Estamos cansados do tema da Covid-19 e da quarentena. Queremos acreditar que vai correr tudo bem. Infelizmente, há sinais de que nem tudo está ou irá correr bem. Há mesmo sinais de que o mundo globalizado e interconectado em que temos vivido, pode estar ameaçado. Há sinais de que podemos estar a caminho de uma verdadeira guerra pelo controlo da cura para a pandemia.

Este é, por isso, um texto mais longo do que será a regra aqui, mas mais curto do que o tema exigiria. Espero que seja, apesar disso, um texto suficientemente estruturado para ser claro para quem tiver a paciência de o ler até ao fim, ou, em alternativa, facilite a tarefa de saltar por cima das partes que não interessem tanto.

Com a Covid-19 a incerteza dominará a política e a economia global no futuro próximo, até se encontrar, e implementar globalmente, uma cura eficaz. A prova de coragem neste contexto não é ir para a rua assobiando alegremente como se nada se passasse, nem ficar fechado em casa de olhos fechados à espera que tudo passe. Temos de lidar de olhos abertos com as implicações para o mundo de uma doença nova, para melhor lhe podermos responder em Portugal e na Europa.

O que sabemos, o que não sabemos, e a necessidade de gerir o risco

Sabemos que a Covid-19 já matou mais de 300.000 pessoas, das quais metade são europeus como nós. Sabemos que continuará a matar, sobretudo os mais velhos e os afetados por doenças crónicas, até se encontrar uma vacina ou cura eficaz. Sabemos que biliões foram obrigados a ficar em casa na maior quarentena da história da humanidade. Sabemos que a Comissão Europeia estima que os vários custos da Covid-19 na Europa representarão, no mínimo, uma contração de -7% da economia europeia, podendo ir até aos -15% ou mais. Sabemos que não temos registo de uma queda tão abruta e tão simultânea das economias no conjunto do globo. Mas também há muito que não sabemos, e talvez até seja o mais interessante.

É uma crendice perigosa pensar que alguma vez vivemos ou poderemos viver em sociedades de risco zero, onde um Estado todo-o-poderoso pode garantir que nada de mal nos irá acontecer.

Desconhecemos ainda a duração, intensidade e geografia do impacto final da Covid-19 e da enorme crise económica que está a gerar. Não sabemos qual será a cura mais eficaz ou que tratamentos, medicamentos e vacinas funcionarão ou não. Também não sabemos quais serão as melhores estratégias de conciliação da saúde das pessoas com a saúde da economia. Também por isso, não sabemos quanto tempo durará a pandemia ou se virá em vagas e com maiores ou menores mutações do vírus e da sua letalidade. Não sabemos qual será o seu custo final, em vidas e nos nossos modos de vida. Não sabemos se a geografia final do seu impacto será aquela que já conhecemos, com a pandemia a atingir com maior força os países mais envelhecidos e as regiões mais densamente povoadas e conectadas do Mundo, nomeadamente na Europa e nos EUA. Não sabemos se veremos alterações significativas neste mapa das principais vítimas da pandemia, como o caso do Brasil com o seu preocupante crescendo de casos poderá indicar.

É uma crendice pensar que há algures um sabe-tudo que tem a solução para todos os problemas criados pela Covid-19. É uma crendice perigosa pensar que alguma vez vivemos ou poderemos viver em sociedades de risco zero, onde um Estado todo-o-poderoso pode garantir que nada de mal nos irá acontecer. A República Popular da China foi incapaz de impedir o surgimento desta pandemia, apesar do Partido Comunista chinês ter concentrado em si enorme poder.

A gestão do risco faz parte da vida de todos nós. Mas para ser feita de forma inteligente e eficaz, é necessário termos informação de qualidade, alguma flexibilidade e capacidade de aprender lições. Devemos aprender com o passado – de preferência, com o passado dos outros – para evitar erros desnecessários. Por isso me parece indispensável aprendermos com a experiência de vários países, nomeadamente os asiáticos, que estão numa fase mais adiantada do combate à pandemia. Pareceu haver na Europa, na fase inicial, um certo preconceito relativamente a aprender com a experiência de países asiáticos, veja-se a questão do uso das máscaras. Isso é um erro que nos poderá sair caro.

Um exemplo concreto dessas lições “asiáticas” que parece merecer, no mínimo, atenção nesta fase de desconfinamento, é a importância do uso responsável de novas tecnologias, como apps para evitar contágios descontrolados. A União Europeia deveria ter aqui um papel importante, se os Estados deixarem, em encontrar um modelo que proteja direitos, mas não nos deixe às cegas, e que seja compatível no conjunto do espaço europeu.

Neste espírito de não continuar às cegas a nossa gestão do risco da Covid-19, apontaria para três das questões fundamentais relativas ao seu impacto no Mundo:

  • Quem irá controlar a cura?
  • A pandemia levará a uma Grande Depressão, ao fim da Globalização e a mais caos e guerras?
  • A Covid-19 dará vantagem a regime autoritários?

A cura como arma geopolítica

Qual será a cura ou a vacina mais eficaz no combate à Covid-19? Quem descobrirá e produzirá essa cura, e em que termos serão estes tratamentos distribuídos a nível global? Não sabemos com certeza. Mas sabemos que a maioria dos candidatos mais prováveis a providenciar um tratamento ou uma vacina estão na China ou na EUA, e um ou duas na Europa. E sabemos também que os melhores remédios para combater a Covid-19 tornaram-se trunfos sem igual numa política global dominada pela pandemia, e que se tem tornado cada vez mais competitiva.

No futuro, será fundamental que os países da Europa se coordenem para aumentar a sua autonomia e as reservas em setores estratégicos como o da saúde, pois, tal como Portugal, a maioria dos Estados europeus são demasiados pequenos ou pobres para o poder fazer eficazmente e a um custo aceitável.

Na verdade, os dois países mais fortes militar e economicamente no Mundo de hoje, a China, quer os EUA não parecem estar a sair-se muito bem desta pandemia. Nenhum se afirmou como líder eficaz e consensual na resposta global à Covid. Talvez por isso os EUA e a China pareçam tão empenhados em recuperar terreno por via do controlo da cura. Notícias recentes de espionagem chinesa a empresas farmacêuticas norte-americanas envolvidas no desenvolvimento da vacina apontam para a intensidade desta competição. Mas talvez ainda mais reveladoras sejam as tensões reportadas na imprensa entre aliados, nomeadamente, entre a Alemanha, a França e os EUA, em torno de farmacêuticas envolvidas na investigação de uma vacina. O efeito de países membros da NATO usarem uma vacina ou uma cura de acordo com uma lógica puramente nacionalista, ignorando os interesses dos seus aliados, seria terrível para a coesão e a viabilidade futura desta aliança, que ainda é, de longe, a mais robusta do Mundo.

Os peritos em epidemias insistem que, independentemente de questões éticas, em última análise, estamos todos juntos nisto. Será necessária uma percentagem muito significativa da população mundial ficar imunizada ao vírus para ele deixar de ser uma ameaça. Mas será um grande desafio conseguir produzir biliões de doses de uma vacina ou de outro tratamento, portanto, o receio de que as grandes potências pensem apenas ou sobretudo nos seus interesses é grande e parece justificado. Esperemos que sejam rumores maliciosos, mas preparemo-nos, na Europa, para o caso de não ser assim.

A UE e a Fundação Bill & Melinda Gates (que é uma grande potência financeira no campo da saúde global) têm estado apostadas em contrariar as lógicas nacionalistas, oferecendo financiamento para investigação e produção destes medicamentos na condição de que sejam distribuídos de acordo com critérios médicos e disponibilizados globalmente o mais depressa possível. A Comissão Europeia organizou recentemente um apelo global, que recolheu mais 7 mil milhões de euros para este efeito. Muitos foram os países, as organizações e os indivíduos que contribuíram, mas tal não foi, significativamente, o caso dos governos da China ou dos EUA.

No futuro, será fundamental que os países da Europa se coordenem, com a ajuda das instituições europeias, para aumentar a sua autonomia e as reservas em setores estratégicos como o da saúde, pois, tal como Portugal, a maioria dos Estados europeus são demasiados pequenos ou pobres para o poder fazer eficazmente e a um custo aceitável. No presente, é crucial que os países europeus se continuem a coordenar para garantir que a cura quando chegar é para todos.

Evitar uma Grande Depressão

No impacto da pandemia para além do curto prazo uma coisa parece evidente: a economia é fundamental. Nunca na história da humanidade a economia parou praticamente ao mesmo tempo e por tanto tempo em tantos países. Assim, é agora fundamental encontrar formas criativas de conciliar as preocupações em evitar mortes desnecessárias com a necessidade de evitar matar a economia. Veremos, provavelmente, acentuarem-se as dinâmicas de inovação tecnológica e uma digitalização ainda maior da economia. Mas, com é evidente num país como Portugal, os setores tradicionais como o turismo ou a restauração, dominados por PMEs não podem simplesmente ser deixados morrer.

Será fundamental que os Estados e a União Europeia avançarem com enormes quantidades de investimento a fundo perdido para evitar que todo o esforço de reconstrução da economia desde a crise de 2008/11 seja perdido. Convém recordar que o Plano Marshall, de 1948, que tem sido frequentemente referido neste contexto, não foi uma oferta caridosa dos EUA à Europa do pós-Segunda Guerra Mundial. Ele correspondeu aos interesses económicos norte-americanos, que precisavam de um mercado europeu próspero para onde exportar e no qual investir. Correspondeu aos interesses de segurança dos EUA que não queria a Europa Ocidental no caos que a deixaria vulnerável face ao seu rival, a Rússia soviética. Hoje não basta dizer que não queremos que a China compre toda a Europa, é preciso encontrar alternativas credíveis.

Será que ainda teremos euros no bolso ou no cartão de crédito daqui a uns anos ou será a moeda europeia uma vítima mais da Covid-19? Muito dependerá da criatividade e da credibilidade do Banco Central Europeu, apesar da sua tarefa ter sido tornada mais difícil pelo Tribunal Constitucional alemão. Para além do BCE, também os Estados membros e a Comissão Europeia têm de fazer a sua parte. Esperemos que a Chanceler Merkel tenha a coragem de investir e arriscar o seu imenso capital político para evitar o risco do colapso da economia europeia, como o fez em 1948, George Marshall, para ajudar a Alemanha. Ninguém questiona os sucessos alemães nas últimas décadas. Mas será bom recordar que eles seriam impensáveis fora do contexto do euro, ou da UE.

Alguma mutualização da dívida dos países europeus parece indispensável, e não só pela escala dos fundos necessários para evitar uma Grande Depressão. Este será, em sim mesmo, um teste valioso para os mercados globais perceberem se os Estados das UE estão realmente dispostos a pôr de lado velhos tabus e a fazer de tudo para salvar a economia europeia desta crise. Vital para o futuro economia europeia e portuguesa será também que o plano europeu de resgate da economia seja suficientemente vasto, generoso e flexível, e suficientemente rápido, para ser útil. Os montantes e as modalidades deste plano de resgate da economia europeia são pontos cruciais que ainda não conhecemos, esperemos que não por muito tempo.

O fim da globalização sairia cara à Europa

O nacionalismo e a xenofobia são respostas habituais na história às grandes crises, às grandes epidemias. Há, portanto, um risco real de que a economia globalizada que conhecemos seja mais uma vítima do vírus, ou pelo menos se torne um fantasma, uma sombra do seu passado. Há o perigo de que organizações multilaterais como a OMS ou a OMC se transformem numa espécie de mortos-vivos, não formalmente extintas, mas privadas de financiamento e sem capacidade de se funcionar adequadamente. Ora, o fim da economia globalizada que conhecemos seria um enorme desafio para o conjunto da Europa que tem nas exportações e no turismo uma parte fundamental do seu modelo económico, quer estejamos a falar da Alemanha ou de Portugal.

Numa economia significativamente menos global, dificilmente deixaremos de ficar significativamente mais pobres. Se a sobrevivência do próprio mercado europeu ficasse em risco, então as consequências seriam catastróficas.

Claro que o regresso a um modelo de maior produção e maior consumo no mercado interno poderá trazer alguma compensação. Mas parece-me duvidoso que seja suficientemente para compensar a perda de mercados externos gigantescos como a China ou os EUA. As crescentes tensões entre a China e os EUA tornam cada vez mais provável um cenário em que Pequim e Washington tentarão criar verdadeiros blocos ideológicos e comerciais. A UE deve procurar contrariar isso. Deve apontar como alternativa para a reformas de organizações como a OMS ou OMC. Deve também tratar do reforço da sua capacidade própria em setores realmente estratégico. Deve combater práticas abusivas por parceiros comerciais pouco honestos. Mas também deve combater as tentativas de criar economias muradas face a tudo o que venha do exterior. Ao mesmo tempo deve preparar-se para o pior cenário, desde logo continuando a reforçar laços com outros países e organizações com preocupações semelhantes, como o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália ou organizações como a ASEAN ou MERCOSUL. Numa economia significativamente menos global, dificilmente deixaremos de ficar significativamente mais pobres. Se a sobrevivência do próprio mercado europeu ficasse em risco, então as consequências seriam catastróficas. Basta pensar num Portugal dependente apenas do turismo doméstico.

Combater a proliferação de conflitos

A nossa única grande certeza relativamente à Covid-19 é, para já, uma enorme incerteza, e isso é em si mesmo um dado muito importante quando falamos do seu impacto na economia ou na intensificação dos níveis de conflito. Esta incerteza gera uma enorme volatilidade. Não há nada pior para os agentes económicos do que fortíssimas oscilações no consumo, nos preços, na produção, que são difíceis de prever ou contrariar. Mas pior ainda é que uma enorme volatilidade é também um fator potenciador de mais e mais intensos conflitos violentos. O pico da incerteza e da volatilidade económica no século passado foi atingido a seguir a 1929 com a chamada Grande Depressão. Dez anos depois tivemos a Segunda Guerra Mundial.

No curto prazo, o receio da Covid-19 pode ter atenuado alguns conflitos em curso. Até o Daesh/ISIS avançou com recomendações sanitárias para proteger os seus terroristas. E a doença poderá dar o pretexto honroso para o início de negociações entre grupos em confronto já anteriormente desejosos de um compromisso. Mas uma emergência destas não levam a uma paz duradoira. Neste campo dos conflitos muito dependerá de sabermos se teremos ou não uma longa e profunda Grande Depressão, ou uma forte recessão que depressa levará a uma recuperação que dará esperança mesmo àqueles mais atingidos. Quando nada se tem a perder, o custo de recorrer à violência cai perigosamente.

O que será, em todo o caso, fundamental, é que os países da Europa não desinvistam da Defesa nesta altura de enorme incerteza. Isso iria criar ainda mais tensões no seio da NATO, com os EUA muito determinados a conseguir que os seus parceiros europeus partilhem mais do esforço de defesa coletiva. Seria um erro num contexto em que podem multiplicar-se as situações de conflito armado ou de caos. Seria um erro porque o investimento em defesa também pode e deve ser uma forma de estimular a economia, de promover a inovação tecnológica e o emprego qualificado (países como os EUA, Israel ou China têm demonstrado isso com grande sucesso). Seria, sobretudo, um erro porque, como ficou evidente nesta pandemia, as Forças Armadas servem para muito mais do que combater inimigos tradicionais. Desinvestir na robustez dos seus meios e na prontidão dos seus homens seria reduzir a capacidade de resposta dos países europeus a uma nova emergência complexa como aquela que agora vivemos. O que podemos e devemos fazer é, recorrendo a mecanismos que já existem, investir de forma mais coordenada e que beneficie todos, nomeadamente no seio da UE.

Líderes autoritários não ganham no combate à Covid-19, mas por vezes parece

Têm surgido várias listas de vencedores da pandemia ao nível da política e da economia global. Entre os vencedores apontados estão precisamente líderes e regimes mais ou menos autoritários, nomeadamente, o de Xi Jinping e o PC chinês, ou, na Europa, o de Viktor Órban da Hungria. O caso da autodesignada democracia iliberal de Orbán na Hungria é efetivamente paradigmático do risco, na própria Europa, do abuso dos poderes de emergência no contexto do Covid-19. É verdade, como diz o hábil Orbán, que outros países europeus, inclusive Portugal, também deram aos seus governos poderes de emergência.  Os sinais de alerta fundamentais, porém, são quando esses poderes de emergência não têm limites temporais, são usados para fins que nada têm que ver com a emergência, e escapam ao escrutínio do parlamento, dos tribunais ou de eleições. No caso da Hungria estão presentes todos ou quase todos estes elementos que nos devem alarmar. As instituições da União Europeia e o Partido Popular Europeu, de que o partido de Orbán ainda faz parte, embora esteja suspenso, têm aqui um papel importante. Devem aumentar a pressão para garantir que o líder húngaro recue. Órban é um artista na dança política leninista de dar um passo atrás para depois dar dois para a frente, de testar os limites do possível. E é, por isso, provável que acabe por anular grande parte destas medidas se perceber que há um preço real a pagar no contexto europeu. Caso contrário, pode-se criar um precedente perigoso para o mínimo de coesão em valores básicos que é indispensável para uma estrutura como a União Europeia poder funcionar.

Alguns Estados, para já, responderam melhor a este duro teste. A boa notícia é que todos eles ou quase, da Coreia do Sul até a Alemanha, ou à Nova Zelândia, são democracias plenas (a exceção parcial seria o caso especial de Singapura).

O segundo ponto crucial é que nenhum país, nenhum regime, nenhum líder estava plenamente preparado para uma emergência deste tipo que é por natureza inesperada. Talvez a dita “aliança das avestruzes” que agruparia líderes como Trump nos EUA, Maduro na Venezuela, Bolsonaro no Brasil, ou Ortega na Nicarágua estivesse especialmente mal preparado para lidar com este desafio. Daí ter preferido esconder a sua cabeça na areia, ignorar os riscos ou atirar a culpa para outros. Mas todos os Estados tiveram dificuldades em encontrar a melhor resposta.

É claro que é possível dizer que alguns Estados, para já, responderam melhor a este duro teste. O que têm em comum estes Estados? Têm economias ricas e instituições sólidas. Estão bem-dotados de recursos e reservas estratégicas. Investem em boas políticas públicas. A boa notícia também é que todos eles ou quase, da Coreia do Sul até a Alemanha, ou à Nova Zelândia, são democracias plenas (a exceção parcial seria o caso especial de Singapura).

O que os regimes autoritários fazem muito melhor do que as democracias é controlar a população. Este último aspeto pode ser uma forma brutal, embora eficaz, de controlar uma pandemia. As ditaduras também são excelentes a controlar o fluxo de informação. São, porém, muito más a lidar com más notícias. Este último aspeto torna difícil saberem atempadamente que existe uma pandemia, embora possa permitir, depois, por via da censura e da propaganda, atenuar ou reverter os seus efeitos negativos na perceção pública nacional e global.

Neste ponto, é fundamental a União Europeia reforçar a sua capacidade de combate à desinformação e à propaganda hostil. Mas também, e sobretudo, é fundamental que a UE mostre real solidariedade e uma capacidade eficaz de resposta a esta crise. Nada melhor do que uma Grande Depressão para facilitar o trabalho daqueles que aproveitam o desespero das pessoas que perderam o seu modo de vida para vir oferecer soluções simples e musculadas, mesmo que à custa do sacrífico das liberdades. Temos de garantir, pelo menos ao nível da Europa, que esta profecia não se concretiza.

Todas as crises são oportunidades de mudança. Será vital que a UE perceba que tem aqui uma oportunidade para modernizar a economia europeia e para reforçar a resiliência das sociedades europeias a este tipo de emergências. A UE tem, em suma, uma oportunidade que não pode perder de mostrar que consegue mudar para fazer mais pelos europeus.

Bruno Cardoso Reis (no twitter: @bcreis37), historiador e Sub Diretor do Centro de Estudos Internacionais do Iscte-IUL, é um dos comentadores residentes do Café Europa na Rádio Observador, juntamente com Henrique Burnay, Madalena Mayer Resende e João Diogo Barbosa. O programa vai para o ar todas as segundas-feiras às 14h00 e às 22h00. Pode ouvir aqui o último episódio.

Como é o plano para salvar a economia europeia