dilema de segurança. Esta Aliança menos democrática pode ser a NATO do nosso descontentamento. Mas é a NATO que temos e que precisamos de manter.