Dezembro 2020?

Enquanto durou a crise do Covid19, ninguém se queixava de outras doenças, pois se alguma se manifestava, logo evoluía para aquela. Nenhuma compleição foi por si mesma capaz de resistir ao mal, fosse ela forte ou fraca; ele atingiu a todos sem distinção, mesmo àqueles cercados de todos os cuidados médicos. Havia também o problema do contágio, que ocorria através dos cuidados de uns doentes para com os outros, e os matava como a um rebanho.

O que acabou de ler não é um exercício futurista e apocalíptico sobre o que se passará nos próximos meses a propósito desta pandemia que nos assola. O que acabou de ler, com excepção da referência ao Covid19, é, na verdade, a descrição que Tucídides, há mais de 2.500 anos, fez, na História da Guerra do Peloponeso, da peste que assolou Atenas.

Nada disto é novo, nada disto é final.

Semana passada?

Quando a crise começou, a ideia era tratá-la com desdém. Toda a gente continuou a sua vida profissional e privada. Os teatros estavam cheios, os restaurantes não pararam e as ruas escuras tinham o trânsito do costume. Talvez mais não fosse que uma reacção saudável aos guinchos assustados dos elementos derrotistas na China. Depois, já suficientemente perto para que os meus amigos me empurassem para casa, confirmou a minha opinião de que teríamos de aceitar muitas restrições às comodidades habituais da vida.

O que acabou de ler, com pequenas adulterações, não é o que se passou na semana passada em Portugal, mas o relato de Winston Churchill, pelas suas exactas palavras, sobre o que se passou há 80 anos no Blitz.

Nada disto é novo, nada disto é fatal.

Ontem, hoje e amanhã

O nosso mundo está em estado de sítio. Quiçá, daqui a 2.500 anos, ou pelo menos daqui a 80 anos, o relato do que se está a passar neste período venha a ser lido e os dias que vivemos lembrados. Talvez não tanto pela grandeza do número de mortes, mas pela escala, pela natureza, pelos impactos e pela resposta dada a esta ameaça.

Não pela grandeza do número de mortes, porque se fizermos fé nos números disponíveis na internet, e  considerarmos os 50 milhões de mortos da Peste Negra (1333-1351), as centenas de milhares de mortos de Cólera (1817 a 1824), os mil milhões de mortos de Tuberculose (1850-1950), os 300 milhões de mortos de Varíola (1896-1980), os 20 milhões de mortes da Gripe Espanhola (1918-1919), os 3 milhões de mortos de Tifo (1918-1922), os 6 milhões de mortos por ano de Sarampo (!) até 1963, os 3 milhões de mortos por ano, desde 1980, por Malária, ou os 22 milhões de mortos por causa da SIDA (desde 1981), as vítimas mortais do Codiv19 talvez não venham a ser tão numerosas. Arrisco escrever isto a 21 de Março quando, considerando os dados do Johns Hopkins, já morreram 13.672 pessoas desde 20 de Janeiro.

Em que é que, então, pela escala, pela natureza, pelos impactos e pela resposta esta peste será lembrada?

Começando pela escala, esta pandemia é a primeira a ocorrer no pináculo do globalismo, com uma disseminação à velocidade do 5G. Esta é a pandemia, por excelência, dos tempos modernos: veloz e sem fronteiras.

Sobre a natureza, sendo uma pandemia não associada a comportamentos tipificáveis, a estilos de vida determinados, ou a regiões delimitadas, é a primeira pandemia verdadeiramente democrática. Sendo, porém, um vírus silencioso, assintomático e resiliente é mais eficaz que as democracias, já que nem os abstencionistas estão a salvo.

Quanto aos impactos, do que daqui descortino, talvez Bosch os retratasse melhor. Primeiro e antes de mais, a perda de vidas humanas, que ainda que não venha a atingir números de outras pestes e de outros tempos, serão sempre demasiados e dramáticos. Depois, o resto. Também importante, também vital. O colapso dos serviços nacionais de saúde, subdotados por defeito. O risco dramático de falência da economia, já antes dormente, e de que agora já temos sinais gritantemente alarmantes. Os efeitos corrosivos nos pilares da democracia liberal, com gente de todos os quadrantes a clamar por regressões proactivas e violentas das liberdades sem a menor tergiversão. E os medos e constrangimentos sociais que reconfigurarão durante muito tempo a interacção humana; já que é no contacto de proximidade, na expressão de afecto que o vírus medra.

E a resposta? A mais imediata, a mais urgente e a mais heróica está a ser dada por guerreiros desconhecidos: profissionais de saúde na linha da frente, a sofrer baixas por desprotecção, a enfrentar o risco, tão maior quanto menor o nosso recolhimento. Mas há mais, muitos mais: as operadoras de caixa dos supermercados, os voluntários na distribuição de alimentos aos mais vulneráveis, os motoristas de transportes públicos e de mercadorias, todos os que, por necessidade de função, não podem estar em teletrabalho, tantos que não deixam o país colapsar e mantêm os serviços vitais a funcionar.

Há outra resposta importante que esta sociedade está a dar a esta crise e para a qual todos podem contribuir. Todos os que se recolheram a casa, fosse por medo, por altruísmo, por sentido cívico ou por qualquer outra razão. Este recolhimento, impossível noutra altura da História para fazer face a esta ameaça, é parte da solução. E se é verdade que nunca esta geração enfrentou uma crise tão violenta como esta, é uma verdade ainda maior afirmar que nunca qualquer outra geração enfrentou uma crise com tanto conforto como esta. Construímos uma sociedade com avanços tecnológicos tais que, no meio da crise, nos permitem estar informados em tempo real, trabalhar, contactar com quem amamos e está distante, combater o isolamento, rir no meio do medo, organizar e promover a solidariedade, entreter e rezar. Aproveitemos a Quaresma, e demos graças por isto.

Finalmente, há uma derradeira resposta que só hoje é possível. E que alimenta, como nunca, a esperança do mundo. Essa resposta vem ciência. E dos consórcios vários que trabalham já, quer na descoberta de uma vacina, quer na criação de medicamentos que mitiguem os efeitos da doença. Essa resposta é uma resposta herdeira da ciência, da abertura, da liberdade, da cooperação e da iniciativa. Esta é, também, uma resposta do globalismo.

E depois de amanhã, quando as nuvens partirem…

…o céu azul brilhará. Quando matarmos o Covid19, convidem 19. Essa – e não agora – será a altura para nos abraçarmos novamente. Para nos beijarmos novamente. Para beber e fumar ao sol; aproveitando o cansaço da Direcção-Geral da Saúde. Mas essa será também a altura de restabelecermos os pilares essenciais da nossa Civilização, que nos permitiram fazer face a esta pandemia com a eficácia possível, sem nos deixarmos levar nas cantigas dos radicais que já vão assomando por aí. Mas sobre isso, falaremos então.

A força da união

Uma última palavra sobre a força da união. Numa grande guerra – e agora uso a metáfora da guerra apenas para sublinhar o esforço de alinhamento – é natural que os soldados encarem o aspecto militar como único e supremo e que até falem com relativo desdém da parte política da questão. Também acontece que a palavra “política” tem sido confundida e até manchada por associação com a chamada política partidária. Agora não é tempo para isso. Guardem as garras para depois, vão ter tempo. E vão ter motivos. Para já aprendam com o maior: os contactos extremamente próximos, íntimos, que prevaleciam entre o Gabinete de Guerra, os chefes de Estado-Maior e eu próprio, bem como a total ausência de sentimentos partidários na Grã-Bretanha daquela altura, reduziram ao mínimo esse tipo de discórdias. [A itálico: Winston Churchill, em Memórias da Segunda Guerra Mundial]

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Post scriptum: Eu sei que a metáfora da guerra, tantas vezes repetida nos últimos dias, é infeliz para caracterizar a peste. Toda a gente sabe que são Cavaleiros do Apocalipse distintos. E se fosse guerra, a economia não se retrairia tanto, o inimigo seria conhecido, estaria localizado e saberíamos ao que vinha. E não menos importante, poderíamos abraçar os nossos filhos, pais e avós para os tranquilizar sem medo de lhes fazer mal. Mas não é esse o caso. Amemo-los, pois, por estes dias, por estas semanas, por estes meses, à distância.