A coisa apresenta-se assim: um puré vermelho ou alaranjado. Umas sementes por ali espalhadas. Uns pedacinhos de massa (sem glúten). Quiçá um ovo (pode ser substituído por natas de soja). E, a finalizar, a rúcula. A coisa constitui o prato forte (não há qualquer ironia nisto) das várias revistas de cozinha que nos sorriem ao pé das caixas dos supermercados.

Não sei o que me enerva mais se chamarem culinária a estas papinhas se aquela profusão de folhas de rúcula, tipo arranjo floral de verduras que temos a obrigação de mastigar porque dá  muito nas vistas deixá-las no prato.

A pobre da Eruca sativa é um dos meus ódios de estimação. Não propriamente ela que, mais amarga ou menos picante (ou vice-versa), lá se vai comendo-ruminando. O meu problema mesmo é com o que ela embrulha e simboliza: esta comida-papinha que por aí anda e que nos põem à frente, já devidamente empratada e cobertinha com aquelas folhinhas verdes que, na falta de ossos e espinhas para trincar, sempre nos ocupam os dentes. A sério, alguém conseguirá comer aquela vegetação espalhada por cima daqueles pratos onde purés coloridos devidamente misturados com uns picados, compõem uma espécie de refeições outrora de bebés e agora comida para adultos?

Serei só eu a achar que para lá da mania com a saúde, as proteínas, as zero calorias, os oligoelementos, as vitaminas e com o biológico – o que será comida não biológica? – há nestas paparocas uma infantilização das refeições? De repente é como se continuássemos a comer a abençoada papa da nossa infância de banana com laranja e bolacha (sim, bolachas que eram só bolachas e não um dilema gastro-moral!) mas agora na versão saudável dos legumes zero calorias, combinados com o puré de abacate de produção sustentável, sem esquecer a quinoa, “segredo dos incas”, e, por fim, a envolver aquilo tudo a folharada de rúcula!

Tenho para mim que as prateleiras dos supermercados e as revistas de de culinária traçam um retrato mais fiel das sociedades actuais que muitos inquéritos. (E também dos regimes políticos mas esse é um assunto que provavelmente não é aconselhável desenvolver no dia de hoje, pelo que me limito a sugerir que se pesquise “Venezuela supermercados” e logo se perceberá que o marxismo nunca falha no seu propósito de fabricar pobres.)

Afinal que melhor espelho do nosso tempo que esses corredores onde consumidores ansiosos lêem rótulos com a atenção outrora dedicada aos livros e seleccionam cervejas sem álcool, leite sem lactose, pão sem glúten, café sem cafeína, hambúrgueres sem carne, natas de soja, maionese sem ovo, queijo sem proteína do leite…?