O facto de a maioria das forças políticas não duvidar que Marcelo Rebelo de Sousa irá ser reeleito Presidente da República parece transformar a luta eleitoral num desfile de vaidades partidárias em que os interesses dos portugueses passam para segundo plano.

Quantas tinta e palavras não se gastaram para chamar a atenção para o facto de o avanço da extrema-direita em Portugal ser um perigo cada vez mais real e sério? Gastaram-se rios de tinta, mas o que se passa na prática? Estende-se a passadeira vermelha para que André Ventura conquiste o segundo lugar e até possa disputar uma segunda volta com Marcelo Rebelo de Sousa.

As presidenciais irão decorrer num período de profunda crise económica e social, no meio de uma pandemia que teima em continuar. Situações como estas são frequentemente utilizadas para o assalto ao poder de dirigentes populistas e extremistas. A história está cheia de exemplos, mas não vejo que as elites políticas portuguesas tirem as devidas conclusões.

A extrema-esquerda, a que mais ruído faz sobre o perigo do avanço da extrema-direita materializada na aposta presidencial de André Ventura, não renuncia aos seus vários candidatos, alegadamente para levarem até aos eleitores as suas mensagens políticas. Ficámos a saber, por exemplo, que Mariza Matias, candidata do Bloco de Esquerda, é “socialista, leiga e republicana”.

Esta definição é claramente uma cópia da declaração semelhante de Mário Soares, que se dizia “socialista, republicano e laico”, mas, pelo menos no que diz respeito ao socialismo, o defendido pelo antigo Presidente da República, está para o de Mariza Matias como o “socialismo sueco” ou “norueguês” está para o “socialismo cubano ou venezuelano”.

O Partido Comunista Português, seguindo a sua eterna “coerência”, apresenta como candidato João Ferreira, político da nova geração, mas com o mesmo discurso de sempre, o que leva a crer que não irá muito longe na conquista do voto da juventude.

Ainda poderá aparecer mais algum candidato da extrema-esquerda, talvez do MRPP ou de outro grupelho, que só vêm à luz do dia em tempo de eleições.

Os candidatos do Partido Comunista Português e do Bloco de Esquerda irão jurar a pés juntos que um dos principais objectivos das suas campanhas será derrotar André Ventura, líder do Chega, mas, na realidade, abrem caminho para que este candidato da extrema-direita fique em segundo lugar e dispute a presidência com Marcelo Rebelo de Sousa numa segunda volta.

Recorrendo à história, seria mais lógico esperar que, face à ameaça de extrema-direita, que é uma ameaça real ao sistema político português, esses partidos apoiassem a candidata independente Ana Gomes, aquela capaz de congregar os mais amplos sectores da esquerda para derrotar André Ventura. Seria muito mais lógico, até porque o líder do Chega prometeu demitir-se se fosse por ela ultrapassada no número de votos.

Além disso, tendo em conta o percurso político da antiga embaixadora e deputada, as causas que defende, principalmente o combate à corrupção, é previsível que ela vá conquistar parte do eleitorado do PCP e do BE e os candidatos da extrema-esquerda obtenham resultados humilhantes. Porém, uma vez que Ana Gomes não tem o apoio do seu próprio partido, ela poderá não conseguir ficar à frente de André Ventura.

Claro que, à primeira vista, isso não constituirá nenhuma tragédia política, pois a derrota da extrema-direita na segunda volta é um dado adquirido. Segundo o esquema clássico, o BE e PCP declararão o seu apoio ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, dando a entender que tiveram de “engolir um grande sapo” em nome da “salvação da democracia”. Irão, todavia, cometer o segundo erro irremediável: dar ao Chega e a André Ventura um peso político que a extrema-direita nunca sonhou ter depois do 25 de Abril de 1974.

Mas não é só a extrema-esquerda que “brinca com o fogo”, pois o aumento do peso eleitoral do Chega também se realiza à custa da erosão da direita e da esquerda democráticas.

A segunda vaga da pandemia é cada vez mais uma realidade, a crise económica e o desemprego adquirem dimensões inauditas, a corrupção e o nepotismo corroem o nosso sistema social, político e económico. Nesta situação, as actuais elites políticas em Portugal deveriam preparar o país para enfrentar as tempestades presentes e futuras, mas receio que o não consigam fazer. Se até agora os fundos europeus estiveram longe de ser bem empregues, não acredito que a situação vá mudar quando começarem a “chover” euros da União Europeia.

Os extremismos continuarão a ter, assim, um território fértil para crescer em Portugal, tal como acontece na Europa. Salvini, Marine Le Pen, Órban, etc. não caem do céu, são fruto da desorientação da União Europeia, num momento em que esta organização atravessa um dos seus mais difíceis períodos.

Em Portugal, na cruzada contra a União Europeia encontram-se Mariza Matias, João Ferreira e André Ventura.