Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Primeiro, foi uma questão de lote: não havia necessidade de suspender a administração da vacina AstraZeneca porque o lote que estaria a causar efeitos graves noutros países não havia sido distribuído em Portugal. Depois, foi um assunto de evidências científicas: os dados recolhidos em Portugal não sustentavam os receios que estariam a ser levantados e a vacina manter-se-ia em administração até que a investigação concluísse que os riscos superavam os benefícios (o que não sucedeu). Finalmente, a política atravessou-se no caminho: a vacinação com a AstraZeneca foi suspensa após uma avalanche de pânico por toda a Europa, apesar de as entidades científicas não darem sustento a essa decisão, mas com Graça Freitas a referir “casos extremamente graves” noutros países. Andou-se do 8 ao 80 em meros cinco dias. E a conclusão possível é que se tornou impossível confiar nas posições da DGS, cuja credibilidade passou estes dias e o último ano a ser feita em picadinho com sucessões de ziguezagues. E agora? Agora é necessário que a Dra. Graça Freitas seja substituída na DGS.

Andamos a lidar com as incertezas da pandemia há um ano. Tempo ao longo do qual se exigiu que a decisão política se baseasse em evidências, em estudos, dados, cenários, avaliações de vantagens e desvantagens. Que houvesse decisões informadas e corajosas, planeamento atempado, riscos compreendidos e consequências aceites. E que as instituições de referência, como a DGS, funcionassem como um farol — a iluminar as dúvidas com factos, a sobrepor a ciência às agendas políticas, a usar da sua credibilidade para nos oferecer confiança. Na liderança da DGS, a Dra. Graça Freitas falhou nessa missão.

Falhou porque, em momentos chave, deixou que a política se impusesse. Fosse quando nos garantiu que a Covid-19 não chegaria a Portugal ou que as máscaras davam uma falsa sensação de segurança. Quando justificou critérios sanitários contraditórios, variando consoante a circunstância, tal como para os passageiros de aviões. Quando acusou de anti-patriotismo aqueles que questionavam a sua informação. Fosse, agora, aquando da suspensão da vacinação com a AstraZeneca. Mas aqui já não se trata de uma falha de comunicação pouco consequente. Desta vez, sobressai uma agravante: com as suas declarações a justificar posições contraditórias, Graça Freitas e a DGS fragilizaram a percepção pública sobre a segurança da vacinação. A partir de agora, isso é um problema, como o coordenador do plano de vacinação contra a Covid-19 reconheceu.

Dir-me-ão que recomendar a sua substituição será injusto para a Dra. Graça Freitas, ainda por cima após um episódio que tem a sua raiz no pânico político em vários países europeus. Talvez seja, mas o ponto não está aí — para o bom e para o mal, a política nada deve à justiça. Também não subestimo a complexidade das funções que desempenha, que no contexto de uma pandemia ficam mais expostas ao escrutínio e ao erro. (E quem ainda não teve de rever certezas sobre a pandemia que atire a primeira pedra.) Mas aderir aos ziguezagues equivaleu a um longo desgaste que sacrificou a credibilidade das instituições da linha da frente na contenção da pandemia. Desta vez, gerando desconfiança sobre a vacinação. Isso tem consequências e coloca vidas em perigo. E não se pode fechar os olhos a esse efeito.

Um programa de vacinação voluntária depende da confiança da população e, consequentemente, impõe uma responsabilidade reforçada na comunicação — para eliminar dúvidas ou receios que possam traduzir-se em menor adesão e, consequentemente, em menos vidas que se possam salvar. E, depois das suas várias contradições sobre o assunto, a Dra. Graça Freitas não é o rosto em quem os portugueses poderão confiar quando se retomar a vacinação com a AstraZeneca. Muito menos as suas garantias de segurança tranquilizarão a população, habituada aos seus ziguezagues justificativos. Tal como a vacina, a sua credibilidade está suspensa. Resta-lhe a saída.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR