Se alguma dúvida houvesse do controle socialista, teria bastado esta semana para a resolver. António Costa destrata aparentemente o ministro das Finanças, e a direita tarimbeira dos partidos pede, em catadupa, a demissão de Centeno. António Costa surpreende o presidente da república na Autoeuropa com um apoio malicioso, e a “direita inorgânica” (como Costa lhe chama) da imprensa e das redes sociais anuncia, em tropel, que não voltará a votar no presidente da república. Não sei se António Costa sorri. Mas pode sorrir à vontade. Pode, aliás, fazer o que quiser à vontade.

Não é certo o que se passou entre Centeno e Costa. Fosse o que fosse, o primeiro-ministro actuou como se não o incomodasse demasiado reduzir o “Ronaldo das Finanças” a proporções mais terrenas. A semana passada, já tinha havido o rumor de que, afinal, os colegas europeus o achavam “mal preparado”. Esta semana, Costa fez saber que não teria sido informado numa operação fundamental. É afinal o génio um trapalhão? Mas o mais interessante nesta história nem foi uma eventual mudança da relação de Costa com o seu Ronaldo: foi o modo como a oposição da direita se prestou a tomar o partido do primeiro-ministro. Nestes últimos dias, pareceu que, para a direita, só Centeno tem responsabilidades no governo.

Da mesma maneira, não é necessário especular sobre o que se passa entre o presidente da república e o primeiro-ministro. Desconfiam naturalmente um do outro. A presidência da república é, hoje, o único limite possível ao poder socialista no Estado. Costa teme certamente um segundo mandato, mas não tem alternativa. Dar-lhe-ia jeito diminuir o presidente. Como? O presidente tem evitado dar-lhe pretextos. Mas foi isso mesmo que Costa pôde aproveitar. Se não é possível ainda, sem o confrontar, criar-lhe dificuldades à esquerda, é fácil criar-lhe dificuldades à direita – pelo simples expediente de o apoiar, e confirmar assim todas as suspeitas de colaboracionismo. Foi o que aconteceu na Autoeuropa. O “número”, como o descreveram fontes do PS, resultou: eis a “direita inorgânica”, num regime dominado pelo PS, a tratar o presidente da república como se fosse o inimigo principal.

Não se trata aqui de defender Mário Centeno nem sequer o presidente da república. Centeno tem feito, enquanto ministro, o que convém a Costa, e o presidente, até agora, o que lhe convém a ele próprio, e que ele saberá interpretar como sendo o que convém ao país. O ponto, repito, é o modo como Costa pôde contar com a direita – a dos partidos e a “inorgânica” — para colaborar no que lhe interessa, fosse diminuir um ministro ou isolar o presidente. Mas não é de espantar. Nunca a direita portuguesa, derrotada, sem líderes e sem alternativas, contou menos. Não sabe o que representa, nem o que quer. Como é fatal nessas situações, são já só os ressentimentos que a movem. Contra Costa, claro. Mas também contra Centeno, a quem não perdoa a usurpação da causa das contas certas, e, claro, contra o presidente da república, como se dele esperasse a liderança da oposição. Por isso, a tivemos esta semana a alistar-se em massa, cheia de excitação, nos pelotões de fuzilamento político comandados por António Costa.

O regime, hoje, é esta confusão. Há uns meses, antes da quarentena, passámos pelos psicodramas do orçamento, com Costa e o BE zangados, muita gente a falar de eleições antecipadas, e o presidente da república a avisar que “não se pode começar a legislatura com ambiente de fim de ciclo”. Por detrás deste teatro, está o facto de nunca um político, desde 1974, ter tido tanto poder em Portugal, apenas porque uma sociedade fragilizada, instituições frustres e uma elite desorientada perderam a capacidade de o contrariar, até nas suas manobras mais óbvias. E assim o vemos, no topo do seu Estado inviável, artificialmente mantido pelo BCE, a ser servido até pelos seus supostos adversários.