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Eleições de 2022? Vamos ter o PSD-Belenenses SAD a jogar com o PS-Benfica. O Belenenses SAD acabou a jogar com nove jogadores. Já o PSD alienou em poucos anos o eleitorado que fez aparecer e crescer o Chega e a IL. No caso do Belenenses, a culpa de tão bizarra apresentação em campo será da COVID. Já no PSD a explicação para tal auto-sangria encontra-se na particular idiossincrasia de Rui Rio: o homem que ocupa o seu tempo e gasta as suas energias a derrotar os seus  correlegionários enquanto aspira aliar-se com os adversários. O PS é obviamente o Benfica desta questão. Afinal a direita em Portugal não aspira a ter um projecto político mas sim a ser influencer: Rui Rio concebe-se como o sinal mais ou menos nas rubricas do Orçamento. Marcelo como o emoji coração da nossa vida política.

PSD: um partido que se deixou cair na tenaz PS-Chega. De um lado está o Chega, a afirmar que ou o PSD negoceia com o Chega ou não governará. Do outro o PS, deslocando toda a discussão para as propostas do Chega. O crescimento do Chega é a melhor notícia para o PS e não apenas, ou nem sequer, pela transferência de votos do PSD para o partido liderado por André Ventura mas sobretudo porque o PS mantém o PSD constantemente em estado de prevenção a provar que não defende por actos, palavras ou omissões o mesmo que o Chega. Durante a próxima campanha eleitoral o tema essencial da campanha não será portanto o desempenho do Governo ou o falhanço dos entendimentos dos partidos que o sustentavam mas sim o Chega e muito particularmente as explicações do PSD sobre a sua relação com o Chega. Antigamente tínhamos os idiotas úteis, agora temos os reaccionários úteis.

Carlos Moedas: ficou mais só mas não necessariamente pior. No almoço para que convidou Rangel, terá Carlos Moedas comido pastéis de bacalhau com queijo da serra, especialidade do restaurante onde Rangel e Moedas se deixaram ver na tarde da última quarta-feira? Se o pastel de bacalhau recheado com queijo, gastronomicamente falando, não faz sentido algum, na minha não muito modesta opinião (nestas coisas de receitas e experiências gastronómicas tenho certezas e embirrações para dar e vender!) do ponto de vista político a conversa é outra: com Rio reforçado, Moedas arrisca tornar-se um corpo estranho numa massa homogénea. Não porque Moedas fosse um rangelista mas sobretudo porque uma vez Rangel fora da corrida, Moedas fica mais isolado perante Rio. O que é uma forma de solidão que Moedas pode ou não conseguir transformar em protagonismo. Para já, o hábito penitencial da extrema-direita está a ser-lhe enfiado: o vereador na CML do PS, João Paulo Saraiva, não achou nada mais adequado para justificar a rejeição dos socialistas à proposta de Moedas para que o Programa de Renda Acessível da Câmara de Lisboa passasse a ter como requisito que os candidatos tenham residido na capital nos últimos 10 anos, do que invocar a xenofobia, o racismo e até “os confrontos entre várias pessoas de uma mesma região”. Como é óbvio há autarquias, algumas delas socialistas, que exigem não só que se seja residente no concelho há vários anos como estar ali recenseado, o que convenhamos é um requisito bem mais difícil de preencher. Mas o que para o caso conta foi o poder atirar-se com o anátema do costume para o lado do costume.

PS. O que fazer com este Rio? Para já o PS pode começar a dizer adeus ao sonho da maioria absoluta pois Rui Rio animado por aquilo que realmente o estimula – derrotar aqueles que dentro do seu partido não pensam como ele – será um adversário mais difícil para um António Costa hábil nos bastidores mas invariavelmente desajustado nas campanhas propriamente ditas.  O PS conta com Rio para continuar no poder. Com a naturalidade de quem muda de camisa, o círculo de António Costa que em 2015 exultava com o mundo novo aberto pelas negociações com a esquerda radical, anunciou em 2021, após ver o PCP e o BE chumbarem o Orçamento, que pretende negociar à sua direita e muito particularmente negociar com Rui Rio. Ferro Rodrigues com aquele zero absoluto de subtileza que se lhe conhece ao mesmo tempo que afirmava “Aconselhei sempre António Costa a não fechar as portas ao PSD” declarava “Paulo Rangel? “Não tenho ideia. Não conheço“. O PS já abriu a porta.

PS. Onde está Peng Shuai, a tenista chinesa desaparecida após denunciar ter sido violada pelo antigo vice-primeiro-ministro da China, Zhang Gaoli? Há um ano e meio era notícia o desaparecimento de Ai Fen, a médica que denunciou as condições de saúde em Wuhan e as tentativas das autoridades para encobrirem as mortes por Covid-19. Também tivemos os desaparecimentos da actriz Zhao Wei, dos empresários Jack Ma e Ren Zhiqiang... No mesmo mundo que revolve crimes praticados há séculos e que entrevê violências e agressões nos mais simples gestos, aceita-se como uma fatalidade a brutalidade do regime chinês. O frenesi activista em que vivemos é particularmente selectivo e a China sabe disso.

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