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Na legislatura passada (nos tempos em que a Geringonça ainda tinha pilhas), uma das grandes polémicas do Governo era a quantidade de familiares que se sentavam no Conselho de Ministros e nos gabinetes ministeriais. Houve muitas críticas a esta prática. Que pai e filha ou marido e mulher não deviam fazer parte do mesmo Governo, pois isso gera conflitos de interesse, limita o escrutínio que membros do Governo exercem sobre a acção uns dos outros ou facilita a corrupção. O que é verdade, claro. Porém, gera também benefícios que, infelizmente, só agora reconhecemos. Benefícios superiores aos prejuízos, até. É que ter familiares no Governo permite-nos ler isto:

Sempre disse que o Eduardo é a melhor parte de mim. Não é ‘apenas’ o meu amor, o grande amor da minha vida, é também a pessoa, o político e profissional que eu admiro. É uma pessoa íntegra, honesta e responsável. É ‘o último dos impolutos’ como sempre me dizia Jorge Coelho.

É assim que começa o post que Ana Paula Vitorino, mulher de Eduardo Cabrita e sua ex-colega de Governo, publicou no Facebook no dia em que o ex-ministro da Administração Interna se demitiu. É ilustrado com uma selfie do casal dentro de um elevador, um local simbólico para se fotografarem, por representar a subida que os dois andam há anos a galgar.

Digam, se conseguirem, que não vale a pena haver nepotismo para podermos ler mensagens destas? Não me arrepiava com uma xaropada sentimental por Vitorino desde que ouvi o “Menina, Estás à Janela” umas quinhentas vezes seguidas, porque a K7 estava encravada no auto-rádio do meu Fiat Panda.

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Ana Paula Vitorino é uma esposa amantíssima, mas é um desastre a jogar àqueles jogos em que se dão pistas para adivinhar quem é a personagem. Definir Eduardo Cabrita como pessoa íntegra, honesta e responsável é como descrever Manuel Palito como calmo, bom e decente. Ana Paula Vitorino foi ministra do Mar, mas ao dizer que é íntegro quem culpa um morto, honesto quem mente sobre sinalização da estrada e responsável quem diz “sou passageiro”, mostrou que deve ser péssima a jogar à batalha naval. Onde acerta é ao citar Jorge Coelho quando se referia a Cabrita como “o último dos impolutos”. Eduardo Cabrita é impoluto no sentido em que uma frigideira de teflon é impoluta, repele tudo o que é sujidade, nada agarra. Cabrita não ficou marcado pelo escândalo das golas anti-fumo, nem pela morte do cidadão ucraniano às mãos do SEF e, mesmo agora, parece achar que basta passar um pano húmido para se limpar deste caso do atropelamento de um trabalhador na A6. “Impoluto” parece-me um óptimo termo. Há quem diga que um dos perigos de ter familiares na esfera do Governo é a falta de discernimento quando se trata de avaliar a prestação do colega. Eu diria que é uma vantagem:

O Eduardo é um homem competente que ‘leva a carta a Garcia’. E é também aquele que nunca nega solidariedade e lealdade; aquele que ‘dá o peito às balas’ para defender aquilo em que acredita, mesmo não tendo culpa nenhuma; mesmo em prejuízo de si próprio. É generoso e amigo do seu amigo, mesmo num mundo que se transformou em desapego e indiferença de memória curta.

Eis outro ponto positivo em haver um casal que tem o mesmo patrão. Aqui, Ana Paula Vitorino não está a falar propriamente do seu marido, está a falar de António Costa. É por Costa que Cabrita leva a carta a Garcia e outras missões de confiança, é a Costa que Cabrita não nega solidariedade e lealdade, é por Costa que Cabrita dá o peito às balas. E é Costa que se aproveita da generosidade de Cabrita e que se esquece do seu amigo. Ana Paula Vitorino é mais dura com o primeiro-ministro do que Rui Rio.

Quase chorei por Cabrita. Mas depois lembrei-me que Cabrita não apreciaria a lamechice. Se ele aguenta não mostrar a mínima emoção perante tragédias mortais ocorridas sob a sua tutela, não sou eu que vou chorar só porque o seu amigo o destratou. Vou ser forte.

Esta não é a primeira vez que os Vitorino Cabrita usam as redes sociais para criticarem o primeiro-ministro. Quando Ana Paula Vitorino não foi reconduzida como ministra do Mar, Eduardo Cabrita partilhou no seu Facebook um texto que criticava essa decisão. Eduardo e Ana Paula são muito acutilantes na internet. António Costa deve ter ficado com as orelhas a arder. (Quer dizer, as orelhas ardem quando alguém diz mal de nós nas costas. Quando é via repost na Internet, não sei que apêndices ardem. Vou investigar e logo digo).

A crítica será justa? Não sabemos. Eduardo Cabrita foi usado por António Costa e descartado na véspera das eleições, mas a verdade é que António Costa criou Eduardo Cabrita. É uma espécie de Mostro de Frankencosta e o dono é que manda. É natural que o primeiro-ministro trate Cabrita como, por exemplo, Cabrita tratou o motorista. Foi António Costa quem indicou Cabrita para o seu primeiro cargo, em Macau. (Aliás, pode vir daí um dos problemas de Eduardo Cabrita: passou tanto tempo em Macau que acha que todos temos paciência de chinês para o aturar tanto tempo no Governo).

Entretanto, o post de Ana Paula Vitorino continua na mesma toada elogiosa, mas o tom altera-se ligeiramente:

O Eduardo é um Homem com letra maiúscula e terá sempre o meu apoio e o meu agradecimento por tudo o que tem trazido de bom à minha vida e pela mais-valia que tem sido para o nosso País. Bem hajas!”

De amoroso, passa a institucional. Eduardo deixa de ser o amor da vida de Ana Paula e passa a ser o Dr. Cabrita, apoiado pela Dra. Vitorino. Em vez de carinho, merece agradecimento por ser uma mais-valia para Portugal. “A tua mais-valia deixa-me maluca!” não é lá muito ardente. No fim, remata com um fraternal “bem hajas”, daqueles que se desejam aos camaradas, mas não aos amantes. Uma mulher que diz “bem hajas” ao marido, provavelmente dirige-se a ele como “ó amigo” e cumprimenta-o com um passou-bem e uma pancadinha no ombro. Se eu fosse a Eduardo Cabrita, começava a achar que ex-ministro não é o último “ex” com que acaba 2021.