É sempre fascinante procurar perceber não só aquilo em que as pessoas acreditam, como o modo como acreditam, a forma e a intensidade da sua crença. O que é quase uma outra maneira de dizer: o que faz sentido para elas, as exigências de sentido que têm, a tolerância ou a intolerância face ao que parece não fazer sentido ou que, de facto, não o faz.

Na vida corrente, a maior parte das pessoas lida bem com aquilo que aparenta não fazer sentido. É, de resto, uma condição indispensável da sobrevivência. O sem-sentido, real ou imaginário, está em todo o lado na realidade humana que nos rodeia: à superfície, nas acções que observamos, e no mais profundo, nas intenções que supomos nos outros (e, já agora, nas nossas próprias). Saber conviver com ele é uma necessidade absoluta. Claro que é preciso tentar compreender. Mas compreender é exactamente procurar determinar algo contra o pano de fundo de uma enorme indeterminação, isto é, de aparente não-sentido.

Há, é claro, excepções a esta atitude comum, que é uma atitude muito saudável. Uma é a dos grandes sistemas filosóficos. Eles ambicionam, regra geral, fazer sentido de tudo, ou, pelo menos, reduzir o espaço do sem-sentido a um resto indiferente e superficial. Este excesso faz parte do seu projecto e justifica-se por ele. Deixo-o, portanto, aqui de lado. Outra excepção, de uma natureza substancialmente diversa, é a de certas patologias mentais para as quais tudo obrigatoriamente faz sentido. Para um paranóico, no seu delírio sistemático, nada verdadeiramente é destituído de sentido: tudo tem obrigatoriamente de o possuir.

É curioso verificar que o pensamento político apresenta, mesmo nas mais pacatas criaturas, uma certa tendência a encaminhar-se para este pouco recomendável modo de pensar. Tudo tem que fazer sentido, e um sentido absolutamente unívoco, sem o mais leve vestígio de equivocidade. Todas as analogias são mobilizadas, das mais verosímeis às mais inverosímeis e selvagens. Longe de mim pretender que as analogias não são um modo necessário de pensamento. As próprias ciências se servem delas abundantemente e os assuntos humanos, por maioria de razão, requerem-nas certamente. Mas há limites para o seu uso. O entusiasmo, seja ele negativo, seja ele positivo, exigindo uma adesão total, descura por inteiro tais limites. Tudo conspira, como diziam certos filósofos gregos. Quer dizer: tudo participa do mesmo movimento, tudo, no limite, está ligado com tudo. A crença é absoluta e sem falhas.

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