Os meus filhos adolescentes têm um jogo bizarro que consiste em escolher, de um par de opções não relacionadas, uma. Exemplo? Nunca mais comer chocolate na vida ou ouvir, para sempre e só, uma única música até morrer? Inspirado nesse jogo, hoje proponho-vos que escolham: preferem uma alma mergulhada em profundo sofrimento ou perder 70 mil milhões de euros? Lamento, na verdade não é bem uma escolha, é uma dupla profecia; vão acontecer as duas. Mas já lá vamos.

Primeiro, o contexto. Vivemos globalmente numa sociedade cada vez mais asséptica e tendencialmente eugénica, que entrou em pânico por causa de uma pandemia com uma baixa taxa de letalidade; com medo da morte. Em que se celebra a velocidade e a tecnologia de uma corrida de Fórmula 1, ignorando a pandemia, para, no fim de semana seguinte, por causa da pandemia, se restringir a circulação interconcelhia de quem vagarosamente queria visitar os seus mortos. Mas não, não é (só) de política que hoje vos quero falar, mas de gestão. E aproveitar o dia 2 de Novembro, dia dos Fiéis Defuntos, e a oportunidade rara para falar de morte e de mortos.

Há cerca de dois anos, em Paris, em representação da Associação Portuguesa de Comunicação da Empresa (APCE), num encontro promovido pela Associação Europeia para a Comunicação Interna (FEIEA), proferi uma comunicação sobre o que me parecia ser um dos principais desafios dos comunicadores internos nas organizações. Todos os outros palestrantes, de diversas nacionalidades, partilharam preocupações com as plataformas em uso, o social media e a digitalização do negócio. Eu, porém, mais analógico que digital, mais conservador que inovador, resolvi perguntar à assistência o que hoje vos pergunto a vós: o que é que as vossas empresas dizem aos trabalhadores que acabaram de perder um ente querido? O que é que lhes dizem quando estes, ou familiares próximos, estão a atravessar um momento doloroso resultante de doença prolongada e incapacitante, ou a atravessar um processo de luto?

Numa sociedade cada vez mais asséptica, cada vez mais centrada na saúde, nos bons hábitos de consumo, na prática desportiva, no sucesso e na “virtude”, a morte, a doença e a dor são inconvenientes com que ninguém gosta de lidar e para os quais as organizações têm dificuldade em produzir uma narrativa.

E pergunta o estimado leitor: valerá a pena as empresas produzirem uma narrativa e definirem uma estratégia para lidar com estas situações? Afinal, isto trata-se de uma adversidade diferente daquelas para as quais, nas organizações, estamos habituados a preparar estratégias de comunicação. Não se trata de crisis management, não se trata de uma situação na qual a organização, como um todo, se tenha envolvido ou tenha sido envolvida. Não se trata de um issue do negócio. Trata-se do sofrimento de um trabalhador, num determinado momento da sua vida. Nesta perspectiva, que pode a organização fazer para lá da concessão dos dias de luto que a lei prevê e o envio de uma coroa de flores com um cartão de condolências, perguntarão. Mas será apenas e exactamente só isso? Será que é apenas o sofrimento de um trabalhador, num determinado momento da sua vida?

Paul Watslawick alertou-nos para a impossibilidade de não comunicar. Quando uma organização opta por não tratar de um assunto, está a tomar, consciente ou inconscientemente, uma opção comunicacional.

Em Portugal, o horário de trabalho é de oito horas diárias, com uma hora de almoço, o que, para quem gasta duas horas em deslocações para e do trabalho, equivale a quase 50% do dia. Se considerarmos apenas o tempo “útil”, subtraindo oito horas de sono, então estamos a falar de quase 70% do tempo útil dedicado ao trabalho e à empresa. Ora, eu diria que numa empresa norteada pelos melhores valores humanistas, como tantas se anunciam, seria normal que houvesse uma comunicação interna adequada, sistematizada e com soluções para lidar com estas situações tão marcantes. Um processo de sofrimento relacionado com uma doença prolongada ou a perda de alguém que se ama é uma experiência traumática que causa, não raras vezes, uma profunda desestruturação identitária. E uma profunda desestruturação identitária traz-nos uma nova pessoa.

Aborreci-vos? Isto é pouco interessante? As empresas não são feitas para promover a felicidade dos seus trabalhadores, mas para ter lucro?

Então deixem-me dizer-vos que uma nova pessoa – a que resulta da desestruturação identitária – significa um novo profissional; um profissional ainda desconhecido, que vocês não contrataram, mas que trabalha nas vossas empresas, a lidar com os vossos clientes, com os vossos recursos; em síntese, com o vosso negócio.

E como negócio são números, vejamos alguns. Não de Covid-19, cujas vítimas mortais estão maioritariamente já fora da vida activa, mas de cancro, por exemplo. Cancro, aliás, que poderá ser um dos danos colaterais da Covid-19, considerando a gestão amadora, ideológica e danosa que Portugal tem feito da saúde pública nestes últimos anos.

De acordo com a International Agency for Research on Cancer (IARC), prevê-se, para a próxima década, na Europa, um aumento de 13,7% dos casos de cancro. A boa notícia é que a taxa de sobrevivência também tem aumentado. De acordo com uma publicação do International Journal of Cancer, os custos de perda de produtividade devido a mortes prematuras relacionadas com cancro, na Europa, em 2008, foram de 75 mil milhões de euros. Em 2018, um estudo mais recente aponta para que essa perda ronde os 70 mil milhões de euros – 50 mil milhões de euros pela mortalidade prematura e 20 mil milhões devido aos efeitos de morbilidade.

Agora captei a vossa atenção?

Eis-nos chegados ao ponto onde, quer tenhamos das nossas organizações o entendimento de que se tratam de espaços de pessoas felizes, ou o entendimento de que se tratam, apenas, de espaços de produtividade, a ausência de uma estratégia de comunicação para lidar com o sofrimento dos nossos trabalhadores pode não ser uma opção inteligente.

Da minha parte gostaria de resgatar para a gestão (e para a política) a cada vez mais vilipendiada e esquecida compaixão. Nelson Mandela disse-nos que “a compaixão humana liga-nos uns aos outros; não na pena e na condescendência, mas como seres humanos que aprenderam a forma de transformar o sofrimento partilhado em esperança para o futuro”. Creio que nos está a fazer falta.