A grande movimentação de líderes mundiais, cientistas, activistas e delegações para a Cimeira do Clima Cop26, em Glasgow, fez centrar a atenção em questões fundamentais que dizem respeito a cada um nós. Quando ouvimos falar em “Encontro do Clima” relacionamos, de imediato, com o tema da mudança climática que o mundo está a viver. No entanto, a Cimeira em Glasgow vai muito para além das concertações sobre o clima. Daí o impasse na tomada de resoluções concretas que se tem verificado ao longo dos anos.

A 4 de Outubro, realizou-se em Roma, Vaticano, um encontro prévio com dezenas de líderes religiosos e cientistas a fim de trabalharem as propostas a apresentar à COP26 pela Delegação da Santa Sé em Glasgow. Os intervenientes centraram-se na importância da relação entre “Ciência e Fé: Rumo à COP26”. Ciência e Fé, para um agir comum da humanidade face à mudança climática. Especificando um pouco mais, trata-se de fazer convergir a ciência com a fé cristã. Porque o que está em jogo é algo mais profundo e não tão evidente como acreditamos ser. A Cimeira dos G20, em Roma; a Cimeira do Clima, em Glasgow; passando pela Web Summit, em Lisboa, reuniram-se quase em simultâneo para debaterem um objectivo comum: a “evolução da evolução”. Ou seja, o modo de acelerar o processo da evolução da humanidade dando cada vez mais precedência à tecnologia. E é aqui que reside o paradoxo.

Segundo afirmações de um dos laureados com o Nobel da Física, de 2019 (James Peebles, entre outros), os cientistas da cosmologia encontram-se num grande impasse pelo desconhecimento que têm da “energia escura”, que conduz o Universo à expansão acelerada. Estimando o ritmo de aceleração, preveem a morte térmica como o fim mais provável de toda a forma de vida existente, não apenas no planeta Terra mas em todo o Universo. Depois de obterem a cartografia das flutuações térmicas da radiação cósmica de fundo, quando a matéria se tornou permeável à luz, 380 000 anos após o Big Bang, os físicos conseguiram ajustar alguns parâmetros cosmológicos: só conhecem 4% da constituição do Universo, desconhecendo os restantes 96%, formados de 26% de matéria escura e 70% de energia escura. Com tais previsões, os cientistas olham com insistência para o Universo primitivo a fim de resolverem um outro enigma que corresponde à era de Planck, ou seja, o limite do campo de observação para além do qual os físicos não conseguem aceder. Há todo um conjunto de teorias que apontam para a existência de uma pré-história, muito para além do Universo primitivo. Acrescenta-se a isto um novo campo de estudo, a Exo-cosmologia, com a descoberta de 4000 exo-planetas, fora do nosso Sistema Solar.

Os cientistas sabem que para aceder a mais realidade é necessária uma renovação antropológica do ser humano, pela incompatibilidade entre estados da matéria; isto, se queremos ultrapassar os limites da nossa natureza humana terrestre, finita, e abarcar uma realidade mais vasta. Inclui-se, nesta perspectiva, a preparação humana para resistir à actual etapa histórica e civilizacional da mudança climática. É neste preciso ponto que entram as bio e nanotecnologias, a engenharia genética, a inteligência artificial, as neurociências, que se orientam para o transumanismo. Os cientistas das biotecnologias e engenharia genética acreditam que necessitamos de uma inteligência superior que nos guie e indique o modo de aceder ao desconhecido. Os mentores do transumanismo idealizam a potenciação do ser humano pela incorporação de dispositivos electrónicos e a implantação de próteses inteligentes. Todos temos consciência de como grande parte da humanidade é já consubstancial às tecnologias. No entanto, tudo o que está a acontecer no mundo encontra-se limitado, no plano científico, ao horizonte dos 4% do Universo conhecido. A fé na ciência, que aponta para os limites naturais do conhecimento humano, apresenta-se fortemente condicionada. Qual poderá ser, então, o contributo da fé cristã para ultrapassar este condicionamento?

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Foi esta questão que levou cientistas e líderes religiosos ao encontro prévio, em Roma, a fim de ampliar os horizontes: “Que tipo de vida queremos viver nos próximos anos? Que mundo queremos deixar para as gerações futuras nas próximas décadas?”. Uma resposta válida para esta ligação entre ciência e fé cristã pode ser encontrada na Carta Encíclica de Bento XVI, “Salvos na esperança”, publicada em 2007. Apoiando-se na Carta aos Hebreus e na grande Tradição da Igreja, afirma: “A fé é a substância das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem” (Hb 11, 1). Identifica a fé cristã como “substância”, ou seja, o novo estado da matéria, incoado na natureza humana pelo Baptismo. Muito embora toda a humanidade se encontre potencialmente numa nova realidade, pela redenção de Jesus Cristo, é, porém, no Baptismo que se consolida esse novo estado da matéria na natureza humana, de modo a permitir que o organismo espiritual se desenvolva nessa substância da fé infusa. O próprio São Paulo afirma-o na segunda epístola aos Coríntios: “Se alguém, pois, está em Cristo, é uma nova criatura: passaram as coisas velhas; eis que tudo se fez novo. (…) É por isso que não desfalecemos; pelo contrário, embora se vá arruinando em nós o homem exterior, todavia, o homem interior vai-se renovando de dia para dia” (5, 17; 4, 16).

A humanidade encontra-se, então, numa encruzilhada face à tomada de decisões arrojadas: ou deixar-se potenciar pela fusão da natureza humana com a tecnologia (um mundo dispendioso e arriscado a que apenas alguns terão acesso), ou assumir a fé cristã infusa como entrada e participação numa nova realidade. Parece ser esse o apelo que Jesus ressuscitado dirigiu aos Apóstolos: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, ensinai todas as gentes, baptizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir todas as coisas que vos mandei. Eu estarei convosco até ao fim do mundo”. (Mt 28, 19). No início da sua vida pública Ele já tinha sido categórico: “Completou-se o tempo e aproxima-se o Reino de Deus” (Mc 1, 15).

A fé na ciência, adquirida pela razão, e a fé cristã infusa, adquirida no Baptismo, não se contradizem. Complementam-se e potenciam-se. Porque o mundo natural foi potenciado com um novo estado da matéria. Para o Cristianismo o mundo novo, com um novo estado da matéria, já teve início com a obra da Redenção da qual todos participamos potencialmente. Caminhamos a passos largos não para uma finitude, mas para uma transfiguração dos elementos constituintes do Universo. É isto que os físicos teóricos estão a detetar. Não bastam, portanto, os meios tecnológicos para acedermos a um conhecimento mais vasto, pois só conseguiremos salvar a Terra quando tivermos despoluído o nosso próprio mundo naquilo que há de mais pessoal.